domingo, 8 de agosto de 2010

Homem de Ferro 2


Homem de Ferro 2 (Iron man 2, EUA, 2010). Dirigido por Jon Favreau. Com Robert Downey Jr, Don Cheadle, Scarlett Johansson, Gwyneth Paltrow, Mickey Rourke, Samuel L. Jackson.


Bee

Vou fazer minha estreia aqui falando de Homem de Ferro 2. Este foi o quarto filme que vi no cinema em seis meses, e por bons motivos (leia-se um bebê de seis meses, na época, hoje com oito e meio), e na verdade posso contar nos dedos das mãos e pés quantos filmes eu assisti neste período.

Tony Stark está de volta!! Após o grande sucesso que consagrou Iron Man como uma das melhores e mais coerentes adaptações cinematográficas de super-heróis clássicos dos quadrinhos, esta continuação foi aguardada com muita expectativa, principalmente após o lançamento dos traillers mostrando uma parte dos desdobramentos que se seguiram à revelação final de Stark. Além de novos desafios, como um cara esquisito com dois chicotes de energia que prometem atrapalhar a vida de nosso herói, o governo americano tem interesses bastante patróticos na armadura do Homem de Ferro, o que sempre costuma ser um problema.

Iron Man 2 me divertiu bastante, pois tem (pra mim) alguns méritos dignos de nota. Primeiro, ele consegue ser uma sequência que se mantém razoavelmente no nível de seu predecessor, o que em si já é um fenômeno. Segundo, ele traz um dos meus atores preferidos da atualidade, o carismático Robert Downey Jr. Terceiro: Mickey Rourke. E não posso deixar de falar de Scarlett Johansson, uma das poucas mulheres do cinema que me fazem questionar minha sexualidade.

Trazer Downey Jr e Mickey Rourke juntos no mesmo filme é como uma celebração das fênix. Ambos são atores que estiveram no ostracismo por bastante tempo, e ressurgiram das cinzas de suas carreiras para roubar o show em Hollywood. Downey Jr. pode não ser o melhor ator do mundo, mas com certeza sabe escolher seus personagens, e os encarna com gosto - nada melhor do que um excêntrico, egocêntrico, narcisístico e megalomaníaco Tony Stark para provar isso. Já Rourke está absolutamente impagável como o Russo Ivan. Eu não faço a menor idéia de como é o sotaque de um russo falando inglês, mas eu aposto que Rourke fez bem feito, inclusive por ele ter visitado uma prisão russa para preparar o personagem. Aliás, não seria exagero da minha parte dizer que Mickey Rourke é o ponto alto do filme.

Não espere muito do roteiro de Iron Man 2, que é seu calcanhar de Aquiles. Previsível, meio bobo em algumas horas, apelativo em outros, mesmo assim nos traz momentos de uma diversão que me parece cada vez mais rara nos filmes de ação. As cenas de luta com a Scarlett são muito bem feitas, e risadas são garantidas ao longo do filme, inclusive porque seu diretor participa de algumas cenas como eficaz alívio cômico. Ele parece um sujeito bem-humorado. Não faço a menor idéia de como o filme se comporta enquanto adaptação dos quadrinhos, só sei que, enquanto nerd que não gosta muito de quadrinhos de super-heróis, Iron Man 2 vale o ingresso.

Frase do filme: “Eu quero meu pássaro”.


Pra ver: No cinema, telão, com o melhor som possível.



Mary and Max


Mary e Max (Mary and Max, Australia, 2009). Direção de Adam Elliot. Com vozes de Toni Colette, Phillip Seymour-Hoffman, Eric Bana e Barry Humphries.


Bee

Assisti Mary and Max após ver o Pablo Villaça comentando no twitter que esta era a melhor animação do ano passado. Num ano de ótimas animações, como Up! e Era do Gelo 3, ouvir este comentário sobre um filme desconhecido, de um dos meus críticos preferidos de cinema, me deixou bastante curiosa. Assisti. E não me arrependi.

Mary and Max não é uma animação para crianças, e talvez por isso não tenha atingido um público grande. Mas nem por isso deixa de ser um filme incrível.

Mary é uma garotinha australiana solitária dentro de uma família disfuncional. Seu mundo é em tons de marrom, sua cor preferida – literalmente, já que o sépia é a cor predominante usada nas passagens que apresentam a personagem. Sua visão de mundo é bastante peculiar, assim como sua curiosidade. E de forma bastante peculiar, também, ela descobre a existência do ex-judeu novaiorquino Max, com quem começa a trocar cartas. O mundo de Max, igualmente solitário e disfuncional, é ainda mais sem vida do que o de Mary, mostrado sempre em branco e preto.

A apresentação dos personagens Mary e Max é genial, e descreve suas formas de pensar e se relacionar com o mundo de maneira ao mesmo tempo singela, poética, amarga e irônica. É belo e triste, e nos cativa quase que instantaneamente. Ao longo da projeção acompanhamos o desenrolar desta improvável amizade, suas alegrias, frustrações e lições, e como ela muda o mundo dos protagonistas. Até mesmo o cinzento mundo de Max ganha alguns tons quentes do marrom de Mary. Ela cresce. E as mudanças em sua vida afetam o mundo de Max.

Senti que o filme perdeu um pouco o excelente ritmo no final, quando surge a sensação de que algo está se arrastando sem necessidade, mas essa quebra não é suficiente para comprometer a excelente qualidade da história.

Quero chamar a atenção para a tocante narração em off, a dublagem fantástica do Phillip Seymour Hoffman dando vida ao Max, à animação linda e delicada em claymation (ou bonecos de massinha) e às inúmeras referências sutis a várias coisas durante o filme.

Sem nenhuma hesitação posso dizer que Mary and Max se tornou um dos meus filmes preferidos.

Frase do filme: (Difícil escolher, entre tantas absolutamente geniais). “Não aconteceu muita coisa desde a última vez que escrevi, exceto eu ter sido acusado de assassinato, ter ganhado na loteria e a morte de Ivy”.

Para ver: Em casa, confortavelmente, ao lado de alguém com quem você gostaria de passar toda a sua vida.

SPOILER

Além de todas as suas inúmeras qualidades, Mary and Max ainda cumpre um papel importante na desmistificação do autismo e na inserção daqueles que sofrem do transtorno ao nos mostrar que na verdade Max não é uma pessoa estranha à toa. Ele é portador da síndrome de Asperger, uma forma de autismo na qual os pacientes conseguem ser minimamente funcionais, apesar de desprovidos da capacidade de se relacionar emocionalmente com os outros de forma saudável.



Lista: Dez Filmes Sobre Pais

Boa parte dessa relação de filmes que abordam a relação entre pais e filhos se enquadra na narrativa da reconciliação. Mas o primeiro vai na categoria "inspiração", mesmo.




O Sol É Para Todos (To Kill a Mockingbird, EUA, 1962): Um advogado viúvo se desdobra entre a criação dos dois filhos e a defesa de um homem negro acusado de estupro. A trama é apresentada pelo ponto de vista da filha mais velha. O bondoso personagem Atticus Finch valeu um Oscar a Gregory Peck.




Kramer Vs Kramer (EUA, 1979): Dustin Hoffman é um workaholic que precisa se virar pra cuidar sozinho do filho quando a mulher vai embora, no auge da insatisfação com o casamento. 4 Oscars, um deles para Hoffman, outro de coadjuvante para Meryl Streep, que vive a esposa.

Meu Pai, Uma Lição de Vida (Dad, EUA, 1989): O princípio é o mesmo, mas agora o viciado em trabalho é o filho, vivido por Ted Danson, que volta pra casa depois de anos. Ele interrompe a agenda de compromissos para cuidar da mãe, e descobre que é seu pai, interpretado por Jack Lemmom, quem mais precisa de ajuda.




A Grande Viagem (Le Grand Voyage, França/Marrocos, 2004): Um jovem que vive na França se vê obrigado a levar o pai em uma viagem à Meca, mesmo sem compartilhar da visão religiosa que envolve a jornada. No caminho, procuram analisar um ao outro, sem saber se poderão se reaproximar.

As Chaves de Casa (Le Chiavi di Casa, Itália, França/Alemanha, 2004): Um rapaz encontra pela primeira vez o filho a quem abandonou depois do parto traumático, que matou a mãe e deixou a criança com problemas físicos e mentais. Ele acompanha o menino, criado pelos tios, em sua viagem anual a um hospital de reabilitação.




Estamos Todos Bem (Stanno Tutti Bene, Itália/França/EUA, 1990): Os filhos do idoso representado por Marcello Mastroianni anunciam o cancelamento de um encontro anual que costumam fazer com o pai. Ele resolve então arrumar as malas e fazer uma visita surpresa a cada um deles, mas acaba se surpreendendo com as vidas que tem levado. Houve uma refilmagem recente, com Robert De Niro no papel principal.

Um Longo Caminho (Qian li zou dan qi, Hong Kong/China/Japão, 2005): Um homem solitário, pai de um cineasta que está morrendo, resolve ir à China para gravar um documentário que o filho queria dirigir, como forma de fazer as pazes.



Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas (Big Fish, EUA, 2003): Nos últimos dias de vida de Ed Bloom, o filho tenta separar o que é verdade e o que é ficção nas histórias contadas pelo pai. Disparado, o melhor trabalho de Tim Burton. Ewan McGregor e Albert Finney, que se parecem bastante, se revezam entre as fases jovem e idosa do personagem.

Nove Meses (Nine Months, EUA, 1995): Aqui, o que está em questão é a pré-paternidade, por assim dizer. Hugh Grant assume o papel de um psiquiatra infantil que vê seu mundo virar do avesso com a notícia de que a namorada está grávida. Engraçadinho.



O Pai da Noiva (Father of the Bride, EUA, 1950): Spencer Tracy interpreta o pai da exuberante Elizabeth Taylor, que está de casamento marcado. Cabe a ele, que sente que perderá a filha, organizar o evento. Clássica comédia dirigida por Vincente Minelli, refilmada nos anos 90.



sábado, 7 de agosto de 2010

A Origem


A Origem (Inception, EUA/Reino Unido, 2010). Direção de Christopher Nolan. Com Leonardo DiCaprio, Joseph Gordon-Levitt, Ellen Page, Tom Hardy, Ken Watanabe, Marion Cotillard, Dileep Rao, Cillian Murphy, Tom Berenger, Michael Caine, Pete Postlethwaite.

Renato

A Origem é mais uma prova de que o cineasta Christopher Nolan deve ser levado à sério. Depois de Batman - O Cavaleiro das Trevas, ele volta a comandar um longa-metragem de ação com uma complexidade incomum a essse tipo de trabalho, especialmente no que diz respeito ao roteiro. Em boa medida, é uma trama do tipo "filme de ladrões": um homem ousado reúne uma equipe para executar um trabalho audacioso. Mas em vez de pinturas, cassinos ou carros, a mercadoria é a informação na mente da vítima, que fica mais acessível no momento em que o alvo está sonhando.

O plot lembra filmes como Morte Nos Sonhos e A Hora do Pesadelo, mas a comparação não vai muito adiante. A Origem explora de modo mais profundo os aspectos psicológicos da construção de imagens durante o sono, e neste sentido, os efeitos especiais fazem mais do que deixar o espectador impressionado, já que também possibilitam a criação de cenas belíssimas. Um destaque é o momento em que o personagem vivido por Leonardo DiCaprio dá uma aula prática para a arquiteta vivida por Ellen Page, que descobre uma forma inusitada de utilizar espelhos. Outro momento fabuloso é a luta iniciada em um corredor, protagonizada pelo emergente Joseph Gordon-Levitt, de 500 Dias Com Ela.

O elenco, a propósito, é daqueles em que você conta nada menos que dez nomes relevantes, como a sensação francesa Marion Coitllard (de Piaf e Nine), e o sumido Tom Berenger (do clássico Platoon). Ken Watanabe, Cillian Murphy, e Michael Caine, que já colaboraram com Christopher Nolan em filmes anteriores, reforçam o time.

Com tudo isso, o trabalho já estaria ótimo, mas a trama escrita pelo próprio diretor vai mais além, e aborda a natureza das idéias e como são construídas. A questão filosófica é debatida entre os integrantes do grupo de DiCaprio com a seriedade com que tratariam do passo-a-passo para um assalto a banco. Discussões como essa devem se arrastar depois que as luzes do cinema voltarem a acender.



Bee

Não existe nada mais poderoso do que uma idéia. Idéias movem o mundo. Mudam o mundo. Idéias são contagiosas. Uma única idéia pode mudar uma pessoa. E se de repente uma idéia pudesse ser plantada na sua mente e você não pudesse perceber que ela não é realmente sua? E como fazer isso?
No inconsciente, é claro.
E só existe uma entrada para o nosso inconsciente que pode ser acessada.

O sonho.

Em inception, isso é possível.

Eu já estava cansada de ficções científicas parecidas, com o mesmo tipo de desenvolvimento do futuro, as mesmas perseguições, paranóias, designs futurísticos, intolerâncias e estruturas. Então não é exagero dizer que inception foi me cativando quadro a quadro, com esta sua premissa principal simples e genial, não em algum futuro distante, não em uma galáxia inimaginável. Inception é um pouco Fringe - ciência de borda. Não é impossível, ainda não existe - que saibamos - mas é plausível.
O longa de Christopher Nolan (o hoje já renomado diretor de títulos de sucesso, como Amnésia, Batman Begins e O Cavaleiro das Trevas) é escrito e dirigido por ele. Como uma sinfonia, Nolan tece e vai regendo com precisão e inteligência uma trama complexa, em camadas, de realidades dentro de realidades, até o momento em que nos encontramos perdidos em um labirinto de sonhos. Nossas próprias mentes vão sendo conduzidas, passeando por conceitos, referências mitológicas, suposições, construções. Juntos, somos levados pela mão por Nolan, que nos faz construir teorias como os arquitetos de sonhos de seu universo.

E isso tudo num filme de ação e espionagem. Que inclusive sincroniza com perfeição subtramas paralelas em universos com tempos que transcorrem em diferentes velocidades. Tudo isso ao mesmo tempo. Agora.

Sempre apreciei muito filmes que não insultam minha inteligência a todo o instante, esmigalhando, destroçando a trama em busca de uma saída fácil. Saí de inception me sentindo extremamente respeitada: os elementos estão lá, os conceitos tambem. Alguns detalhes são sutis, outros feitos para nos desorientar. Somando tudo, temos um pequeno quebra-cabeça, onde as peças podem ser encaixadas de mais de uma forma, e o resultado ainda assim soa belo e ambíguo.

Não vou me prender a falar de aspectos técnicos, mas preciso salientar a trilha sonora densa de Hans Zimmer que dá o tom perfeito à trama; a escolha da música 'Non, Je ne regret rien' de Edith Piaf num filme que tem no elenco Marion Cotillard - intérprete da cantora francesa num filme biográfico recente; a edição fantástica e minuciosa de cenas que intercalam os acontecimentos simultâneos em 5 níveis diferentes da realidade.

Por tudo isso, eu aplaudo Christopher Nolan de pé. Ele entrou no meu rol de grandes diretores, e provavelmente agora eu assistirei tudo que ele fizer mesmo que seja ruim.

Para assistir: Concentrado, no cinema, com a atenção a mil e a mente bem aberta.

Frase do filme: Paradoxo.