quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Caçada Humana


Caçada Humana (The Chase, EUA, 1966). Direção de Arthur Penn. Com Marlon Brando, Jane Fonda, Robert Redford, E.G. Marshall, Angie Dickinson, Robert Duvall.


Renato Cordeiro

Os últimos dias de setembro de 2010 foram terríveis para o cinema. Em um espaço de cinco dias, sairam de cena a atriz Gloria Stuart, o ator Tony Curtis e o diretor Arthur Penn. Vi poucos filmes deste último e resolvi escrever sobre o que mais gostei, um clássico modesto chamado Caçada Humana. O trabalho de 1966 não foi bem de bilheterias, não ganhou Oscar, nem consta no livro 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer - acabei de conferir meu exemplar. Mas tem seus méritos, a começar pelo elenco de peso, com Marlon Brando, Jane Fonda, Robert Duvall e um estreante Robert Redford.

Na trama, Brando é Calder, um homem que carrega o fardo de ser xerife de uma cidadezinha habitada por pessoas que se dividem entre as medíocres e as execráveis. Entre as exceções que confirmam a regra está Bubber, um jovem injustamente acusado de assassinato, interpretado por Redford. Ele foge da prisão e deixa em polvorosa o município que vive a expectativa de que o suposto criminoso voltará à terra natal. Enquanto o tempo passa, os cidadãos revelam que a repulsa que causam no xerife tem sua razão de ser.

Analisando o filme hoje, lembra uma mistura de Cop Land, de James Mangold, e Dogville, de Von Trier. Do primeiro, há uma narrativa que se dedica a um grande número de personagens ligados por segredos e paixões que têm em seu xerife um espectador privilegiado, ainda que relutante. Do segundo, Caçada Humana reserva um pouco do clima de mau-caratismo endêmico que leva a momentos impactantes, que talvez expliquem o relativo fracasso do filme. Um exemplo é aquele em que o personagem de Marlon Brando é espancado. Filmada sem qualquer requinte, a longa cena esbanja um realismo do qual o cineasta Arthur Penn era bem afeito.

Nota: 7,0 (de dez)










segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Mashups Vs Recuts




Renato Cordeiro


Há dois dias, escrevi o post sobre recuts de trailers. A leitora Carol Custódio perguntou qual a diferença entre este tipo de vídeo e os chamados mashups. Como eu não sabia, corri pela internet em busca de uma resposta e resolvi dedicar um post ao tema. Não encontrei uma autoridade que tratasse do assunto, o que me levou a arriscar, pelo menos, discorrer sobre como lido com essa suposta diferença.

Se considerarmos os termos como auto-explicativos, a classificação parece um tanto óbvia. Um recut seria aquele trabalho que foi remontado, passou por uma nova edição, um jeito diverso de associar imagens ao longo do tempo. Já um mashup seria a mistura, a junção de duas coisas que originam uma terceira, que se constitui como algo novo. Poderia não ser necessariamente um vídeo, mas também uma imagem, clipe de música ou qualquer outra coisa.



Um exemplo de vídeo mashup seria o cultuado O Destino de Miguel, que reedita cenas de Shakespeare Apaixonado e acrescenta uma dublagem para cada personagem envolvido na trama.


É claro que, a rigor, os vídeos apresentados naquele post sobre recuts poderiam ser considerados mashups, já que inserem locução e trilha sonora que não constavam no filme/trailer original. Mas quando penso no termo recut, o que me vem à mente, em especial, é o que se faz do vídeo e do áudio original. Tomo como exemplo o recut de
O Iluminado, que apenas acrescentou uma locução e uma trilha sonora diferentes. De resto, as cenas e diálogos dos atores eram os mesmos do longa de Stanley Kubrick, combinadas de forma que dava a impressão de se tratar de uma comédia romântica.

Longe de acreditar que resolvi a questão conceitual, fiz uma nova seleção de vídeos, dessa vez tratando de trabalhos que, na minha avaliação, podem ser enquadrados como mashups. Fique à vontade para problematizar a questão. Outros trabalhos poderão ser indicados mais para frente, aqui no blog.



1 - O Destino de Miguel. Entrevistei o ator e cantor Zéu Brito semanas atrás e o sujeito explicou como surgiu a idéia desse vídeo, que partiu do André Moraes, compositor de trilha sonoras para cinema. Era pra ser só uma brincadeira entre eles e Wagner Moura, mas no mesmo dia em que os três estavam se divertindo com o filme Shakespeare Apaixonado apareceu no estúdio ninguém menos que o Sidney Magal, que tinha uma gravação marcada. Dai as proporções da paródia foram aumentando e o trabalho virou fenômeno na internet. Houve até uma continuação, O Retorno de Miguel, que não fez tanto sucesso. Mas Zéu diz que, ao que parece, Moraes tem uma nova loucura em mente. Vamos aguardar.





2 - Upception - Há uma grande quantidade de mashups feitos com base no áudio dos trailers originais do mais novo filme de Christopher Nolan, Inception (chamado no Brasil de A Origem). O melhor vídeo é este que põe o áudio ao fundo de cenas da animação UP, da Pixar. A fábula combina direitinho com o perfil onírico das cenas sugeridas pela música e a voz de Leonardo DiCaprio.





3 - Titanic 2 -
Falando no Dicaprio, quem gostaria de reencontrar o personagem dele em uma sequência de Titanic pode curtir este trailer falso de uma suposta sequencia para o longa de James Cameron. O vídeo mistura cenas de filmes como Con Air, Romeu + Julieta, O Demolidor e Um Sonho de Liberdade.





4 - Reservoir Turtles. Engraçadinho. A abertura já diz a que veio, apresentando as adoráveis tartarugas como membros de uma equipe de conflituosos assaltantes.





5 - A Hard Day's Night of the Living Dead. Uma gozação com o musical dos Beatles que marcou época mostrando cenas dos rapazes de Liverpool fugindo de fãs alucinadas. No mashup, eles passam a correr de zumbis de diferentes filmes, a exemplo de Madrugada dos Mortos, de 2004.





6 - The Fugitive's Day Off.
O maior herói dos anos 80 tem na sua cola o perseguidor mais casca-grossa já visto no cinema. Videozinho mais simples, mas simpático.






domingo, 26 de setembro de 2010

Recuts - Trailers Falsos


Renato Cordeiro

Tempos atrás, assisti um trailer falso que mostrava uma versão bem diferente para O Iluminado, filme de terror dirigido por Stanley Kubrick. Uma rápida passada pelo youtube mostrou que a onda pegou. Um Sonho de Liberdade, O Senhor dos Anéis, O Exterminador do Futuro e A Fantástica Fábrica de Chocolate são apenas alguns exemplos de longas que ganharam novos formadores de expectativas, nem sempre com resultados tão interessantes.

A maioria dos falsos trailers "transforma" os trabalhos originais em longas de horror, tarefa mais fácil quando se considera o formato padrão para o gênero, com cortes rápidos, muitas imagens saindo em fade e a manjadíssima adição de corais soturnos nos segundos finais. Por sinal, mais do que apenas tirar sarro dos filmes, os recuts apontam como está desgastada a fórmula de fazer trailers. Abaixo, uma pequena seleção das melhores remontagens.


1 - Shining - Originalmente, um terror psicológico baseado na obra de Stephen King. É a montagem mais famosa entre as brincadeiras do tipo, e de certa forma, a mais competente. O filme original é totalmente desconstruído apenas com uma locução e trilha sonora típicas das comédias românticas padrão, sem adição de quaisquer outros recursos.





2 - Amelie - The plague 2 - Seria a melhor remontagem, não fosse a locução que exagera na caricatura, chamando mais atenção do que deveria. Aqui, a doce Amélie Poulain se torna uma versão de saias do anticristo Damien, de A Profecia, com o mesmo dom de criar tragédias. Muito bem bolado, resultado fantástico.





3 - Scary Mary - Originalmente, a clássica aventura infantil Mary Poppins. Aqui a coisa já fica um pouquinho forçada, com efeitos que não existiam no original, mas o resultado é bom - e convenceria qualquer mãe a desistir de levar essa senhora para casa.





4 - Sleepless In Seattle - A comédia romântica dá lugar a um suspense à moda de Atração Fatal, com direito a uma Meg Ryan psicótica. Bem produzido, e o título original favorece a intenção.





5 - Top Gun - Originalmente, uma aventura de guerra, o filme se torna um drama romântico. Mas a Kelly MacGuilis ficou de fora nessa história...






Diário de um Banana


Diário de um Banana (Diary of a Wimpy Kid, 2010, EUA) Direção de Thor Freudenthal. Com Zachary Gordon, Robert Capron , Rachael Harris, Steve Zahn, Chloe Moretz.


Arrafinha

Tentei começar essa resenha focando no filme e não nos livros, mas realmente não dá.
Diário de um Banana é uma trilogia escrita por Jeff Kinney e, como grande parte das novidades que fazem muito sucesso, eu havia torcido o nariz para o livro com título besta e desenhos toscos.

Felizmente, a nova estratégia das editoras é oferecer livrinhos amostra grátis com o primeiro capítulo da obra. Depois de ler a amostra, acabei comprando os dois primeiros livros da série. Pois bem,
Diário de um Banana é extremamente divertido, diversas vezes me peguei rindo alto com as bobagens do protagonista Greg Heffley, um esperto menino de 11 anos que acaba de entrar no ensino médio.

Greg está na difícil fase de querer se enturmar, mas considera os colegas ao redor um bando de imbecis. Além de ter que encarar o High School, prezar por sua imagem pública e ter que cuidar de sua integridade física e do amigo Rowley, ele é constantemente atormentado pelo irmão mais velho, um adolescente que usa maquiagem nos olhos.

Vamos ao filme então, está tudo lá. Igualzinho. Até os desenhos de Greg são aproveitados no longa. Acredito que quem nunca leu os livros se divertirá mais. Adaptações extremamente fieis são perigosas, funcionam muito bem em filmes como
O Senhor dos Anéis por exemplo, mas se tornam entediantes em filmes mais realistas, sem a fantasia para dar suporte. Além disso, representar um personagem que já é carismático e inteligente como Greg é difícil, o ator Zachary Gordon não conseguiu dar conta, e seu Greg acaba se tornando meio antipático. Rowley, seu melhor amigo, o gordinho bobo que sofre bullying, rouba a cena.

Obviamente, a sequência já está sendo filmada.

Se ainda não leu os livros, veja o filme primeiro.

P.S.: Chloe Moretz (a Hit Girl de
Kick Ass) está em todas. Ela é filha de quem em Hollywood, hein?





sábado, 25 de setembro de 2010

A Casa do Lago


A Casa do Lago (The lake house, EUA/Austrália). Dirigido por Alejandro Agresti. Com Keanu Reeves, Sandra Bullock, Christopher Plummer.


Bee

Eu achei A Casa do Lago tão bonitinho que resolvi escrever sobre ele. Assisti num plantão de domingo bem maresia, com a equipe que estava comigo - metade já tinha assistido o filme antes, mas foi impressionante ver como todos estavam concentrados em novamente juntar as pecinhas deste lindo quebra-cabeças em forma de romance água com açúcar.

Romances não são minha especialidade, e eu assisto bem poucos deles. Mas eu já tinha me predisposto a conferir este quando vi o trailler no cinema, não só pelo enredo em si, mas pela música do Keane que foi usada nele, Somewhere Only We Know, que eu adoro. Detalhe é que fiquei esperando ela tocar o filme inteiro e nem sombra, me senti enganada!

De qualquer sorte, a história é boa. Sandra Bullock, no seu papel mais convincente e melancólico até hoje, interpreta Kate, uma jovem médica com uma história de desilusão amorosa no passado que não permite mais que as pessoas entrem em sua vida. Keanu, com o rosto mais cheio porém charmoso como sempre é Alex Wyler, um arquiteto também solitário com uma namorada chata e problemas de relacionamento com o pai. Um belo dia Kate se muda de uma casa de vidro sobre um lago e deixa uma carta para o próximo morador, Alex. Eles começam a se corresponder por cartas, e se apaixonam. Só que tem um detalhe: Eles estão em anos diferentes. O longa é uma adaptação de um filme sul-coreano chamado Il Mare, de 2000, o que pode explicar o tom sobrenatural do paradoxo de tempo.

O diretor é Alejandro Agresti, um argentino, e acredito que isso tenha influenciado positivamente na qualidade técnica do filme. Ele também é canceriano, o que pode explicar - para as pessoas que acreditam nisso, como eu - a delicadeza, a sensibilidade e o tom melancólico do remake.
Não vou detalhar a história, pois o que o filme tem de melhor é o roteiro e algumas sutilezas que dão prazer em descobrir, até porque a cronologia não-linear é bem gostosa. Os mais desatentos poderão se perder.

Não gostei do final do filme; achei meio apressado, como se a verba ou o prazo tivessem acabado e o diretor tivesse corrido para termina-lo. Mas gostei de ter assistido. O que é mais do que posso dizer da maioria dos romances que assisto.

Frase do filme: Me deixe deixar você ir.

Pra assistir: Num sofá confortável, tardezinha chuvosa, nos braços de alguém, tomando capuccino.






terça-feira, 21 de setembro de 2010

Bill Murray, sessenta anos


O senhor Murray está soprando velhinhas, quer dizer, velinhas. Ok, piada infame. O comediante é ele, certo? Não que ele seja só comediante, você sabe, o homem já mandou bem em papéis dramáticos, e teve fôlego novo na carreira depois do cultuado Encontros e Desencontros.

Rafinha encontrou um link interessante sobre o ator e o BF, por falta de assunto, resolveu fazer uma listinha dos trabalhos mais interessantes.



Os Caça-Fantasmas (Ghostbusters, EUA, 1984) Direção de Ivan Reitman. Com Bill Murray, Dan Aykroyd, Sigourney Weaver, Harold Ramis, Rick Moranis, Annie Potts, William Atherton, Ernie Hudson. Ele teima em não voltar ao papel do aloprado Peter Venkman, mas as esperanças por um terceiro filme da série estão mais intensas do que nunca. O pessoal da série The Office está cuidando do roteiro.

Feitiço do Tempo (Groundhog Day, EUA, 1993) Direção de Harold Ramis. Com Bill Murray, Andie MacDowell, Chris Elliott, Stephen Tobolowsky. Comédia romântica em que ele faz o homem do clima de uma emissora de TV, enviado para cobrir uma festa em uma cidadezinha pacata demais. O sujeito acaba preso no tempo, sendo obrigado a reviver todos os eventos daquele dia, continuamente.



Flores Partidas
(Broken Flowers, EUA/França, 2005). Direção de Jim Jarmush. Com Bill Murray, Jeffrey Wright, Sharon Stone, Frances Conroy, Jessica Lange, Tilda Swinton, Julie Delpy, Chris Bauer. Drama esquisitão bem ao gosto de Jarmush, mas de uma sobriedade angustiante. Murray é um velho garanhão que descobre ter um filho de 19 anos e parte em uma jornada atrás das ex-namoradas para tentar encontrar o rapaz.

Encontros e Desencontros (Lost in Translation, EUA, 2003). Direção de Sofia Copolla. Com Bill Murray, Scarlett Johanson, Giovanni Ribisi. Uma fábula moderna e melancólica sobre a solidão de um ator em ostracismo e de uma jovem esposa insatisfeita, que se tornam amigos em Tóquio.

Zumbilândia (Zombieland, EUA, 2009) Direção de Ruben Fleischer. Com Woody Harrelson, Jesse Eisenberg, Emma Stone, Abigail Breslin, Amber Heard, Bill Murray. O ator interpreta o personagem mais difícil da carreira em um mundo infestado por zumbis - uma pequena mas divertidíssima participação.



Não Tenho Troco (Quick Change, EUA, 1990) Direção de Howard Franklin e Bill Murray. Com Bill Murray, Geena Davis, Randy Quaid. Primeiro filme dirigido pelo ator, que lidera um grupo de assaltantes de banco às voltas com as complicações de um novo roubo. A crítica adorou, o público não.

Os Excêntricos Tenembauns (The Royal Tenenbaums, EUA, 2001). Direção de Wes Anderson. Com Gene Hackman, Anjelica Huston, Ben Stiller, Gwyneth Paltrow, Luke Wilson, Owen Wilson, Danny Glover, Bill Murray. Mais um papel pequeno na segunda das cinco parcerias de Murray com Anderson.

Sobre Café e Cigarros (Coffee and Cigarettes, EUA, 2003). Direção de Jim Jarmush. Com um monte de gente, incluindo Bill Murray. São onze curtas reunidos, sobre pessoas que discutem os mais diversos assuntos, sempre com os acompanhantes supracitados.



A Vida Marinha com Steve Zissou (The Life Aquatic with Steve Zissou, EUA, 2004) Direção de Jim Jarmush. Com Bill Murray, Owen Wilson, Cate Blanchett, Anjelica Huston, Willem Dafoe, Jeff Goldblum, Seu Jorge, Noah Taylor. Mais um Jarmush na filmografia do ídolo. No drama, ele intepreta um obcecado mergulhador, líder de uma equipe de excêntricos desbravadores.

Osmose Jones (Osmosis Jones, EUA, 2001) Direção de Peter Farrelli, Bon Farrelli. Com Chris Rock, Laurence Fishburne, David Hyde Pierce, Brandy Norwood, William Shatner, Molly Shannon, Chris Elliott, Bill Murray. Uma guerra entre anticorpos e vírus, dentro do corpo do personagem do astro sessentão.





segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Os Abutres Têm Fome


Os Abutres Têm Fome (Two Mules for Sister Sara, EUA, México, 1970). Direção de Don Siegel. Com Clint Eastwood, Shirley MacLaine, Manuel Fábregas, Alberto Morin, Armando Silvestre.

A reunião de nomes tão estrelados do western poderia ter rendido um filme melhor. O longa conta com um dos maiores astros do gênero, Clint Eastwood e roteiro de Budd Boetticher, cineasta que entendia do riscado, além da direção de Don Siegel, para quem vale o mesmo comentário. Isso, fora o semideus Ennio Morricone na composição da trilha sonora. O descompasso entre potencial e resultado pode ser explicado, talvez, pela natureza do trabalho, que investe nos aspectos cômicos da interação do par central, com resultados aquém dos desejados.

A trama acompanha o mercenário Hogan, que em um golpe de sorte, salva a freira Sara de malfeitores. Ela tem muitas informações sobre o quartel que ele planeja invadir, o que motiva o improvável casal a seguir em uma jornada até o grupo de juaristas com quem pretendem executar o plano. O conflito sexista que se poderia esperar é sufocado pelo hábito vestido por Shirley McClane, atriz de beleza clássica que não consegue salvar a personagem de ser um tanto irritante em boa parte do longa. Não por acaso, os poucos e breves bons momentos entre os dois ocorrem quando a religiosa se destempera. De resto, o espectador pode ter risos ainda mais amarelos que a
escaldante paisagem fotografada com competência por Gabriel Figueroa.

A história reserva ainda uma reviravolta no terço final do filme, tardia a ponto de ser incapaz de tornar o conflito entre Hogan e Sara mais interessante. Já as sequências de ação, que poderiam redimir o trabalho, são mornas e não empolgam, apesar da numerosa quantidade de tiros e explosões. É possível encontrar mais tensão e gargalhadas no ataque de Jason Robards ao trem tomado por bandidos em
Era Uma Vez no Oeste do que em todo Os Abutres Têm Fome.

Nota: 5,0 (de dez)





domingo, 19 de setembro de 2010

No Tempo das Diligências


No Tempo das Diligências (Stagecoach, EUA, 1939). Direção de John Ford. Com Claire Trevor, John Wayne, John Carradine, Thomas Mitchell, Louise Platt, George Bancroft, Andy Devine, Tim Holt, Donald Meek, Berton Churchill, Tom Tyler.


Renato Cordeiro

Li em algum lugar que há uma associação direta entre os filmes de mortos-vivos e o clássico do faroeste No Tempo das Diligências. A afirmação faz todo o sentido. A subcategoria dos filmes de horror, que tem no cineasta George Romero o principal representante, quase sempre trabalha com a situação em que indivíduos diversos - e por vezes antagônicos - precisam se unir para sobreviver às ameaças externas. O deslocamento, apesar de necessário, sempre envolve risco a todos os integrantes do grupo, que por vezes precisam conviver em algum espaço reduzido, como uma casa abandonada. A fórmula está presente desde o seminal A Noite dos Mortos-Vivos, de 1968. Mas quase 30 anos antes, o western de John Ford já havia apresentado a mesma estrutura narrativa.

O longa acompanha os passageiros de uma diligência pelo Arizona, uma viagem perigosa por causa do risco de ataque do lendário índio Gerônimo. Entre os diversos arquétipos a bordo da carruagem, são os párias que tem maior destaque, a exemplo da prostituta, o pistoleiro, o jogador e o médico alcóolatra. Os quatro destilam atos nobres no desenrolar da trama, enquanto o banqueiro é um covarde desconfiado. Os apaches, retratados muito antes dos faroestes revisionistas, são encarados como selvagens, de forma sempre justificada.

O clássico se impõe ainda hoje como boa diversão e apresenta elementos importantes das técnicas de direção, como o uso do foco na famosa apresentação do personagem de John Wayne, e a câmera em lugares inusitados, como na ótima cena em que a diligência tem de cruzar um rio. O epílogo, um pouco longo demais, não compromete o bom trabalho.

Nota: 7,0 (de dez)




quarta-feira, 15 de setembro de 2010

1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer

Renato Cordeiro

Você pode encontrar muita coisa sobre cinema na internet, especialmente se considerar a existência do onipotente portal IMDB. Há uma gama de informações como sinopses, trilha sonora, fichas técnicas, merchandisings e o que você imaginar a respeito da sétima arte, tudo isso a poucos cliques de distância - e de graça. Em um cenário assim, quem precisa pagar por aqueles volumosos guias de cinema e vídeo? Bom, eu preciso, e isso nada tem a ver com a satisfação de ver um monte de livros sobre cinema empilhados na estante.
Um dos principais motivos para esta preferência é a comodidade da leitura, que ainda não foi superada por monitores de computador, por melhores que sejam os e-books atuais. O segundo é a possibilidade de ler críticas qualificadas sobre os filmes, algo descentralizado e nem sempre disponível na rede.
1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer segue aquela linha que fez sucesso depois do 1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer. A premissa é a mesma: você fazer de conta que sua vida pode ser tão longa, e os afazeres tão ínfimos, que dá pra cumprir toda a demanda cultural que o livro sinaliza. Mas é um item bacana mesmo assim.
O livro, ao menos na edição que tenho, trata de obras a partir de Viagem à Lua, dirigido por Georges Meliès, de 1902, até Desejo e Reparação, lançado em 2007 sob a batuta de Joe Wright. A maioria das recomendações, como era de se esperar, são produções em língua inglesa, sobretudo dos Estados Unidos. Há uma ou outra coisa do Brasil, a maior parte bem previsível, como Deus e O Diabo na Terra do Sol, Cidade de Deus e O Pagador de Promessas. Algumas escolhas fazem torcer o nariz - o meu, por exemplo. Uma página inteira dedicada a Top Gun, quando obras maravilhosas como Os Intocáveis, Quando Fala O Coração e Curtindo a Vida Adoidado tiveram apenas meia, cada uma?
Apesar das inevitáveis controvérsias, a qualidade dos textos colabora para o bom divertimento. E mesmo não concordando com tudo, o livro tem seu valor, sobretudo por apontar algumas peças interessantes para completar o repertório cinematográfico.


terça-feira, 14 de setembro de 2010

Um Ano Sem Patrick Swayze


Renato Cordeiro

Há um ano atrás Patrick Swayze, astro de sucessos como Dirty Dancing, Ghost e Caçadores de Emoção, perdeu uma luta de dois anos contra o câncer. Pra falar a verdade, sempre torci o nariz pra esse tipo de frase, fulano perdeu a batalha contra o câncer... É como dizer que Patrick Swayze se deu mal em uma briga contra 15 lutadores faixas pretas. Ser derrotado em uma luta nestas condições está longe de ser desonroso, ao contrário do que a frase sugere. Se há mérito, está na forma como se lida com a doença, mesmo que o final da história não seja feliz.

Swayze teve câncer de pâncreas, um tipo muito grave deste mal. A luta que travou foi muito penosa. Em certo momento, chegou a ser anunciado que ele tinha conseguido se curar. Meses depois, veio a notícia de que o problema havia retornado. Imagine o efeito psicológico. Pior, imagine ter de contradizer um jornal que chegou a anunciar que o ator havia morrido. Pois é, o Senhor Swayze foi dado como morto muito antes de que o fato se concretizasse e teve, ele mesmo, que desmentir a informação.

Por outro lado, ao longo da batalha, não faltaram demonstrações de solidariedade. Deve ter sido um conforto ver a internet cheia de mensagens de lamentos e incentivos, uma compaixão espontânea que, suspeito, foi amplificada pela maneira aberta como o astro falava do assunto. Não que tivesse de fazer isso, seria direito dele se resguardar. E talvez fosse até melhor, dada a maneira desumana como os tablóides e revistas sobre a vida alheia tratavam desumanamente o drama do ator. Mas ele preferiu não fazer isso e deixou explícita não apenas a doença, mas também uma certa dignidade.



A filmografia de Swayze tem muita coisa abaixo da linha da mediocridade, verdade seja dita. O ator ficou sem bons papéis por longos períodos, e apenas de vez em quando voltava com um arrasa-quarteirão. Isso foi se tornando menos frequente ao final da carreira. Um dos primeiros papéis de destaque foi um drama sob a batuta de Francis Ford Copolla, Vidas Sem Rumo, de 1983. Além de Patrick, estavam no elenco C. Thomas Howell (A Morte Pede Carona), Ralph Macchio (Karatê Kid), Matt Dillon (O Selvagem da Motocicleta), Emilio Estevez (Jovem Demais para Morrer), Rob Lowe (Sobre Ontem à Noite) e o astro Tom Cruise, em pequeno papel.

Um ano depois, foi lançado Amanhecer Violento, a história de um grupo de estudantes armados que tenta resistir a uma invasão de comunistas comedores de criancinhas em solo americano. Sem comentários. Aliás, tem um que vale a pena fazer: aqui ele contracenou com Jennifer Grey, com quem estourou no romance teen Dirty Dancing. As cenas de dança entraram para a história e Swayze teve espaço até para dar uma canja na trilha sonora.




O começo dos anos 90 foram generosos para o astro. De cara, o sucesso absoluto com Ghost - Do Outro Lado da Vida, romance dramático em que interpreta um fantasma que busca consolar e proteger a viúva. Logo depois, emendou o bacaníssmo Caçadores de Emoção, agora na pele do líder de uma quadrilha de assaltantes de bancos que se amarra em esportes radicais. O trabalho, eletrizante, é um dos poucos da cineasta Kathryn Bigelow, a mesma que venceu o Oscar recentemente com Guerra ao Terror.




Daí em diante, a carreira de Patrick Swayze não teve mais grandes sucessos de bilheteria. Os trabalhos mais dignos de nota incluem uma drag queen na comédia Para Wong Foo, Obrigado Por Tudo - Julie Newmar, de 1995, e um curioso papel coadjuvante no cultuado Donnie Darko, de 2001. E em vez de tentar se dissociar do personagem que arrebatou corações em 1987, ele não apenas participou de uma continuação de Dirty Dancing, com um pequeno papel, como ainda divulgou o DVD de vinte anos do longa em um programa da Oprah. Swayze Pode não ter sido o maior ator de sua geração, mas convenhamos, ele parecia ser um cara legal. Apesar de atirar em comunistas na juventude.







20 Filmes Que Fazem os Homens Chorarem



Renato



Essa é para os marmanjos. A BBC fez uma lista com 20 filmes que (supostamente) fazem os homens chorarem. A maior parte da relação me parece beeeem discutível, mas vamos lá:


1 - Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei
2 - Um Sonho de Liberdade
3 - UP - Altas Aventuras
4 - Um Estranho no Ninho
5 - Marley e Eu
6 - The Champ
7 - Diário de uma Paixão
8 - Babe, o Porquinho Atrapalhado
9 - Campo dos Sonhos
10 - Carruagens de Fogo
11 - Quando o Coração Bate Mais Forte
12 - Steam of Life
13 - Os Encrenqueiros
14 - Chamas da Vingança
15 - A Vida é Bela
16 - Ponte para Terabítia
17 - Uma Saída de Mestre
18 - Rocky,o Lutador
19 - Minha Vida de Cachorro
20 - Um Romance do Outro Mundo

Agradecimentos Danielle Pimenta, pela informação.



Minha relação seria bem diferente. 10 Filmes.


1 - Sempre Ao Seu Lado. Filme com Richard Gere, baseado na história real de um cachorro japonês que tinha o hábito de ficar em uma estação ferroviária esperando o dono voltar do trabalho. Risco extremo de desidratação.

2 - Dança Com Lobos. O momento em que militares capturam John Dunbar culmina na morte de dois fiéis amigos do personagem de Kevin Costner.

3 - Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas. Concordo com Bee na avaliação de que a filmografia de Tim Burton, rica em visual, é pobre em profundidade. Ele dirige belíssimos pratos rasos, mas quando o homem acerta...

4 - Recordações - E Algumas Mentiras Que Seus Amigos Deixam Passar. Filme pouco conhecido, um dos últimos protagonizados pelo saudoso Richard Harris, aqui contracenando com Robert Duvall. A amizade na velhice em tom melancólico.

5 - O Garoto. Chaplin tem a manha. Pior pra você.

6 - Ninguém Pode Saber. Longa japonês baseado em fatos reais. Na ausência da mãe, um menino tem que cuidar sozinho dos três irmãos mais novos e descobre o quanto a vida pode ser dura.

7 - As Pontes de Madison. É difícil acreditar que um cara que fazia Bronco Billy umas décadas atrás poderia dirirgir um filme desses.

8 - Conta Comigo. O final, com a narração do personagem já crescido, é de uma tristeza atroz.

9 - Um Sonho de Liberdade. Só pra não dizer que não concordo em nada com a lista da BBC.

10 - Benji - Um Cão Desafia a Selva. Chorei com esse, sim. Não ria. Você faria o mesmo.

Menções honrosas: Forrest Gump, Coração Valente, Os Intocáveis.






segunda-feira, 13 de setembro de 2010

O Bem Amado


O Bem-Amado, Brasil, 2010. Direção de Guel Arraes. Com Marco Nanini, Matheus Nachtergaele, Tonico Pereira, Andréa Beltrão, Zezé Polessa, Drica Moraes, Caio Blat, Maria Flor, José Wilker, Edmilson Barros, Bruno Garcia.


Renato Cordeiro

O Bem Amado segue a fórmula de outros exemplares da filmografia de Guel Arraes, como O Auto da Compadecida, e Lisbela e o Prisioneiro. É comédia de sotaques, ágil, com texto saboroso e bons atores. E em vez da colagem de situações episódicas de alguns trabalhos do cinema nacional, esta adaptação da obra de Dias Gomes tem um fio narrativo mais claro, com começo, meio e fim.

Marco Nanini vive Odorico Paraguassu, político da pior estirpe que assume a prefeitura de Sucupira. A principal promessa de campanha foi criar um cemitério para evitar que os mortos da cidade sejam enterrados em outros lugares. A oposição pega no pé do governo municipal, contestando a necessidade da obra. Em meio a briga, ele procura manter um olho na filha, que se envolve com um jornalista, e outro nas Irmãs Cajazeiras.


As tramas paralelas tem resultados distintos. A primeira pouco acrescenta à narrativa. Já a trinca
formada por Zezé Polessa, Andréa Beltrão e Drica Moraes ajuda a realçar a figura do político pilantra que tem ares conquistadores de um Juscelino Kubitscheck. E falando em paralelismos entre ficção e realidade, o jingle da campanha de Odorico lembra perfeitamente as marchinhas messiânicas que marcaram a carreira de nomes como Jânio Quadros e Getúlio Vargas.

Não que a história seja a mesma daquela levada à tela da TV nos anos 60. Arraes entende que a comédia não pode usar luvas de pelica, e atualizando a trama para os dias atuais, dedica uma parte de sua acidez para aquilo que ainda entendemos como "a esquerda". Tonico Pereira faz o dono de um jornal de oposição ao prefeito, sendo uma figura capaz de atos pouco nobres em favor de um "bem maior". Por fim, merecem destaque no elenco de apoio Edmilson Barros, como o típico bêbado local, e José Wilker, fabuloso na pele de um matador.

Vale a pena dar uma olhada nesta entrevista com o diretor.

Nota: 7,0 (de dez)



Bee

Eu não li O Bem Amado, de Dias Gomes, apesar de ser uma leitora compulsiva, mas também eu sou uma só e não posso dar conta de ler todos os livros do mundo. Então fui assistir a O Bem Amado munida apenas dos comentários que ouvi durante toda a minha vida sobre Sucupira, Odorico Paraguaçu, aa Irmãs Cajazeiras, e Zeca Diabo. O que não é muito.

Mesmo assim, fui com expectativas razoáveis, já que Guel Arraes é um diretor bacana.

Bem, uma coisa que percebi é que a adaptação do texto original não foi bem dosada. Existem linhas da história que parecem estar lá apenas de enfeite enão levam a lugar nenhum, como a da filha de Odorico (Maria Flor) e o personagem de Caio Blat – enfeite e a oportunidade perfeita para tirar a roupa da personagem, um ato sem o qual o cinema brasileiro parece não saber sobreviver.

O filme poderia ser melhor. Guel traz uma estética recorrente que eu particularmente gosto: as cores meio almodovarianas, o figurino caprichado, cenários detalhistas. O elenco do filme é excepcional, e claro que Marco Nanini e Zé Wilker (e o resto do estrelado elenco) dão alma ao texto, mas não é suficiente. O roteiro e a direção – e a montagem, talvez? - pecam por excessos de velocidade e gritaria, num continuum de situações meio coladas sem uma boa definição de tempo.

O filme se inicia com - e tem enxertos de - um pseudo-documentário narrado por Caio Blat no qual ele teoricamente explica como os eventos em Sucupira afetaram a política nacional brasileira e influenciaram no governo de Jânio Quadros. Achei interessante, mas sub-utilizado.

Enfim, apesar do texto atemporal de Dias Gomes, e do excelente momento político para o lançamento do filme, já que estamos em época de eleições, a sensação é de que há um equilíbrio pouco saudável entre pontos positivos e negativos no filme que decepciona. De qualquer forma, é interessante conferir a obra, nem que seja para se divertir com Marco Nanini e a verborragia caricata e criativa de Odorico, e conferir como anda a renovação do cinema nacional.

Para assistir: Num início de tarde, num cinema baratinho, sexta-feira.







domingo, 12 de setembro de 2010

Matar ou Morrer


Matar ou Morrer (High Noon, EUA, 1952). Direção de Fred Zinnemann. Com Gary Cooper, Grace Kelly, Lloyd Bridges, Katy Jurado, Lee Van Cleef, Lon Chaney Jr., Ian MacDonald, Thomas Mitchell., Robert J. Wilke.


Renato

Um artigo recorrente em publicações sobre cinema é aquele que trata dos maiores arrependimentos de atores que recusaram determinados papéis. Um caso que vale citar é o de Gregory Peck. O ator declinou do convite para estrelar um culturado faroeste, Matar ou Morrer. Reza a lenda que ele acreditou que seria algo repetitivo, por ter protagonizado outro trabalho do gênero, O Matador, lançado dois anos antes. O papel acabou parando nas mãos de Gary Cooper, que deve ter agradecido.

O longa começa com a cerimônia de casamento do xerife Will Kane, estragada pela notícia de que o maior inimigo dele, Frank Miller, chegará em pouco mais de uma hora a bordo de um trem. O bando do sujeito já o espera na estação, e não é difícil imaginar a primeira coisa que vão fazer quando se reunirem. O homem-da-lei não tem delegados suficientes para enfrentá-lo, e chega a considerar fugir, mas volta à cidade disposto a encarar o malfeitor. Ele tem pouco tempo para conseguir mobilizar os cidadãos a apoiá-lo, tarefa que não será fácil.

O xerife teria sido bem adequado à carreira de Gregory Peck, que se notabilizou por viver homens idealistas de moral elevada. Mas o próprio ator, com a habitual modéstia, afirmou em entrevistas que mesmo se tivesse aceitado o papel, não conseguiria superar a interpretação de Gary Cooper. Desconfio que tinha razão. Tomo a liberdade de usar um termo de Saymon Nascimento, que ele utiliza ao se referir ao desempenho de Charles Bronson em outro renomado western, Era Uma Vez No Oeste. Dizia que Bronson tem a vida do personagem marcada na cara. O caso se aplica bem a Cooper. Cada ruga do homem torna ainda mais crível aquele sujeito que concilia coragem, orgulho, cansaço e desespero.

Como faroeste, Matar ou Morrer não é nem um filme tão icônico assim. A paisagem não chega a ser tão explorada, as cenas de ação se concentram no final da trama e não são lá das melhores. Mas o diretor Fred Zinnemann consegue imprimir tensão ao longo de toda a espera pela chegada de Frank Miller. O longa transcorre em tempo real, apresentando relógios nos cenários regularmente para potencializar a expectativa. Ao mesmo tempo que este é um dos grandes trunfos da obra, revela uma fraqueza, que são as tramas paralelas - necessárias, mas sem muito brilho, especialmente nas cenas rodadas na estação, bastante monótonas.

Nota: 7,0 (de dez)





sábado, 11 de setembro de 2010

O 11 de Setembro no Cinema


Renato Cordeiro


Em 1990, um grupo terrorista se apoderou do equipamento de comunicação de um avião lotado e o levou a uma aterrissagem desastrosa. Um dedicado policial estava na pista de pouso naquela noite e, com tochas na mão, em meio à neve, tentou sinalizar para o piloto que o sistema de navegação da aeronave estava com indicação errada. Não adiantou. Mais de duzentas pessoas perderam a vida na hora. A cena, uma das mais comentadas de Duro de Matar 2, foi considerada na época aquela com o maior número de mortes na história do cinema.

Diversos outros filmes mexeram com o imaginário do público estadunidense e colocaram o terrorismo como um dos grandes problemas a serem enfrentados dentro da Terra do Tio Sam. Exemplos incluem T
rue Lies, O Pacificador e Nova York Sitiada, todos produzidos antes mesmo dos atentados de 11 de setembro. Não é fato recente que o medo do outro, que justifica há tempos a política intervencionista de Washington, seja fonte de inspiração natural para o cinema. O protagonismo em diversas guerras também não passou despercebido, mesmo com o fim dos conflitos: alemães, vietnamitas e russos foram largamente retratados como inimigos desalmados, especialmente nos anos 80.

Quando o World Trade Center veio abaixo, abalou Hollywood imediatamente. De início, especula-se que o ataque poderia ter custado a vida do astro Jackie Chan. Na trama de Nosebleed, ele interpretaria um limpador de janelas às voltas com terroristas. Havia uma filmagem marcada para acontecer nas Torres Gêmeas no dia fatídico, mas o ator não recebeu o script a tempo e resolveu ficar em casa. Este e outros projetos foram cancelados, por trabalharem com o tema do terrorismo. O assunto que vendeu tantos filmes e estigmatizou países estava proibido nas telonas. Depois da tragédia, vários longas que estavam prontos para estréia tiveram a data de exibição remarcada, a exemplo de Efeito Colateral, com Arnold Schwarzenegger. The Governator vive um bombeiro que vai à caça dos responsáveis pela morte da família em uma explosão ocorrida em solo estadunidense.

A queda das torres também deu trabalho aos editores e supervisores de efeitos especiais. Filmes que estavam para estrear tiveram de remover cenas com as torres ou apagá-las digitalmente, como ocorreu em Zoolander e Homens de Preto 2. Outra conhecida consequência do atentado foi o cancelamento de um divertido trailer do primeiro longa do Homem-Aranha. Pelo menos, na época, era para ser divertido.




Nova York já não era mais a mesma, mas a vida precisava continuar, e o cinema também. O diretor que, para muitos, traduz a Grande Maçã, resolveu deixar de lado o perfil ermitão e aproveitar a audiência de uma cerimônia do Oscar para fazer um raríssimo comparecimento. Woody Allen pegou muita gente de surpresa quando foi anunciado, e fez uma homenagem à cidade que nunca dorme.




Mas o que todos se perguntavam era quais seriam os primeiros diretores a filmar ficções baseadas nos atentados. Em 2002, foi lançado 11 de Setembro, uma reunião de onze curtas com nove minutos cada um, dirigidos por nomes tarimbados como Sean Penn, Amos Gitai e Alejandro González Iñárritu. Outras produções relevantes incluíram as de Oliver Stone e Paul Grengrasss, ambas de 2006. Stone já tinha certa experiência em tocar nas feridas do Tio Sam. Platoon e o documentário Comandante, com Fidel Castro, são alguns exemplos. Em As Torres Gêmeas, ele conta o evento através de bombeiros que sobreviveram ao atentado, ficando soterrados no poço do elevador. Já Greengrass rodou Vôo United 93, uma tensa ficção em tom documental, sobre os passageiros que se rebelaram contra os terroristas, levando à única ação frustrada entre as previstas para aquele dia.




Ao longo dos anos, diversos filmes fizeram referência aos atentados, algumas vezes de forma mais sutil, como em A Última Noite, de Spike Lee, e em outras como parte do plot, como ocorreu no drama Reine Sobre Mim. Mas se a arte imita a vida, o documentário é o lugar de honra para comprovar a tese.

É espantoso que o melhor longa sobre os atentados contra as Torres Gêmeas seja tão pouco conhecido. 9/11, de 2002, foi pensado inicialmente para registrar a preparação de um jovem bombeiro. Ele foi acompanhado por dias dentro do quartel, sempre aborrecido pela ansiedade para entrar em ação em um grande evento. Os mais velhos o advertiram: "cuidado com o que você deseja".
Em uma das imagens, uma ação de rotina em uma rua próxima do World Trade Center termina no registro do exato momento em que o primeiro avião se choca contra uma das torres. Imagem rara, de uma "sorte" tremenda. A partir daí, imagens e sons impressionantes, captadas em primeira mão, transportam o espectador para dentro da tragédia, de uma forma que duvido que outro possa fazer. Se você quer assistir um único longa sobre os atentados de 11 de setembro, que seja este documentário.








sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Como treinar seu dragão


Como Treinar Seu Dragão (How to train your dragon, USA, 2010). Direção de Dean DeBlois e Chris Sanders. Vozes de Jay Baruchel, Gerard Butler, Craig Fergusson, America Ferrara.


Bee

Eu aprendi a ler com as maravilhosas histórias de Asterix e Obelix, dos franceses Uderzo e Goscinny - e isso explica inclusive muita coisa sobre minha personalidade. Eu me lembro que em uma das revistas os bravos gauleses, cuja única coisa de que tinham medo era de que o céu lhes caísse sobre a cabeça, encontrava um povo que proclamava não sentir medo de nada: os normandos.

É nessa linha de destemor que se encontram os protagonistas da nova animação da Dreamworks: Os vikings. Enquanto vilas de outros povos precisam lutar contra chacais, lobos, raposas, hienas, gafanhotos, mosquitos e toda a sorte de praga, os vikings sofrem, há muitos anos, com os ataques de nada mais nada menos que... dragões.

Isso, do tipo que cospe fogo e tudo.

A história se desenrola seguindo os passos de Soluço, o filho do chefe da vila de Berk. Apesar deste status elevado, Soluço é um rapaz um tanto problemático: ele é pequeno, magro, atrapalhado e inteligente, ou seja, ele é um nerd. O nerd filho do chefe viking. É uma história um tanto batida, mas nesse caso funciona perfeitamente.

Os vikings são especialistas em caçar dragões, sendo esta uma habilidade adquirida por pura necessidade, já que de outra forma a tribo já teria sido extinta. E dentre os vários tipos de dragões, existe o pior de todo: o Fúria da Noite. Ele não consta dos manuais. Ele nunca foi visto de perto. Ele é uma lenda lendária... E um deles é atingido por Soluço durante um ataque de dragões à vila, e cai.

Soluço, em sua tentativa de se mostrar digno de seu povo, vai em busca do dragão... E eis que se inicia uma amizade totalmente improvável.

É acompanhando essa amizade, suas ramificações e o conflito que isso gera na vida do protagonista que o filme vai deslizando por nossos olhos, impressionando pela beleza, pelo realismo dos movimentos, pela fluidez das imagens. Não só o roteiro é bacana, apesar dos clichês já previsíveis, mas a parte gráfica do filme - Dreamworks, né, minha gente? - é linda.

Para ver: Essas coisas muito bonitas eu recomendo ver no cinema full HD em casa. Se tiver Home Theater melhor ainda.

Frase do filme: Nós somos Vikings, isso é um risco ocupacional.




Alice no País das Maravilhas


Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, USA, 2010). Direção: Tim Burton. Com Johnny Depp, Mia Wasikowska, Helena Bonham Carter, Anne Hathaway, e vozes de Michael Sheen, Stephen Fry, Alan Rickman.


Bee

Tim Burton é um diretor daqueles bem autorais mesmo. Seus filmes têm uma assinatura própria tão forte que é fácil identificar um filme dele mesmo que você não saiba que é dele. É só observar seus trabalhos mais famosos: Edward Mãos de Tesoura, Beetlejuice (Os fantasmas se divertem), O estranho Mundo de Jack, Noiva Cadáver, O remake da Fantástica Fábrica de Chocolate... Os elementos estão lá: Trilha sonora de Danny Elfman, uma direção de arte fascinante, filmes sombrios e fantásticos... E de preferência o Johnny Depp ou a Helena Bonham Carter ou ambos.

Alice não foge da fórmula de Tim, e justamente por isso, ao mesmo tempo em que nos proporciona um prazer visual e estético do nível de
Avatar (não por coincidência têm o mesmo diretor de arte), temos a impressão de que Alice não passa de mais do mesmo. É com pesar que constato isso: os últimos filmes de Burton não têm feito jus ao seu imenso talento. Pressões de mercado? Crise existencial? Fato é que, do mesmo jeito que Sweeney Todd, Alice é bonito, muito bonito, mas não tem aquele "quê" a mais de seus grandes filmes. Seu roteiro é mediano, e o filme transcorre sem grandes emoções, num tom morno que às vezes irrita um pouco. Ao contrário da maioria das críticas, não achei que a atuação da Mia Wasikowska tenha sido ruim, acho que a personagem - ou o roteiro - não ajudaram. Ou foi o Tim? Mistério.

O roteiro mistura elementos dos dois livros de Lewis Carrol, Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho. É interessante ver os elementos do País das Maravilhas em outro contexto, em um retorno de Alice a este mundo. Depp é um ator que realmente se sobressai, apesar de estar meio preso a personagens caricatos. Bonham Carter segue uma linha parecida, e não decepciona - sua rainha de copas é absolutamente fantástica. Há toques muito divertidos na história, e as ambientações são muito originais, como a corte da Rainha Branca, de uma Anne Hathaway competente.

No frigir dos ovos, Alice é um filme visual. Belíssimo, inclusive. A arte predomina sobre todo o resto, e é um filme que vale a pena ser visto, apesar dos seus pontos fracos. Como não assisti em 3D, não posso comentar.

Para assistir: Numa TV digital full HD de muitas polegadas, que provavelmente mostrará muito mais detalhes e beleza visual do que a tela de cinema. Com um baldão de pipoca e muitos amigos e crianças.

Frase do filme: Eu costumava fazer os chapéus da Rainha Branca, você sabe; a cabeça dela era tão pequena!



quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Quincas Berro D’Água


Quincas Berro D’Água (Brasil, 2010). Direção e Roteiro de Sérgio Machado. Com Paulo José, Marieta Severo, Mariana Ximenes, Vladimir Brichta, Milton Gonçalves, Othon Bastos, Walderez de Barros, Carla Ribas, Luisa Proserpio, Flavio Bauraqui, Irandhir Santos, Frank Menezes, Luis Miranda.


Ema

Quincas Berro D’Água é a adaptação do famoso livro de Jorge Amado A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água, e trata, como se pode imaginar pelo titulo, das aventuras de um morto pela noite boêmia da Salvador antiga, numa época que pode abranger os anos 20, 30 ou 40.

Para os que nunca leram o livro (como eu): Quincas morreu e seus amigos de farra, num misto de inconformismo com sua morte e dúvida acerca do óbito, resolvem sair com o amigo pela cidade para farrear, num ato que pode ser considerado como uma despedida simbólica dele.

A história em si é caricata, ainda mais quando se trata de um tema tão batido e já apresentado em diversos formatos. Quando do lançamento do livro, era sim uma história nova. Mas hoje em dia, não.

Como o livro se passa, em sua maior parte, em ambientes fechados, Sérgio Machado, de acordo com o próprio, fez uma livre adaptação da obra. Muito do filme se passa nas ruas de Salvador.

Aí, encontramos todo o folclore que se tem notícia da cultura da Bahia: candomblé, botecos, lindas negras, capoeiristas, classe média branca, estrangeiros, enfim, toda a fauna típica de Jorge Amado.

O filme é bem produzido? Sim. Bem atuado? Médio. Divertido? Quase. Bem dirigido? Não. Como a história é caricata, a direção fica complicada, e Sérgio exagerou na mão. Justiça seja feita, Paulo José está ótimo de Quincas.

Mas é interessante ver Salvador travestida, antiga. É interessante reconhecer as locações, os atores locais. Mas meu interesse parou por aí. Não indicaria esse filme pra muita gente se não fosse um filme brasileiro. Mas como é brasileiro, acho que vale dar uma olhada em nós mesmos e no que estamos produzindo.





terça-feira, 7 de setembro de 2010

Para Wong Foo, Obrigada Por Tudo! Julie Newmar


Renato

O Grupo Gay da Bahia completa 30 anos de fundação hoje, mesma data em que, há 15 anos, era exibido nos cinemas estadunidenses o filme Para Wong Foo, Obrigada Por Tudo! Julie Newmar. Curiosamente, o título nacional do longametragem foi traduzido ao pé da letra, em vez de terem-no taxado como Uma Viagem do Barulho, Três Travestis Demais ou algum outro nome imbecil.

Foi lançado pouco depois de Priscila, A Rainha do Deserto, que possui um tema parecido. Ainda não vi Wong Foo, mas lembro de ter assistido uma entrevista de Patrick Swayze para Jô Soares, à época em que o ator divulgava o filme em terras tupiniquins. Uma das coisas que ele relatou foi o desconforto de Wesley Snipes, ator típico do cinema de ação, que interpretou uma das três drag queens que encalham em uma cidadezinha enquanto viajavam pelo interior dos Estados Unidos.









Atividade Paranormal


Atividade Paranormal (Paranormal Activity, USA, 2007). Direção de Oren Peli. Com Katie Featherston, Micah Sloat e outras pessoas bastante desconhecidas.


Bee

Sou fã confessa de filmes de terror. Morro de medo com vários, principalmente no cinema, que é um ambiente já favorável. Já machuquei namorados com apertões, arranhões, tapas bruscos em meio a sustos muitas vezes construídos de maneira simples, com música e imagens que aparecem do nada. Prefiro os suspenses, o terror psicológico e a tensão ao horror explícito cheio de sangue, carnes expostas e pedaços voando.

Dentre os filmes de terror que mais me amedrontam, os de fantasma e possessão demoníaca ganham disparados. Poltergeist, O Exorcista, O Sexto Sentido, todos são filmes que me apavoraram ao ponto de fechar os olhos em determinadas cenas. Sim, eu sou susceptível à construção de clima e sou um pouco impressionável.

É por isso que quando Atividade Paranormal acabou, eu dei graças aos céus por ter assistido de dia, durante um intervalo num dos meus plantões, sozinha no quarto, apenas na penumbra. Estava taquicárdica e acho que estava com os olhos um pouco arregalados. Se fosse de noite, acho que teria problemas para dormir, ou no mínimo, um sono agitado estaria garantido.

Nada como uma câmera na mão e uma ideia na cabeça. Partindo dessa premissa, Micah, o namorado de Katie, decide gravar estranhos fenômenos que vêm acontecendo à noite na casa que dividem. No estilo Bruxa de Blair, REC e Cloverfield, não há edição, trilha sonora, iluminação; existe apenas a câmera, os atores uma boa história.

O filme acompanha um espaço de tempo em que os fenômenos paranormais vão se intensificando lentamente, criando uma tensão adequada entre os personagens e no espectador. As descobertas sobre o que são na verdade os fenômenos e as tentativas de lidar com eles levam a trama a uma escalada dos mesmos de forma que os últimos minutos do filme são bastante perturbadores. O filme se desenrola narrativamente em uma linha reta ascendente, sem muitos sobes e desces.

Eu adorei.

Para assistir: no cinema, sessão corujão, e depois ficar insone por dois dias.

Frase do filme: Eu não comprei uma tábua Ouija, eu peguei uma emprestada!





O Profeta


O Profeta (Un prophète, França/Itália, 2009). Direção de Jacques Audiard. Com Tahar Rahim, Niels Arestrup, Adel Bencherif, Hichem Yacoubi, Reda Kateb, Jean-Philippe Ricci.


Renato

Malik El Djebena já começa o filme chegando à prisão. O espectador pouco sabe sobre a vida pregressa do jovem, que quase se resume à condenação por agredir um policial, o analfabetismo e a ascendência árabe. O primeiro dado não importa e o segundo o próprio detento corrige dentro da prisão. Já a etnia faz mais diferença para os outros do que para ele, que chama atenção do poderoso chefão local, o corso César Luciani. Ao mesmo tempo em que executa trabalhos sujos para o criminoso, Djebena tenta encontrar uma forma de ascender dentro do mundo do crime.

O trabalho é um drama policial bem na linha daquilo que o Brasil tem se especializado em fazer, a exemplo de produções como Salve Geral. A diferença é que a narrativa aqui não é a do pobre cidadão honesto nem é a do ladrão de ocasião. O longa é de um criminoso que não possui grandes motivações morais, ainda que possa se apegar emocionalmente a um companheiro de crime e até mesmo a uma das primeiras vítimas que cruzam seu caminho na prisão.

O anti-herói do filme fala francês e árabe, mas não se identifica com qualquer uma destas habilidades. A série de ofensas dirigidas aos presos muçulmanos acaba por despertar em El Djebena uma certa consciência e solidariedade étnica, mas isso em nenhum momento municia algum impulso vingativo que possa comprometer o principal objetivo do personagem. Ele busca apenas sobreviver, esforço que responde por boa parte do que é O Profeta. A saga resulta funcional, mas sem brilho e com uma duração excessiva, de mais de duas horas e meia. A economia da arte parece estar em baixa no cinema, mesmo o europeu.

Nota: 6,0 (de dez)



Bee

O Profeta é um filme francês, e isso já define parcialmente a obra. Já sabemos que não será de jeito nenhum um filme pipoca ou caça-níqueis. Ao menos não quando é um filme francês premiado como este foi, com o grande prêmio do Juri em Cannes. Concorrente ao Oscar de melhor filme, perdeu para O Segredo dos Seus Olhos. Mas não importa, porque ele é suficientemente bom para ter arrebatado vários prêmios no César, o Oscar francês.

Não é um filme leve. Senti um certo desconforto a princípio, pois não sabia nada sobre o filme e esperava algo diferente, mas ele foi me cativando aos poucos, quando compreendi seu objetivo real. Denso, imersivo, com excelente narrativa, ele vai nos levando com um certo fascinio mórbido e algo repugnante ao longo da história de Malik El Djebena, um jovem de descendência árabe que vai para uma prisão francesa. Ignorante a princípio, Malik vai se envolvendo passo a passo com outros criminosos e galgando os degraus que o levam a crimes cada vez maiores e sofisticados, usando de uma mistura bem dosada de subserviência, malícia e visão de futuro. Aliando uma excelente estrutura narrativa a uma trilha sonora muito funcional, o filme se destaca principalmente na escolha de elenco, que atua com maestria. Malik, o protagonista, impressiona porque, mesmo se tornando um criminoso cada vez mais influente – e isso é mostrado de forma brilhantemente sutil ao longo da história – não deixa de manter um ar de espanto, de alheamento, de uma certa inocência. O crime que marca seu dèbut dentro da prisão o acompanha ao longo do filme dando um ar de realismo fantástico à la Gabriel Garcia Marquez, que dá um tempero a mais à obra.

Cheguei a pensar que o filme era baseado em fatos reais, porque parecia a biografia de um personagem extremamente possível, desses que pode facilmente ser romantizado pela mídia.

Para assistir: Num cinema de arte, sugiro o espaço Unibanco Glauber Rocha, se você estiver em Salvador.