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domingo, 4 de novembro de 2012

O Estupefactante Aranhomem






O Espetacular Homem-Aranha (The Amazing Spider-man, EUA, 2012)
Direção: Mar Webb (500 dias com ela)
Roteiro: James Vanderbilt (Zodíaco, Robocop), Alvin Sargent (Lua de Papel, Homem-Aranha 2 e 3) e Steve Kloves (série Harry Potter) 
Com: Andrew Garfield, Emma Stone, Rhys Ifans, Denis Leary, Martin Sheen, Sally Field.

Daniel Fróes


Primeiro, o título do filme deveria ser "O Estupefactante Aranhomem".

Dito isto, o filme não é muito diferente do que promete - uma aventura adolescente com o aracnídeo da vizinhança.

Neste reboot, o pai de Peter é um bioquímico que estuda processos de mescla genética entre diferentes espécies. Ele foge de um perigo desconhecido, deixando Peter com os já conhecidos tios Ben e May.

Peter é menos "nerd" e mais "descolado" neste reboot. Ele anda de skate, é socialmente ativo na escola (faz parte do clube de debate) e mantém sua "veia fotográfica". É amigo (de certa forma) do valentão da escola (Flash), e conhecido de sua futura namorada, Gwen Stacy.

O enfoque da história é adolescente, os diálogos são adolescentes, o ritmo é adolescente, e isso não é uma coisa ruim, afinal o público alvo é o público adolescente. As personagens são mais críveis do que os 3 filmes anteriores, mais humanos - a menina bonita não é uma deusa inalcançável, o menino mau não é um monstro terrível, e o próprio Parker não é um nerd sociopata sem amigos.

As condições financeiras de Parker não são tão ruins quanto nos filmes anteriores, e há outras diferenças importantes, como a morte do tio Ben, que ainda é ocasionada pela "inação" de Peter.

O filme funciona razoavelmente bem como uma metáfora da fase adolescente da vida, onde o corpo muda pelos hormônios, onde o sexo se torna mais presente, onde queremos provar coisas, onde nos sentimos mais seguros de algumas coisas e menos seguros de outras.

A acabaram as coisas boas sobre o filme.

A história é boba e mau contada. Há coisas demais a serem "ditas", mas em pouco tempo e de forma corrida. Peter se comporta de uma forma quando está sem máscara, mas de outra muito diferente quando está travestido de Aranhomem - e não me parece que tenha sido de propósito, como para demonstrar nossa máscara social, mas sim um mau direcionamento da personagem.

Há muitas incongruências de realidade típicas de episódios de He-man: em alguns momentos o herói tem força e agilidade descomunais, e em outros ele apenas se aproxima dos limites humanos. Os carros quebram facilmente em alguns momentos, e são indestrutíveis em outros. Diretores e roteiristas de filmes de ação precisam aprender a lidar com essas coisas, urgentemente.

As capacidades intelectuais e conhecimentos de "ciências" de Peter também são  mostrados de forma confusa no filme, e ao final não sabemos se ele é realmente brilhante ou apenas sabe uma coisa aqui e ali que, somadas às anotações do pai, aparentam ser informações contundentes.

Não há construção da personagem em termos intelectuais, não acompanhamos o desenvolvimento do garoto. Vemos que ele tem algum conhecimento de mecânica porque ele tem uma tranca eletrônica na porta, mas de repente ele constrói em casa um lançador de teias. É inverossímil.

Assim como é inverossímil seu uniforme e mais ainda os óculos que ele usa, que não quebram.

Não posso falar muito de verossimilhanca com relação aos poderes - de Peter e de seu inimigo, Lagarto - mas uma coisa sempre me incomoda: o fato do poder "aranha" do Aranhomem não ter nada a ver com aranhas. Ele está mais pra Lagartixomem do que para Aranhomem, pela sua capacidade de se grudar nas coisas (algo que tentou ser sanado em Homem-Aranha 1, com as minigarras nas mãos e pés do herói, e a teia orgânica produzida por seu corpo).

Além disso, seu "sentido aranha" é, na verdade, místico. Sem contar que some e aparece de acordo com a necessidade do roteirista.

Algo que me parece muito mais "verossímil" é considerar o Aranhomem como um mutante que teve suas capacidades ativadas a partir do estresse causado pela aracnídea picada. Faria mais sentido.

Aliás, gostaria de avisar à bioquímica wannabe Gwen Stacy que aranhas não são insetos - ela se refere ao herói por bug-boy, algo como garoto-inseto.

Também vou alertar para um problema de direção de câmera: a inconsistência, em especial quando o Aranhomem está em ação. A "Visão POV" é utilizada hora sim, hora não, sem motivo aparente. Aquilo era pra vender jogo de Free Runing (LeParkour) com o herói, não?

O final do embate entre o herói e seu algoz é emblematicamente non-sense, porque o Lagarto salva o jovem, que poderia ter se salvo sozinho, sem grandes problemas.








sábado, 28 de julho de 2012

Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge


Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises, EUA/Reino Unido, 2012). Direção de Christopher Nolan. Com Christian Bale, Tom Hardy, Gary Oldman, Anne Hathaway, Joseph Gordon-Levitt, Marion Cotillard, Morgan Freeman, Michael Caine, Matthew Modine, Liam Neeson, Cillian Murphy.


Renato Cordeiro

Christopher Nolan falhou. O diretor sempre teve vícios, mas se metia em projetos com variados pontos altos que compensavam algumas deficiências. Os êxitos em filmes como A Origem e o próprio Batman - O Cavaleiro das Trevas justificaram por tempos o bordão "In Nolan, We Trust". Mas agora, os vícios do cineasta ressurgem misturados à quase absoluta falta de atrativos no capítulo que encerra a trilogia dedicada ao Homem Morcego. Há clichês, excesso de personagens, uma trama smplória e cenas de ação tediosas, ainda que os efeitos especiais, como era de se esperar, funcionem bem.

Se podemos citar um ponto alto deste "Batman 3" é a capacidade do filme em construir tensão. O grande ponto baixo é justamente não saber o que fazer com isso. A trama acumula uma série de situações desesperadoras para o herói, subjugado física e mentalmente pelo terrorista brutamontes chamado Bane. O confronto cria uma dimensão trágica de proporções ainda maiores das que verificamos no longa anterior, cuja história se passa oito anos antes. O problema de plots  como esse é que a aguardada reviravolta costuma não soar convincente. Nesse ponto, a produção falha miseravelmente.

Depois de derrotar Batman, Bane o aprisiona em uma masmorra especial e passa a dominar a cidade do personagem. Convenhamos, a forma como Bruce Wayne se recupera da surra é um tanto difícil de engolir. E apesar de ser um leigo em assuntos de coluna, imagino que as quedas subsequentes em tentativas de escalada promovidas pelo herói deveriam ter custado a espinha do dito cujo. A esta altura, os iniciados na mitologia do herói dos quadrinhos já terão percebido elementos das sagas A Queda do Morcego e Terra de Ninguém. O vilão perenemente mascarado e bem-interpretado por Tom Hardy cria um governo próprio em Gotham City e parece apenas estar esperando seu oponente "ressurgir", mas inexplicavelmente, quando isso finalmente acontece, Bane se mostra surpreso. 

E não, esse parágrafo acima não pode ser considerado spoiler. Isso é um filme de super-heróis, lembra? O herói tem que voltar. Mas não vamos entrar em maiores detalhes.

A segunda metade do filme de quase três horas torna-se crescentemente enfadonha. Na cidade sitiada, os personagens lutam para se estabelecer e criar uma resistência, mas tudo acontece rápido demais, é coisa demais ocorrendo ao mesmo tempo. Christopher Nolan já havia mostrado que tinha um jeito meio fast food de filmar. Basta lembrar a cena do capítulo anterior, O Cavaleiro das Trevas, quando o Comissário Gordon, que estava dado como morto, volta para a família. A porta se abre, vemos a esposa do policial encarar o marido, dar-lhe um tapa e, de outro ângulo, vemos o personagem de Gary Oldman entrar na casa, tudo em menos de dez segundos. As coisas estão lá, mas a pressa de Nolan arranca toda a profundidade. Agora, em O Cavaleiro das Trevas Ressurge, esse mesmo problema se torna ainda mais evidente. Repare, por exemplo, como Nolan usa insistentemente o recurso da fala em off para costurar cenas e economizar tempo, ligando espaços diversos, saturando o filme.

Como se não bastasse, a trama co-escrita pelo diretor usa e abusa de clichês e situações simplesmente absurdas. Há várias daquelas passagens em que os personagens citam assuntos que você, cinéfilo mais atento, percebe que serão retomadas mais à frente, o que leva alguns pontos da trama a uma alta previsibilidade. Como se não bastasse, o terceiro ato inclui uma pavorosa sequência na qual policiais e bandidos se enfrentam em plena rua, com os primeiros rumando brava e estupidamente em direção aos inimigos que estão armados com metralhadoras. Um dos policiais de destaque um pouco maior na trama morre nesse combate e a câmera se aproxima de forma nada sutil, como se pudesse gritar: "está vendo, ele está morto mesmo!" É como um Gangues de Nova York mais tosco - e com o Batman no meio.

Christopher Nolan precisa ser mais do que um cineasta que escolhe bons projetos. Tem que começar a se preocupar em não sabotá-los.

Nota: 5,0 (de dez)












quarta-feira, 30 de maio de 2012

Os Vingadores


Os Vingadores (The Avengers, EUA, 2012)
Direção: Joss Wheldon (Serenity)
Roteiro: Joss Wheldon (Toy Story, Alien: Ressurrection, Titan AE, Serenity, A Cabana na Floresta) e Zak Penn (Inspetor Bugiganga, Atrás das Linhas Inimigas, Incrível Hulk)
Com: Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Chris Hemsworth, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Tom Hiddleston, Clark Gregg, Samuel L. Jackson, Gwyneth Paltrow.



Daniel Fróes

Os vingadores é o ponto final de um plano de marketing.

As franquias de Capitão América, Thor, Homem de Ferro e Hulk (esta última, de forma menos eficiente, passando por um reboot) foram criadas já pensando num produto final - o filme Os Vingadores.

Com exceção de Hulk, que teve problemas graves de formatação, encontramos no filme os heróis (e vilão) tal qual foram apresentados em seus filmes de origem, com pequenas evoluções decorridas do tempo entre as aventuras. Tony Stark ficou mais sério e menos bagunceiro (pra possibilitar existir alguma chance de ele se adequar à equipe) mas continua impertinente, piadista e irresponsável (sem contar auto-confiante); Thor continua um bobão de bom coração e Capitão América continua… Capitão América. Nick Fury também está compatível com os outros filmes, assim como sua equipe. Isso é um ponto positivo.

O filme não tem exatamente um roteiro maravilhoso - vilão pega grande força mágica dos mocinhos, que passam o filme tentando recuperá-la. Vilão usa força mágica pra trazer possível derrota aos mocinhos. Mocinhos brigam entre si. Mocinhos se juntam e vencem vilão, sem grandes perdas - mas os filmes anteriores também não têm.

Como só um problema de nível mundial poderia forçar a união entre estes personagens, o escolhido pra ser vilão foi o irmão de Thor, Loki. Que ou é incrivelmente poderoso e burro, ou é cercado por idiotas que o deixam fugir e ficar pegando objetos mágicos por aí. Eu votaria nas duas opções.

Pensando nesse assunto, Loki deve ter uma lábia muito boa. A todo momento alguém com um poder muito grande em mãos resolve, em vez de usar esse poder, dá-lo a Loki para que ele faça bom uso. Vai entender.

Como estamos falando de uma adaptação de gibis, o filme traz problemas inerentes ao gênero, como por exemplo, força a barra para manter o grupo unido. Com isso não quero dizer que Tony Stark não faria parte do grupo ou algo assim (é mais estranho Batman fazer parte da Liga da Justiça do que Tony Stark fazer parte dos Vingadores). Estou me referindo a total e completa diferença entre os níveis de poder das personagens - coisa muito difícil de lidar em qualquer história envolvendo super-heróis.

O filme tenta forçar a barra equivalendo os poderes de Homem-de-Ferro, Thor e Capitão América. Não dá. Homem-de-Ferro (HF daqui pra frente) possui uma armadura realmente poderosa, que deixa CA (Capitão América) literalmente no chinelo, mesmo com seu super-ultra escudo. CA é um homem no topo das capacidades físicas humanas, mas nenhum humano é imune a um tiro de .45. Nem tem força para levantar um tanque.

Se CA já é infinitamente inferior, em termos de poder, a HF, quem dirá a Thor, que é muitas vezes superior a HF. Há uma discrepância muito grande aí. E isso me incomodou muito.

Agora, se isso é um problema entre esses três, eu me pergunto: que diabos Viúva Negra e Gavião Arqueiro estão fazendo no campo de batalha contra alienígenas fortões com super tecnologia bélica? Desculpem, mas não dá pra engolir. Como se diz na Bahia, dois altos, por favor. Estes personagens são interessantes, e poderiam ter sido muito bem utilizados de outras maneiras (como foram, em parte do filme). Mas colocar eles no front é pedir muito para o senso de realidade do espectador. Me lembro da cena em que (SPOILER ALERT, mas é fraquinho) VN pede que CA a jogue para o alto, para que ela intercepte uma nave alienígena em alta velocidade. Se um ser humano parado é atingido por um automóvel a 50 km/h, ele provavelmente terá diversas fraturas pelo corpo todo, se não morrer. O que aconteceria se uma pessoa colidisse com um bólido extremamente denso com velocidade superior a 100 km/h? Pois é (FIM DO SPOILER).

Outro problema grave do filme é o Deus Ex Machina, ou como se diz em bom rpgês, a mão do mestre. Aconteceu duas vezes, e é claro, a favor dos mocinhos.
A primeira foi quando (SPOILER ALERT) nosos amigo Loki encostou a lança em Tony Stark, para dominar sua mente, e não conseguiu por causa do seu Capacitor de Fluxo Peitoral (eu sei que aquilo não é um capacitor de fluxo, calma). Simplesmente não faz sentido. Não funcionou porque dissipou a energia no Capacitor? Ok, ele usa em outra parte do corpo. Tem que ser no coração? Ok, então eu vou te matar, Tony Stark. Ponto.

A segunda foi quando (AINDA TEM SPOILER) Banner chega no campo de batalha (ou seria na urbes de batalha? Fiquei confuso agora), e se transforma em Hulk "porque sim". Desculpe galera, mas não dá pra engolir essa não. Demitam esse roteirista, por favor. 

E finalmente (MAIS SPOILER) temos a batalha final, que é um enorme Deus Ex Machina sem fim. Principalmente em se tratando dos bichões gigantescos voadores - o primeiro se mostra dificílimo de destruir, os outros dois não passam de um origami de tão fácil que morrem. E os soldados rasos, que são gigantes, fortes e rápidos, são derrotados numa facilidade impressionante. Até GA consegue fazer um deles VOAR com um chute. Pois é (FIM DO SPOILER).

Claro, NÃO É ISSO QUE IMPORTA. Num filme desses, mais importante é se divertir. É verdade que ele seria mais completo se conseguisse fazer tudo ao mesmo tempo - ser coerente, ter um roteiro genial, ser bem feito e bem dirigido, e ser divertido. Isso é muito difícil. Mas o objetivo principal é alcançado.

Contudo, vale ressaltar: o filme é muito leve, é feito para jovens e crianças, não tem a densidade que Batman - The Dark Knight teve, por exemplo. É uma opção. Eu sempre acho que um pouco de densidade ajuda, mas não é obrigatório. Claro, segue a lógica dos outros filmes, então tem o mérito de ser coerente. Os filmes individuais dos heróis também são bem leves, sem grande densidade.

O filme é divertido. Muitas tiradas legais (algumas poderiam ter sido tiradas do filme, mas tudo bem), muita ação, excelentes efeitos especiais. A batalha final é chata, mesmo, mas não destrói o filme. Tem tensão, tem personagens interessantes, tem umas culhudas legais de se ver (culhuda = mentira, pra quem não sabe). No final, o saldo é positivo.










segunda-feira, 28 de maio de 2012

O Mestre da Vida


O Mestre da Vida (Local Color, EUA, 2006) Direção: George Gallo. Com Armin Mueller-Stahl, Trevor Morgan, Ray Liotta, Charles Durning, Samantha Mathis, Ron Perlman, Diana Scarwid, Julie Lott, Tom Adams.


Renato Cordeiro

O Mestre da Vida faz a linha de filmes sobre professores relutantes, que tem entre outros exemplares Procurando Forrester, com Sean Connery, e O Homem Sem Face, com Mel Gibson. Mueller-Stahl vive o recluso pintor Nicholi Seroff, russo que domina a arte representativa e se vê alvo de insistentes pedidos de um jovem artista em busca de conhecimento. Acaba aceitando ter o rapaz como aprendiz e hóspede em uma casa no campo onde se passa a maior parte da história, que é apresentada como semiautobiográfica: o aspirante John Talia está para o diretor e roteirista George Gallo assim como Seroff está para o russo George Cherepov, que foi mentor de Gallo nos anos 70.

O longa resgata memórias de Talia sobre o retiro de estudos com seu professor em uma paisagem convidativa à inspiração. Como seria de se esperar em um projeto como este, a beleza natural em torno dos protagonistas é capturada pelas câmeras de Gallo de modo a fazer jus àquelas emolduradas pelos personagens. Não causa surpresa, assim, que o diretor de fotografia do filme, Michael Negrin, seja também o narrador da história, como a versão madura de John Talia. O alter ego do protagonista, o diretor George Gallo, também ele pintor, é responsável por boa parte das peças apresentadas no longametragem.

O Mestre da Vida é até um bom filme, mas escorrega feio quando mergulha em uma trôpega dialética. Para valorar aquilo que une os protagonistas, a arte representativa, o roteiro sabota as falas e atitudes daqueles que defendem a arte progressiva, fazendo que com torne-se feia, sem sentido e presunçosa. A atuação de Ron Pearlman, exalando desdém como um amigo de Seroff, denuncia a maneira pejorativa como o projeto apresenta este tipo de arte, ou não-arte. Boa parte da produção associada a esse segmento pode até não valer um níquel furado, mas é uma pena que a película não aborde essa oposição de forma mais qualificada.

Nota: 7,0 (de dez)












sábado, 12 de maio de 2012

As Donas da Noite


As Donas da Noite (Wir sind die Nacht, Alemanha, 2010). Direção de Dennis Gansel. Com Karoline Herfurth, Nina Hoss, Jennifer Ulrich, Anna Fischer, Max Riemelt, Arved Birnbaum, Steffi Kühnert.


Renato Cordeiro

Enquanto alguns bons filmes de vampiro foram produzidos fora da Terra do Tio Sam, a Alemanha pariu um dos exemplares mais fracos dos últimos anos, considerando aqueles que tiveram uma produção mais significativa. Foram 6,5 milhões de euros gastos em uma produção que costura alguns maneirismos próprios de um segmento já muito maltratado do cinema de horror. Se, numa comparação forçosa, Deixe Ela Entrar corresponde a Entrevista com o Vampiro, então As Donas da Noite equivale a Anjos da Noite.

Um dos vários problemas desta produção é a construção preguiçosa de Lena, a protagonista. Pouco sabemos e pouco saberemos ao longo do filme sobre esta jovem maltrapilha que se torna objeto de desejo de Louise, a líder de um trio de vampiras, que reconhece na personagem um amor do passado. A trama não oferece algo sobre a garota que faça o espectador compreender ou se importar com o peso dos acontecimentos vividos por ela. Por exemplo, não soa convicente a crise de consciência que aos poucos toma conta de Lena quando se torna imortal e entra numa espiral de boemia sanguinária e transgressora. O remorso que se abate sobre a nova vampira parece atender apenas às necessidades imediatas de um roteiro que não demonstra qualquer traço de criatividade.

As Donas da Noite sequer consegue esboçar alguma provocação. Cria um clima homoerótico entre Lena e Louise, mas não o desenvolve. Dá para a antiga Lena um ar de junkie maltrapilha, mas não nos leva a descer com ela ao inferno que o filme tenta nos convencer que era a sua vida humana. Improvisa um romance entre a protagonista e o policial que não é explorado o suficiente para dar peso às inseguranças na semivida que Lena abraçou. Enquanto isso, o longametragem deixa de se dedicar a alguns elementos interessantes das companheiras de grupo, a exemplo da vampira que tem como filha uma mortal em idade avançada.

Em As Donas da Noite, a forma é tão desgastada quanto o conteúdo. A razoável sequência inicial, dentro de um avião, não encontra paralelos ao longo do resto da projeção. Se você gosta de filmes sobre vampiros e busca algo interessante feito fora dos EUA, vai encontrar aqui uma dupla decepção. Uma produção que, além de ruim, emula o que há de pior na parte do cinema estadunidense que se vende como sendo de horror.

Nota: 3,0 (de dez)










terça-feira, 1 de maio de 2012

O Incrível Hulk


O Incrível Hulk (The Incredible Hulk, EUA, 2008). Direção de Louis Leterrier. Com Edward Norton, Liv Tyler, Tim Roth, William Hurt, Tim Blake Nelson, Ty Burrell, Christina Cabot, Peter Mensah, Lou Ferrigno, Paul Soles, Débora Nascimento, Greg Bryk, Chris Owens, Al Vrkljan, Adrian Hein, Robert Downey Jr. 


Renato Cordeiro

Tudo novo. O longa-metragem começa com a nova origem do monstro que atormenta o cientista Bruce Banner, agora vivido por Edward Norton. É uma rápida apresentação. A idéia não é fazer um "filme de origem", mas deixar claro que não se trata de uma continuação do criticado Hulk, dirigido por Ang Lee em 2003. Os produtores resolveram apostar na pancadaria e deixar a cerebração um tanto de lado - e ainda assim funcionou.

Na história, o atormentado Bruce Banner é mostrado em sua vida de isolamento, tentando achar uma cura para não mais se transformar em um monstro verde quando se enfurece ou é submetido a situações de tensão. Mas um acidente faz com que os militares estadunidenses descubram seu paradeiro e partam ao Rio de Janeiro em seu encalço. Que diabos faz um cientista em busca de paz parar em uma favela do Rio visivelmente violenta, não me pergunte. Mas as cenas de perseguição são boas.

Era o que os fãs queriam. Menos cerebração, boas cenas de ação, e de quebra, referências à mitologia dos gibis e à série estrelada pelo personagem nos anos 70. Espremidos entre uma pancadaria e outra, há uns poucos momentos dramáticos e uma boa química entre o par Norton e Liv Tyler. O ponto fraco, como costuma acontecer nestas adaptações, é a meia hora final. Tudo termina em porrada, como não poderia deixar de ser, afinal, é o Hulk. Mas a última luta é tediosa e causa constrangimento ver os coadjuvantes sem muito o que fazer no meio daquilo. Nada que comprometa mais um bom longa-metragem com personagens da Marvel Comics, que a exemplo do ótimo Homem de Ferro, agora produz as próprias adaptações. Até aqui, tudo bem.

Nota: 7,0 (de dez)


(Adaptado de texto de 18 de junho de 2008)















domingo, 29 de abril de 2012

Os Vingadores


Os Vingadores (The Avengers, EUA, 2012). Direção de Joss Whedon. Com Chris Evans, Robert Downey Jr., Chris Hemsworth, Tom Hiddleston, Scarlett Johansson, Samuel L. Jackson, Mark Ruffalo, Jeremy Renner, Clark Gregg, Cobie Smulders, Stellan Skarsgard, Gwyneth Palthrow.


Renato Cordeiro

Os Vingadores coroa com sucesso o plano de firmar personagens dos quadrinhos da editora Marvel no cinema pop. É um processo que já vem de longa data e que pôde ser percebido por elementos em comum de cinco produções, a partir de 2008: O Incrível Hulk, Thor, Capitão América - O Primeiro Vingador e os dois primeiros longas do Homem de Ferro. Cada um destes filmes, em maior ou menor grau, dialogavam com os demais e com o grande blockbuster que estava por vir, reunindo os heróis em uma mesma trama. E se pelo menos Thor e Homem de Ferro 2 ficaram bem a desejar, Os Vingadores, ainda que não seja memorável, é até divertido.

O plot é bobo e fácil de resumir: heróis com habilidades extraordinárias são convocados pelo governo dos EUA para dar cabo de uma ameaça alienígena que pode escravizar a humanidade. Nada diferente do que se vê nos quadrinhos dedicados a super-equipes. O diretor Joss Whedon, que redigiu o roteiro com base em história de Zack Penn, costura estes e outros clichês dos quadrinhos, a exemplo dos combates entre personagens que serão futuros aliados e o herói dado como morto no final da trama. Mas o que falta de criatividade narrativa sobra em boas sequências de ação, diálogos ágeis e bom-humor.

Por vezes, o filme mais parece uma comédia de aventura, já que todos os protagonistas conseguem espaço para alguma situação engraçada, com inevitável destaque para o Homem de Ferro de Robert Downey Jr., que tem a maior parte dos melhores momentos. Curiosamente, até o Hulk entra na ciranda de risos, tendo a truculência utilizada como pilar de uma condição de alívio cômico - por sinal, bem eficiente. A ação também tem destaque pela clareza da câmera de Whedon, que se revela um talentoso diretor para momentos de ação mais elaborados, embora tenha suas falhas. Entre as passagens mais interessantes, há um planossequência durante o combate final que intercala os integrantes da equipe. Entre os momentos ruins, estão algumas lutas ambientadas no escuro, especialmente aquela envolvendo Víuva Negra e Hawkeye, mais conhecido no Brasil pelo nome de Gavião Arqueiro.

Quando se pensa em filmes de super-heróis, difícil não lembrar do sucesso de X-Men 2, cuja trama envolve uma grande quantidade de mutantes da mesma editora em uma produção da Fox. Embora não tenha uma trama tão interessante, Os Vingadores chega à altura da performance deste longa de 2003, dando um pouco de espaço a cada um dos personagens e exercitando a interação entre os mesmos. A vantagem de Joss Whedon é que ele não tem de dedicar tanto tempo aos protagonistas, que já foram apresentandos no cinema. À excessão do Dr. Banner, alter ego do Hulk, todos são vividos pelos mesmos atores vistos nas telonas anteriormente. Por sinal, Mark Ruffalo compõe o cientista de forma ainda mais interessante em relação às performances de Eric Bana e Edward Norton, fazendo um trabalho de voz e uma economia gestual que sinalizam o perene grau de controle que exerce sobre a contraparte monstruosa.

Nota: 6,0 (de dez)









terça-feira, 24 de abril de 2012

O Homem Sem Face


O Homem Sem Face (The Man Without a Face, EUA, 1993). Direção de Mel Gibson. Com Mel Gibson, Nick Stahl, Margaret Whitton, Fay Masterson, Gaby Hoffmann, Geoffrey Lewis, Richard Masur, Michael DeLuise, Ethan Phillips, Jean De Baer, Jack De Mave, Justin Kanew.


Renato Cordeiro

A carreira de diretor de Mel Gibson pode ter um momento oscarizado como o ótimo Coração Valente e polêmico como A Paixão de Cristo, mas o começo foi exageradamente banal. Típica narrativa a abordar a relação preofessor-aluno, O Homem Sem Face carrega vários clichês do gênero, mas até que funciona. Por outro lado, se pudesse ser um pouco menos emotivo e um tanto mais ousado, o primeiro filme do astro como diretor poderia ser algo mais do que um aparente ensaio.

A trama mostra o jovem Chuck Norstadt às voltas com a preparação para uma prova que pode fazê-lo seguir os passos do falecido pai. Entre as preocupações dele estão as questões de latim, para as quais ele encontra como luz no fim do túnel o temido McLoad, um homem que vive sozinho em uma casa isolada da mesma pequena cidade. Aos poucos, o garoto consegue convencer o professor a dar aulas particulares, fazendo pequenos serviços em contrapartida. A amizade deles será ameaçada pelo preconceito passou a rondar a vidade de McLoad desde o acidente que deformou-lhe o rosto.
 
Um dos equívocos do filme reside no personagem vivido pelo próprio Gibson, que é bem mais complexo na obra na qual o longa se baseia, de autoria de Isabelle Holland. Se o ator-diretor não optasse por suaviza-lo, a reclusão do desfigurado ex-professor McLeod seria ainda mais compreensível e o filme fugiria mais facilmente das comparações com tantos outros que apresentam mestres relutantes. Não que uma produção tenha de fugir das fórmulas como o diabo foge da cruz, mas O Homem Sem Face não tem muito mais o que acrescentar. A coisa parece funcionar mais pelo bom desempenho do Gibson, que carrega o próprio filme nas costas.

Nota: 6,0 (de dez) 









  

segunda-feira, 23 de abril de 2012

O Clube do Imperador


O Clube do Imperador (The Emperor's Club, EUA, 2002). Direção de Michael Hoffman. Com Kevin Kline, Emile Hirsch, Embeth Davidtz, Rob Morrow, Edward Herrmann, Harris Yulin, Paul Dano, Rishi Mehta, Jesse Eisenberg, Gabriel Millman, Chris Morales, Patrick Dempsey.


Renato Cordeiro

O senhor Hundert é um dedicado professor de História que busca inspirar os alunos de uma escola tradicional através das grandes realizações de homens como César, Augusto e Platão. Em dado momento da primeira aula, pergunta aos estudantes como a História se lembrará deles. E em uma trama tão envolvida no valor do mérito e da grandiosidade das conquistas humanas, o protagonista deixa claro que a própria realização está no desenvolvimento dos alunos. E assim como ocorreu com os grandes imperadores, a ambição que o motiva também pode arruiná-lo.

Como é típico de filmes sobre professores, O Clube do Imperador aborda a relação com o estudante como algo mais do que uma transmissão de conteúdos, mas também de valores. Vivido com o carisma de sempre pelo ótimo Kevin Kline, Hundert é um sujeito que nasceu em missão acadêmica: disciplinado, educado, tímido e meritocrático. Ele passa a medir forças com um novo estudante, Sedgewick Bell, o arrogante e orgulhoso filho de um influente senador. A relação, inicialmente difícil, vai ganhando contornos de respeito à medida que o rapaz começa a mostrar algum progresso e faz nascer no professor uma centelha de esperança.

O diretor Michael Hoffman faz aqui um trabalho de absoluta sobriedade, sem qualquer cena particularmente chamativa do ponto de vista técnico. O foco e os fortes são os atores, incluindo o ótimo jovem elenco. Temos aqui alguns nomes que viriam a ser mais conhecidos anos depois, como Jesse Eisenberg, de A Rede Social, Emile Hirsh, de Na Natureza Selvagem, e Paul Dano, de Sangue Negro. Uma curiosidade é a rápida participação de um ex-astro adolescente, Patrick Dempsey.

Nota: 7,0 (de dez)









terça-feira, 13 de março de 2012

Entre os Muros da Escola


Entre os Muros da Escola (Entre les murs, França, 2008). Direção de Laurent Cantet. Com François Bégaudeau, Agame Malembo-Emene, Angélica Sancio, Arthur Fogel, Boubacar Toure.

Renato Cordeiro

Entre os Muros da Escola é um excelente retrato dos desafios atuais da educação. A ação se passa na França, mas as angústias em cena poderiam facilmente ocorrer no Brasil e outros países. Os muros da escola são porosos, não podem impedir que a sala de aula se torne o microcosmo de uma sociedade doente. Quem está acostumado aos filmes que fazem parecer fácil a missão dos educadores vai perceber aqui um quadro mais complexo e pouco convidativo a um final feliz.

François Marin leciona francês em uma classe que parece o pesadelo de qualquer professor: há estudantes indisciplinados, desmotivados e marcados pelas tensões sociais, com destaque para aquelas de natureza étnica. Marroquinos, asiáticos e franceses têm as diferenças expostas no dia a dia da classe, por vezes com uma violência que vai além da verbal. Marin acredita ou quer acreditar que pode ter sucesso com os alunos estimulando os conhecimentos e interesses que já possuem e se nega a tentar controlá-los com mão de ferro, talvez até por não saber como fazer isso. Em função da postura adotada, tem de confrontar continuamente com os jovens, que são bem habilidosos em apontar as fragilidades do professor. Apesar de bem intencionado, ele acaba sendo levado gradualmente ao limite, e passa a cometer erros que não serão esquecidos.

O filme não traz tomadas em outras salas, mas através de Marin temos noção das dificuldades dos colegas professores, especialmente nos momentos em que se reúnem para discutir a situação dos estudantes. O filme já começa com os docentes se encontrando para debater o ano letivo e se apresentar uns aos outros. Em poucos segundos de fala de cada veterano, é notório que os sorrisos amarelos de canto de boca refletem um constrangimento que não está ligado apenas à vergonha de um momento de exposição, mas se refere também ao leve desespero de quem sabe o que vai enfrentar nos próximos meses.

A câmera na mão e a ausência de trilha sonora ajudam a conferir realismo ao longametragem, que também se vale de diálogos muito eficientes. Nos embates entre Merin e os estudantes, as falas simples mostram o professor tentando recuperar a imagem desgastada, enquanto os alunos parecem fazer do desafio à atutoridade um esporte. Já as discussões entre os educadores revelam questões difíceis de resolver. Qual o momento em que é preciso abandonar um jovem? Qual culpa caberá a ele neste processo? Qual a medida certa do reconhecimento que se pode dar a um estudante frente às expectativas nele depositadas? As atuações também chamam a atenção. Quase todos os personagens compartilham do mesmo nome dos intérpretes, a exceção do problemático Soulemayne, vivido por Franck Keita, cuja gestualística é simplesmente perfeita.

Nota: 8,0 (de dez)










sábado, 3 de março de 2012

Ensaio Sobre a Cegueira


Ensaio Sobre a Cegueira (Blindness, EUA, 2008). Direção de Fernando Meirelles. Com Julianne Moore, Mark Ruffalo, Alice Braga, Danny Glover, Gael García Bernal, Sandra Oh, Yûsuke Iseya, Jorge Molina, Katherine East, Scott Anderson, Maury Chaykin.


Renato Cordeiro

Ensaio Sobre a Cegueira é bom, enquanto filme. Mas como adaptação do premiado livro de Saramago, é melhor ainda. O diretor Fernando Meirelles comandou uma produção fiel a elementos que fazem da obra o que é. O romance não especifica o local onde a trama se desenrola, uma imprecisão reforçada pelo longametragem através das músicas de diversos países que compõem a trilha sonora, a diversidade de locações (incluindo as cidades de São Paulo e New York), e o anonimato dos personagens. O elenco também é, digamos, multinacional: temos os estadunidenses Juliane Moore, Mark Ruffallo e Danny Glover contracenando com o mexicano Gael García Bernal, a brasileira Alice Braga e o japonês Yusuke Iseya, vivendo o primeiro homem a ser afetado pela inexplicável cegueira que se alastra rapidamente pela população.

O caos e a desorientação são traduzidos por câmeras que saem de foco, enquadram mal e por várias vezes saturam para a máxima luminosidade ou a completa escuridão. São truques responsáveis por intensificar os momentos de tensão do filme, que usa a cegueira para mostrar do que as pessoas são capazes quando vislumbram a expectativa da impunidade. Quando os doentes são presos em um centro de quarentena onde as leis já não se aplicam, Ensaio Sobre a Cegueira faz lembrar o clássico O Homem Invisível, adaptado em 2000 por Paul Verhoeven. Outra referência inevitável são os filmes de George Romero: algumas tomadas de tom mais apocalíptico parecem ter saído diretamente de Madrugada dos Mortos.

Estabelecendo um paralelo com a atuação de Al Pacino em Perfume de Mulher, todos aqui têm o desafio de interpretar cegos que não usam óculos escuros, o que é bem mais difícil. Em Ensaio Sobre a Cegueira, por vezes os atores caem na armadilha de não "olhar" para a direção em que alguém está falando com eles, como se a perda deste reflexo viesse imediatamente para quem acaba de perder a visão. Mas este é apenas um pequeno defeito em um conjunto de boas interpretações, com destaque especial para Juliane Moore. Ela, que vive a única pessoa imune a doença, defende um papel de alta carga dramática e brilha nas poucas oportunidades em que precisa fingir estar contaminada.

Nota: 7,0 (de dez)

(adaptado de texto de 18 de setembro de 2008)







terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Millenium: Os Homens Que Não Amavam as Mulheres


Millenium: Os Homens Que Não Amavam as Mulheres
(The Girl With the Dragon Tatoo, EUA/Alemanha/Reino Unido/Suécia, 2011). Direção de David Fincher. Com Daniel Craig, Rooney Mara, Christopher Plummer, Stellan Skarsgard, Robin Whright, Goran Visnjic.


Bee

É incrível como certas circunstâncias fazem com que a gente descubra que não está livre de preconceitos. Quando a trilogia Millenium de Stieg Larsson começou a pipocar nas livrarias, eu fiquei bastante curiosa. Primeiro por ser um best seller, segundo por talvez quem sabe conter alguma conexão com o seriado homônimo, do qual muitas pessoas que são referência na minha vida gostavam. E aí um belo dia em uma viagem para São Paulo, me encontro com uma amiga dessas de coração mesmo, que ama livros, inteligente, etc, etc. E ela comenta que ganhou o primeiro, começou a ler, achou legal, mas que não era lá essas coca-cola todas não.

E bum! Minha curiosidade pelo livro acabou sem eu nem mesmo saber de verdade do que se tratava. Vitória da afinidade!

E agora, sai o filme. Mas não é só um filme. Ele é dirigido pelo D-Ê-I-V-I-D-I-F-I-N-C-H-E-R, uma dessas pessoas que eu agradeço todos os dias que existem só porque ele dirigiu Fight Club. Minto, era também porque eu já tinha assistido sete filmes dele, e não tinha desgostado de nenhum. Tinha coisas melhores e piores, mas Fight Club era o diamante brilhando no meu cérebro. E olha! Eu também tinha achado o trailler interessante, coisa que hoje em dia é cada vez mais raro. E ainda tinha o novo James Bond Daniel Craig, então ele já tinha elementos o suficiente para que eu quisesse assisti-lo.

E aí... Eu fui. E gostei muito!!!

Não é o muuuuuuuito, como eu gosto de muitos filmes clássicos e marcantes, como o próprio Fight Club. É o muito de alguém que não olhou para o relógio nenhuma vez, que ficou tensa, que gostou da história, da trilha sonora, da interpretação, do elenco, da fotografia e principalmente do que é na verdade o carro chefe da história: a personagem Lisbeth Salander. Dito isso, vamos ao filme propriamente.

Primeiro quero ressaltar que inicialmente eu achei a escolha da tradução do nome do livro medonhamente assustadora. Porque transformar The Girl With The Dragon Tatoo em Os Homens Que Não Amavam as Mulheres me pareceu excessivamente doente, uma dessas ações desenfreadas do povo do marketing querendo chamar um público alvo diferente. Até que eu descobri que esse é mesmo o nome original em sueco: Män som hatar kvinnor, que chega a ser até pior, traduzindo-se como "Os homens que odiavam as mulheres". Uma coisa que me chamou a atenção logo no início foi ver que ao lado da informação de que o filme se baseava em um livro, vinha também a editora original do mesmo, e eu não me lembrava de ter visto isso nunca na minha vida nos créditos de um filme. Outra foi perceber que o filme - hollywoodiano - não se passava nos Estados Unidos e sim na própria Suécia, conforme a história original. Isso foi realmente uma surpresa agradável.

Sem querer falar muito sobre a história, Os homens que não amavam as mulheres é um mistério "moderno", em que os personagens se utilizam da tecnologia disponível hoje para levantar informações, coletar e processar pistas sobre um crime que ocorreu muitos anos no passado, de uma forma que não é surreal nem tampouco insulta nossa inteligência. A fotografia é muito bem utilizada, e a trilha sonora também, misturando a música com os sons do ambiente, como o vento ou o barulho do aspirador de pó.

A história em si é interessante o suficiente, mas é na tensão e na construção dos personagens que o filme arrebata - especialmente em nos mostrar quem é Lisbeth Salander (Mara), uma jovem sob a tutela do estado, brilhante e desajustada, que se torna uma das investigadoras do caso. A narrativa paralela alternando Lisbeth e Mikael Blomkvist (Craig), um jornalista em desgraça por publicar acusações não comprovadas sobre um grande empresário, é muito eficaz, e ouso dizer - se é que aprendi alguma coisa sobre cinema com Renato Cordeiro, Daniel Fróes e as críticas de Pablo Villaça - que talvez a melhor coisa do filme seja a edição. Pois é exatamente a montagem das cenas que faz com ele que funcione de uma forma tão interessante, em que o tempo é muito bem administrado para não torná-lo um filme chato. Chamo a atenção também para a direção de arte que retrata bem as diferenças entre os personagens nos ambientes que os rodeiam e para a ótima condução do elenco de apoio. Adorei a participação de Stellan Skarsgard (e não apenas por ele ser o pai de Alexander Skarsgard, embora isso ajude). Enfim, é um filme que me conquistou.

Fincher é um cara que tem intimidade com a tensão e não deixa nada a desejar. Usando boas ferramentas a seu dispor, uma história interessante e bons atores, ele nos presenteia com essa obra, que me fez rever meus preconceitos e me deixou com vontade de ler a trilogia. Pena que a minha próxima década já está comprometida com a leitura das Crônicas de Gelo e Fogo. E que algumas críticas de outras pessoas bastante relevantes que leram o primeiro livro me desanimaram para o segundo.

Frase do filme:
Lisbeth Salander: May I kill him?

Pra ver:
Final de semana sem pressa, balde de pipoca, sala boa - de preferência com o som muito bom, vai valer a pena.










sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

As Aventuras de Tintim: O Segredo do Licorne


As Aventuras de Tintim: O Segredo do Licorne
(The Adventures of Tintin: The Secret of the Unicorn, EUA, 2011) Direção de Steven Spielberg. Com Jamie Bell, Andy Serkis, Daniel Craig, Simon Pegg, Nick Frost, Cary Elwes, Toby Jones, Tony Curran, Sebastian Roché, Mackenzie Crook.



Renato Cordeiro

Depois de produzir a bomba Cowboys e Aliens e dirigir o piegas Cavalo de Guerra, Steven Spielberg volta a desperdiçar o talento, desta vez em um longametragem até promissor, já que tem tudo a ver com o memorável início de carreira do cineasta que se notabilizou por aventuras fantásticas. A adaptação dos quadrinhos de Hergé chega a lembrar os filmes de Indiana Jones, com as cenas de ação com humor pastelão, os cenários internacionais e a trama do tipo gincana, que pode ser divertida se não se concentrar em uma sucessão de McGuffins.

Ok, vamos às apresentações. Para quem não conhece, McGuffin é um termo inventado por Alfred Hitchcock para definir aquele objeto ou tarefa que é importante para o protagonista e ajuda a mover a história. Um exemplo muito citado é a mala de conteúdo misterioso a ser recuperada por John Travolta e Samuel L. Jackson em Pulp Fiction. O objeto nem precisa necessariamente ser importante para a trama ou ter muitas explicações, desde que cumpra o papel de manter o personagem na trama. E no caso de Tintin, há, de certa forma, três Mcguffins, que são partes de um mapa do tesouro que ele busca encontrar.

Nada contra a trama gincana, desde que não fique tão em primeiro plano. O que torna Indiana Jones e A Última Cruzada tão divertido não é a procura pelo Cálice Sagrado, mas a relação entre o herói e o pai, uma interação que vai se desenvolvendo em paralelo à busca pela relíquia. E apesar de contar com um bom coadjuvante que faz as vezes de alívio cômico, em Tintin temos a gincana pela gincana, o que pode deixar o espectador sentindo que está sendo jogado de um lado para o outro, sem que nada importante esteja, de fato, avançando.

Do ponto de vista técnico, claro, As Aventuras de Tintim é irrepreensível. Os créditos de abertura, muito bons, lembram bastante o começo de Prenda-Me Se For Capaz. Se trata-se de uma animação com captura de movimentos, até então considerado um termo equivocado pela chamada "Academia de Hollywood", este cinéfilo não entrará na discussão. Mas é fato que as cenas criadas no filme dão vazão ao gênio de Spielberg em criar belas imagens, como a ótima perseguição em uma Marrocos cheia de ladeiras e possibilidades. Bem que a música de John Williams poderia ser mais vibrante.

Nota: 5.0 (de dez)











quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Missão Madrinha de Casamento


Missão Madrinha de Casamento (Bridesmaids, EUA, 2011). Direção de Paul Feig. Com Kristen Wiig, Terry Crews, Jessica St. Clair, Maya Rudolph, Tom Yi, Elaine Kao, Michael Hitchcock, Kali Hawk, Joe Nunez, Rebel Wilson, Melissa McCarthy.


R. Dantas

Tive uma epifania outro dia. Talvez minha missão seja ver filmes com potencial bagaceira e salvar você, incauto leitor, de perder preciosas horas de sua vida.

Missão Madrinha de Casamento é um filme sobre a loucura que acomete as mulheres, sejam noivas ou não, na iminência do dia mais importante de suas vidas (?!). Kristen Wiig é Annie, madrinha de casamento e amiga de infância de Lilian (Maya Rudolph). Annie é pobre, dona de uma confeitaria falida, não tem namorado e divide apartamento com dois irmãos esquisitos. Impossível sentir alguma identificação com ela, as situações em que se coloca – como dançar desajeitadamente na frente de um policial ou falar de seus problemas pessoais com os clientes da joalheria onde trabalha de favor – são ridículas e umas duas vezes senti tanta vergonha que quase parei de ver o filme, mas fiquei com preguiça de levantar da cama.

Os problemas começam quando Annie conhece a mais nova amiga – rica e linda – de Lilian. Annie, como madrinha, deveria ser responsável por organizar desde o chá de panela até o casamento, mas o fato de não ter grana e ser meio desajustada a impede de desempenhar com sucesso seu papel, lugar que Helen (Rose Byrne) assume com prazer e um certo desdém pela amiga pobre de Lil.

Então somos apresentados à amiga gorda e desajeitada que arrota e peida em público e diante de uma intoxicação alimentar não hesita em usar a pia do banheiro da loja chique como vaso sanitário. A casada, infeliz com a família que construiu e que tenta desesperadamente reaver o tempo perdido. A moça que casou cedo e só teve um homem na vida, que só faz sexo no escuro e debaixo das cobertas. E temos a noiva, tão sem brilho que quase esqueci dela.

Missão Madrinha de Casamento tenta com afinco ser engraçado, mas falha horrivelmente. As situações não são plausíveis, o elenco não é carismático e eu só conseguia pensar que Annie é severamente destituída de suas faculdades mentais.

Se houvesse mais cenas como a da mulher vomitando na cabeça da outra talvez fosse até engraçado. Eu sei que humor escatológico é forçar a amizade, mas essa foi a única vez em que ri alto vendo o filme.

Vale mencionar o policial Nathan Rhodes (Chris O'Dowd), o bom moço que com seu maravilhoso senso de humor quase salva o filme. Quase.










segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Mr. Holland - Adorável Professor


Mr. Holland - Adorável Professor (Mr. Holland's Opus, EUA, 1995). Direção de Stephen Herek. Com Richard Dreyfuss, Glenne Headly, Jay Thomas, Olympia Dukakis, William H. Macy, Alicia Witt, Terrence Howard, Damon Whitaker, Jean Louisa Kelly, Forest Whitaker.


Renato Cordeiro

Richard Dreyfuss engrandece e torna bem melhor um filme que estava destinado a ser apenas uma diversão passageira. O longametragem, ainda que não seja espetacular, é competente, com direção correta, roteiro sem furos e, como tinha de ser em um projeto como esse, boa trilha sonora. Mas o trunfo é mesmo o desempenho comovente do ator principal, que dá veracidade a Mr. Holland - Adorável Professor e rendeu uma merecida indicação ao Oscar.

Uma das principais diferenças entre este filme e tantas produções que tratam da dura vida dos professores é que não temos aqui um recorte episódico da carreira do protagonista. Em vez disso, acompanhamos a trajetória do jovem compositor Glenn Holland, que por causa de dificuldades financeiras resolve ensinar música em uma escola. A princípio, ele abraça a atividade apenas como um emprego temporário, mas acaba se mantendo no trabalho e começa a se afeiçoar à profissão, entre realizações e frustrações, em passagens pontuadas por alunos que o cativam e que por ele são cativados.

Como sempre, este cinéfilo não entregará spoilers, mas chama a atenção para os dez minutos finais. Praticamente sem falas, Richard Dreyfuss consegue transmitir perfeitamente as emoções do educador, tornando aceitável um desfecho que exagera um pouco no sentimentalismo. Outro ponto alto é aquele no qual Holland explica aos alunos a desafiadora história de Beethoven, momento embalado pela Sétima Sinfonia e potencializado por uma triste notícia que impacta sobre a vida pessoal do professor.

Vale mencionar o bom trabalho de maquiagem que torna convincente a marca do tempo sobre o personagem-título. A montagem sóbria insere cenas históricas responsáveis por facilitar a compreensão da passagem do tempo e cenas como aquela que se passa em um cemitério. No bom elenco de apoio, que traz William H. Macy, Terrence Howard e rápida aparição de Forest Whitaker, o destaque é a veterana Olympia Dukakis, que vive a diretora da escola. De quebra, canções de John Lennon.

Nota: 7,0 (de dez)










quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Planeta Terror


Planeta Terror (Planet Terror, EUA, 2007). Direção de Robert Rodriguez. Com Freddy Rodríguez, Rose McGowan, Marley Shelton, Naveen Andrews, Josh Brolin, Michael Biehn, Jeff Fahey, Bruce Willis, Michael Parks, Jerili Romeo, Stacy Ferguson, Tom Savini, Carlos Gallardo, Quentin Tarantino, Michael Parks.


Renato Cordeiro

A idéia básica do projeto Grindhouse, de Robert
Rodriguez e Quentin Tarantino, é bem interessante: recriar a experiência setentista de assistir filmes de segunda em cinemas de terceira. Ao longo de Planeta Terror, o segmento dirigido por Rodriguez, as imagens apresentam defeitos clássicos de filmes desgastados, além de buracos na narrativa que simulam remendos nas fitas de rolo da época. As salas de exibição aqui em Salvador chegaram a ter problemas com alguns espectadores desavisados.

A produção é caprichada, e o elenco, estelar e adequado à proposta do projeto. Além de Bruce Willis, que faz uma participação especial, muitos vão reconhecer o ator Naveem Andrews, o Sayid da série Lost. Infelizmente, depois da primeira metade de projeção, os rostos estrelados pouco podem fazer para impedir que Planeta Terror se torne previsível e maçante.

O esquema básico dos filmes de zumbi está presente no longa, com desconhecidos que precisam se unir para sobreviver a uma horda de desmortos. Mas falta recheio. A refilmagem de Madrugada dos Mortos, por exemplo, conquista pela exploração do drama de seus heróis. Já Todo Mundo Quase Morto parodia, com sobriedade britância, os elementos clássicos do gênero. Quanto a Planeta Terror, tenta se apoiar em escatologias e non-sense. Uma piada que não tem fôlego pra seus 107 minutos.

Nota: 5,0 (de dez)

(escrita originalmente em 25 de dezembro de 2007)










terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Sherlock Holmes: O Jogo das Sombras


Sherlock Holmes: O Jogo das Sombras (Sherlock Holmes: A Game of Shadows, EUA, 2011). Com Robert Downey Jr., Jude Law, Jared Harris, Noomi Rapace, Stephen Fry, Kelly Reilly, Geraldine James, Rachel McAdams, Eddie Marsan, Paul Anderson.


Renato Cordeiro

É bem verdade que Sherlock Holmes: O Jogo das Sombras supera o primeiro filme, mas isso não quer dizer que se trate de um trabalho muito melhor. A sequência mantém a trama rasa, cenas de luta por vezes confusas e a interação entre Downey Jr. e Law continua marcada por diálogos rápidos que parecem tentar mascarar as falas de qualidade irregular. Por outro lado, entre os pontos positivos, o longa consegue um feito um tanto incomum, que é melhorar ao longo da segunda metade.

A curva ascendente de O Jogo das Sombras acontece, entre outros motivos, por uma aposta na própria mitologia da cinessérie, ainda no segundo capítulo. Já sabemos que o roteiro terá várias cenas em flashback que mostrarão como Sherlock Holmes premedita as ações e sabota as dos adversários, e o longa consegue apresentar estas passagens de forma ainda mais divertida, a exemplo de uma passagem dentro de um trem.
Essa idéia também rende um bom momento no final do filme, quando as expectativas do protagonista são quebradas diante do seu arquiinimigo, Moriarty, vivido com adorável fleuma britânica pelo ótimo Jared Harris.

Sem entregar detalhes do filme, vale apontar que é também no final que acontece a melhor utilização de um recurso típico do cinema de Guy Ritchie, o voice over, quando a narração dos atores conduz a apresentação de uma cena da qual não participam. A qualidade das interpretações e a edição correta garantem o sucesso da passagem, marcada por uma tensão crescente. Por outro lado, Ritchie escorrega em certos maneirismos. Um deles,
próprio da franquia, é a adoção de câmera lenta e som distorcido, que tem como exemplo a fuga dos heróis por um bosque onde são atacados até por tiros de morteiros, lembrando muito a correria de Downey Jr. em meio a uma série de explosões no longametragem anterior.

E se estamos falando de um filme com um autêntico Sherlock Holmes, cabe uma discussão à parte. A caraterização continua sendo a de uma espécie de James Bond vitoriano, mas isso não é necessariamente algo que deprecia O Jogo das Sombras, que poderia ser fiel aos livros de Conan Doyle e continuar sendo uma diversão esquecível. E falando em diversão, destaque para a cena de Downey como um relutante cavaleiro, com direito a uma trilha que remete ao tema de Ennio Morricone para Os Abutres Têm Fome.

Nota: 5,0 (de dez)