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quinta-feira, 10 de novembro de 2011

A Primavera do Dragão - A Juventude de Glauber Rocha

Renato Cordeiro

Se a len
da é melhor do que o fato, imprima-se a lenda. A citação do filme O Homem Que Matou o Facínora, de John Ford, está na ponta da língua de Nelson Motta, sempre que perguntam a ele se há espaço para a ficção em uma obra biográfica. A questão ganhou espaço na agenda do escritor depois da polêmica, ou como ele classificou, polemiquinha, envolvendo o livro A Primavera do Dragão - A Juventude de Glauber Rocha. Amigos do cineasta baiano reclamaram de passagens do texto que tratam de fatos que, supostamente, nunca ocorreram. Os trechos controversos são, justamente, os mais divertidos da obra que faz um recorte dos primeiros 25 anos da vida de Glauber Rocha, desde a infância em Vitória da Conquista até a consagração de Deus e o Diabo Na Terra do Sol no Festival de Cannes.

O livro aposta no tom anedótico para mostrar uma história de formação, com destaque para os laços de camaradagem que o diretor estabeleceu em juventude, incluindo figuras como o escritor João Ubaldo Ribeiro e o artista plástico Calazans Neto. Os dois, a propósito, são apontados por Nelson Motta como fontes de informação sobre os devaneios revolucionários do jovem Glauber e seus amigos. Um exemplo é a tentativa de pintar uma frase de protesto no casco de uma embarcação na Baía de Todos os Santos, no qual havia uma exposição itinerante de propaganda da Espanha franquista, que o grupo identificava como uma afrontosa representação de uma ditadura fascista e sanguinária. Outra ação malfadada foi a chamada Conspiração das Maçãs, um plano de atentado contra o então governador Juracy Magalhães.

Ao longo de mais de trezentas páginas, o texto transporta o leitor para uma Salvador habitada por uma jovem boemia culta, frequentadora de espaços que marcaram a vida cultural da cidade, a exemplo da casa de shows Tabaris, o Cine Liceu comandado pelo cineclubista Walter da Silveira e a Universidade Federal da Bahia, quando tinha como reitor o visionário Edgar Santos.

A despeito da veracidade ou não das malfadadas iniciativas revolucionárias, o livro possui falhas que foram reconhecidas pelo autor, a exemplo de uma confusão nos nomes de algumas pessoas. Alfinetando os críticos, Motta minimizou o problema e disse que os erros são poucos e se referem ao oitavo escalão dos personagens que conviveram com o biografado, que não fazem diferença para a compreensão do que levou Glauber Rocha a ser Glauber Rocha. E polêmicas à parte, se é que isto é possível, o livro diverte e tem êxito em cumprir a proposta do escritor, que não quis fazer uma biografia definitiva, mas contar um lado menos conhecido e mais solar da vida de Glauber.

O biografado, claro, facilitou a vida do escritor, protagonizando situações que, talvez não por acaso, dariam um filme. Até pelo modo romanceado como é contada a vida do conquistense, é possível visualizar cenas da Salvador de antigamente, as dificuldades para dirigir Barravento e Deus e o Diabo Na Terra do Sol, a disputa em Cannes com o filme do mestre Nelson Pereira dos Santos, Vidas Secas. Motta, à época da Décima Bienal do Livro da Bahia, chegou a dizer que recebeu contatos de diretores interessados em rodar um longa baseado na obra, mas não deu nome aos supostos bois.

Também merece destaque o projeto gráfico assinado por Luiz Stein, que já havia cuidado do design da biografia anterior de Nelson Motta, Vale Tudo, dedicada a Tim Maia. Aqui, o artista de tom marcadamente pop mergulha em tons de vermelho nas imagens apresentadas no livro e até mesmo em algumas páginas que não possuem qualquer foto. A escolha, aliada às fontes grandes e a escrita leve de Motta, evidenciam a busca por um trabalho de fácil leitura, desvendando aspectos pouco explorados de uma dos maiores expoentes do cinema novo.










domingo, 30 de outubro de 2011

Miudins do Caio


Para quem curte decorar o próprio quarto com peças ligadas à sétima arte ou gostaria de apostar em um presente bem diferente para um cinéfilo, pode ser uma boa visitar o blog do artista Caio Muniz, que ficou famoso por fazer miniaturas sob encomenda, os Miudins. As peças criadas por ele podem ser dos mais variados temas, podendo inclusive reproduzir as feições da pessoa a ser presenteada. Mas, amante do cinema que é, Caio também dedicou algumas obras a personagens conhecidos das telonas. Algumas miniaturas estão à venda na loja Cinema e Coisa e Tal, do Cine Unibanco Glauber Rocha, mas também dá pra encomendar diretamente com Caio.

Mais informações aqui.










domingo, 25 de setembro de 2011

Inception Soundtrack


Renato Cordeiro

A Origem foi um dos melhores longas de 2010, ainda que alguns torçam o nariz quando uma declaração do tipo é dirigida a um trabalho mais popular, como este filme de ação sci-fi. Christopher Nolan comandou
uma trama complexa e criativa com boa dose de surrealismo, dando origem a cenas espetaculares. Tudo na produção é muito bem orquestrado, incluindo a montagem que desenvolve um equilíbrio dinâmico em diferentes planos da realidade. E a trilha sonora também cumpre o papel que lhe cabe.

Hans Zimmer, que por vezes é apontado como um profissional menor entre os compositores de trilhas sonoras, fez aqui um dos melhores trabalhos. As partituras do alemão reforçam a atmosfera de sonho e angústia desenvolvida por Christopher Nolan, com quem já havia trabalhado em Batman Begins e The Dark Kinight. O investimento em sons eletrônicos mesclados à orquestra, em especial os metais, lembra Vangelis, um músico que revolucionou o segmento com o uso de sintetizadores em trilhas sonoras. Assim, Conquest of Paradise, feita pelo grego para
1492 - A Conquista do Paraíso, encontra contraponto em Time, que encerra A Origem com chave de ouro. É claro, encontraremos ainda ecos de Blade Runner - O Caçador de Andróides, excetuando-se, claro, Love Theme, a mais famosa música do longa de Ridley Scott

Outro elemento que se encaixa muito bem é a guitarra, que se faz presente em faixas como One Simple Idea. Por vezes abafado, o instrumento não apenas acentua o aspecto onírico do longametragem como realça a melancolia do protagonista, nas passagens nas quais recorda um antigo amor. Mombassa marca a conturbada visita de Cobb, líder dos assaltantes, a Eames, o falsificador. É um tema mais forte, percussivo, célere, mais cinema de ação, que bebe na fonte do próprio Zimmer, lembrando alguns trechos de The Chase e Rocket Away, escritas por ele para A Rocha.

Existem scores que você pode ouvir no carro como se fosse um álbum de música "normal", enquanto outros, como a trilha de A Origem, tendem a perder muito do impacto fora da apreciação do longa, muito em função do ambiente surreal que as partituras sugerem. Ainda assim, mesmo não sendo obra de gênio, escapa da sonoridades mais manjadas que se ouve em outras trilhas.

Abaixo, você confere um making off da produção da soundtrack e uma apresentação de Mombassa na première de
A Origem. Para ler as resenhas de Bee e Renato Cordeiro sobre o filme, clique aqui.















domingo, 18 de setembro de 2011

Coleção Hitchcock


Uma das coisas que se diz a respeito de Hitchcock, com toda a razão, é que ele é um daqueles gênios que conseguem bater a marca de dez obras-primas presentes na própria filmografia. Talvez por isso a Universal não encontrou problemas com a seleção de títulos para as caixas da Coleção Hitchcock. Os dois primeiros volumes já são prato cheio para o cinéfilo, reunindo obras com custo cerca de 35% menor em relação à compra de cada filme em separado.

O primeiro box tem como elo fraco da corrente
Topázio, thriller de espionagem que o próprio Hitch desgostou. Mas o resto compensa, a começar por Janela Indiscreta, filme frequentemente estudado e que traz a história de um sujeito que presencia o que parece ter sido um assassinato em um apartamento próximo. O protagonista é vivido pelo mesmo James Stewart que comparece em O Homem que Sabia Demais, com Doris Day em remake de um filme que o mesmo diretor lançou em 1934. Completando, Os Pássaros, um dos mais conhecidos longas do diretor, estrelado por Tippi Hedren, uma das poucas atrizes que tiveram vez em mais de um filme dele.

A segunda coleção é ainda melhor. James Stewart comparece outra vez no espetacular Festim Diabólico, sobre dois jovens assassinos que desafiam o professor a identificar o crime ocorrido dentro de um apartamento onde ocorre uma festa de aniversário. Um Corpo que Cai é uma obra bem associada ao tom psicológico típico do autor, que filma um intrigado Stewart que se envolve com a sósia perfeita de um amor do passado. O segundo volume traz ainda Frenesi, um dos últimos trabalhos do cineasta, que comandou ainda outro clássico presente no box, Psicose. Aquele mesmo da mulher gritando no chuveiro.

O unico lamento a respeito das duas caixas é que fazem uma seleção muito acentuada dos filmes consagrados de Hitchcock. Entre os oito títulos, o mais velho é o maravilhoso Festim Diabólico, de 1948. Mas o mestre do suspense tem toda uma gama de longas que são considerados lado B não por falta de qualidade, mas pela força descomunal das várias outras produções que ele dirigiu em seguida. Intriga Internacional, Marnie e O Homem Errado empalidecem trabalhos da fase muda e inglesa, como a primeira versão de O Homem Que Sabia Demais e A Estalagem Maldita, mas estes últimos merecem ter a um lugar em qualquer conjunto do tipo, por sinalizarem a evolução e dominio formal de um artista superior.










terça-feira, 19 de abril de 2011

Morricone conducts Morricone

Renato Cordeiro

Nem John Williams, nem Danny Elfman, muito menos James Horner. O grande mestre vivo da música para o cinema, na opinião deste humilde blogueiro, é o italiano Ennio Morricone, autor das partituras de filmes de Pier Paolo Pasolini, Pedro Almodóvar e Quentin Tarantino, entre outros. O maestro e compositor é uma das provas de que o Oscar não deve ser levado muito a sério. Foi indicado ao prêmio cinco vezes, mas levou apenas uma estatueta especial entregue em 2007 por Clint Eastwood, pelas contribuições ao cinema.


Uma boa oportunidade de conferir o trabalho do músico é o DVD Morricone conducts Morricone, gravado em Munique, em outubro de 2004. O concerto inclui os temas de Cinema Paradiso, Pecados de Guerra, A Missão, e claro, de alguns westerns consagrados de Sergio Leone. Uma ausência sentida por este cinéfilo é a apoteótica Man With the Harmonica, que marca o duelo entre Charles Bronson e Henry Fonda em Era Uma Vez No Oeste. Esta obra não seria tão prima sem a música do mestre italiano. Outra falta, que diz respeito a um clássico de Brian De Palma, é The Untouchables Theme, que embala a maravilhosa investida a cavalo de Elliot Ness e os Intocáveis contra um bando de criminosos.

Essas insatisfações não causam surpresa nem desmerecem o DVD.
Em décadas de serviços prestados à sétima arte, nada mais natural do que deixar de fora grandes obras em uma necessária seleção de repertório, frente às numerosas boas opções. Abaixo, um dos melhores momentos do programa que, como não poderia deixar de ser, diz respeito a um clássico de Leone.













quinta-feira, 14 de abril de 2011

Escritos Sobre Cinema - Trilogia de Um Tempo Crítico



Renato Cordeiro

Há um ano, a crítica cinematográfica brasileira preenchia uma das mais preocupantes lacunas de sua história. Em 13 de abril de 2010, era lançada a trilogia Escritos Sobre Cinema, uma compilação de resenhas e análises fílmicas de André Setaro, colunista de veículos como o Terra Magazine e o jornal Tribuna da Bahia. Com mais de 40 anos de serviços prestados à compreensão e valorização da sétima arte, o carioca que ainda garoto se firmou na Bahia corria o risco de ter seus textos privados da posteridade.

A publicação só foi possível graças à brava teimosia do jornalista e escritor Carlos Ribeiro, que convenceu o crítico da viabilidade do projeto e liderou um grupo encarregado da seleção de textos que tomariam três volumes. No primeiro, estão análises de filmes, atores e diretores, com um passeio pela obra de Hitchcock, Bergman e Hawks, entre outros. O segundo livro trata exclusivamente do cinema baiano, abordando aspectos importantes de sua história, além de alguns dos mais importantes cineastas. Já na última parte, o leitor encontrará textos que abordam a linguagem cinematográfica, entre outros temas.

Os livros já seriam de grande importância se tratassem apenas das considerações de André Setaro sobre a sétima arte. Mas o crítico, que ainda hoje qualifica a si próprio como comentarista, vai além, e em passagens em tons autobiográficos, acaba fazendo um retrato da cidade de Salvador no que chamaria de tempos pretéritos, com a nostalgia de quem viu a fase áurea de salas de cinema que, hoje, dão lugar a igrejas e locais de exibição de filmes pornográficos. Ele destaca os hábitos do público, a ansiosidade para assistir obras que não eram apresentadas nos grandes circuitos e a importância do Clube de Cinema da Bahia e do principal ativista, Walter da Silveira. Assuntos, por sinal, que são costumeiros no blog do autor.

Como se não bastasse, há espaço até mesmo para alguns causos, como Meu Encontro Com James Stewart, artigo no qual o crítico dá lugar ao cinéfilo para falar da ocasião em que entrevistou o homem que matou o facínora. Talvez fosse pensando nisso que Inácio Araújo, no prefácio da trilogia, traçou o seguinte comentário: "Tenho a impressão, ao ler seus textos, que para André Setaro a crítica é a arte da paciência (e a da entrevista é a da fascinação, mas isso é outra história)."










sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Matt Damon Collection e Trilogia Bourne



Renato Cordeiro

O Soldado Ryan está quarentão. O ator que ganhou Oscar de Melhor Roteiro por Gênio Indomável tem um box dedicado a ele, Matt Damon Collection, com 4 filmes: Os Infiltrados, Syriana - A Indústria do Petróleo, Onze Homens e Um Segredo e Doze Homens e Outro Segredo. O preço é bem em conta, embora não seja lá uma seleção muito inspirada, quando se considera a carreira de um ator que soube dosar bem a carreira recheada de blockbusters com sucessos de crítica. A trilogia iniciada com Onze Homens e Um Segredo é bem simpática, mas convenhamos, não é exatamente um momento brilhante para os atores envolvidos. Damon é tão coadjuvante nestes filmes quanto foi em Syriana. Os Infiltrados, de Martin Scorsese, é o único filme do box no qual ele teve de fato um papel de destaque.

É o problema dos boxes. Como pertencem a uma companhia específica, a possibilidade de f
azer uma seleção realmente satisfatória torna-se muito reduzida. No caso, o conjunto traz apenas filmes da Warner, o que deixa de fora trabalhos bem mais relevantes de Matt Damon. Gênio Indomável é distribuído pela Paris Vídeo, enquanto O Resgate do Soldado Ryan e O Talentoso Mr. Ripley pertencem à Paramount.



Uma opção bem mais interessante é Trilogia Bourne, uma execelente série de ação baseada nos livros de Robert Ludlum. O box da Universal por ser encontrado pelo mesmo valor do Matt Damon Collection, 40 reais. Vem com um filme a menos, mas se o que interessa é comprar algo mais relevante sobre o ator, o box saga do agente desmemoriado é a melhor escolha.





quarta-feira, 15 de setembro de 2010

1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer

Renato Cordeiro

Você pode encontrar muita coisa sobre cinema na internet, especialmente se considerar a existência do onipotente portal IMDB. Há uma gama de informações como sinopses, trilha sonora, fichas técnicas, merchandisings e o que você imaginar a respeito da sétima arte, tudo isso a poucos cliques de distância - e de graça. Em um cenário assim, quem precisa pagar por aqueles volumosos guias de cinema e vídeo? Bom, eu preciso, e isso nada tem a ver com a satisfação de ver um monte de livros sobre cinema empilhados na estante.
Um dos principais motivos para esta preferência é a comodidade da leitura, que ainda não foi superada por monitores de computador, por melhores que sejam os e-books atuais. O segundo é a possibilidade de ler críticas qualificadas sobre os filmes, algo descentralizado e nem sempre disponível na rede.
1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer segue aquela linha que fez sucesso depois do 1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer. A premissa é a mesma: você fazer de conta que sua vida pode ser tão longa, e os afazeres tão ínfimos, que dá pra cumprir toda a demanda cultural que o livro sinaliza. Mas é um item bacana mesmo assim.
O livro, ao menos na edição que tenho, trata de obras a partir de Viagem à Lua, dirigido por Georges Meliès, de 1902, até Desejo e Reparação, lançado em 2007 sob a batuta de Joe Wright. A maioria das recomendações, como era de se esperar, são produções em língua inglesa, sobretudo dos Estados Unidos. Há uma ou outra coisa do Brasil, a maior parte bem previsível, como Deus e O Diabo na Terra do Sol, Cidade de Deus e O Pagador de Promessas. Algumas escolhas fazem torcer o nariz - o meu, por exemplo. Uma página inteira dedicada a Top Gun, quando obras maravilhosas como Os Intocáveis, Quando Fala O Coração e Curtindo a Vida Adoidado tiveram apenas meia, cada uma?
Apesar das inevitáveis controvérsias, a qualidade dos textos colabora para o bom divertimento. E mesmo não concordando com tudo, o livro tem seu valor, sobretudo por apontar algumas peças interessantes para completar o repertório cinematográfico.


sábado, 21 de agosto de 2010

O Clube do Filme

Renato

Saber dar presentes é uma arte. Eu ainda estava triste pela morte de Christopher Reeve quando, em pleno aniversário, recebi o box com os três filmes do Superman estrelados por ele - o quarto, todos sabem, não conta. Pensei que ninguém jamais acertaria tanto em uma escolha. Obviamente, um bom amigo meu tinha que me provar que eu estava errado.

O Clube do Filme é baseado em uma história real. David Gilmour - não o músico, mas o escritor - é um pai divorciado que não está nos melhores dias. Apresenta um programa televisivo sobre documentários que anda mal de audiência e não enxerga luz no fim do túnel. Para piorar, ele começa a ter medo de que o filho adolescente se distancie dele. Jesse está com problemas diversos e já não tem ânimo para frequentar a escola. Passa a impressão de que o vínculo com o pai se resume a quem paga as contas de quem. Gilmour resolve então fazer uma manobra arriscada. O jovem está autorizado a não voltar para a escola, mas em troca, terá de assistir três filmes por semana com o pai. "Essa é toda a educação que você terá", diz David. A grade de aulas é bem ampla: reúne desde clássicos como Interlúdio, de Hitchcock, até Instinto Selvagem, aquele da cruzada de pernas.

O livro cativa sobretudo pelo tom confessional do autor, que põe uma lupa sobre os próprios medos e frustrações, especialmeente quando o assunto em questão é a delicada relação com o filho. Gilmour procura equilibrar cumplicidade com autoridade, e por vezes um ou outro filme acaba servindo como parte de um diálogo que eles não conseguem estabelecer. No processo, os dois fazem uma breve viagem pela história do cinema, e a tornam parte da própria história.



terça-feira, 17 de agosto de 2010

Coleção Para Ele e Coleção para Ela

Imagine que você está em algum departamento de DVD e de repente pensa em dar uns filminhos pra pessoa amada. Mas pode ser que bata aquela indecisão... e de repende, pimba! Encontra dois boxes, de três títulos cada, cujo nome já diz tudo: Coleção Para Ele e Coleção Para Ela. Dá pra achar por R$ 29,90, quase 10 por título. Só faltava vir embrulhado pra presente.

É claro que não é bem assim. O que estas coleções fazem é apostar no estereótipo. Não que eles e elas não possam ter gostos diferentes. Uma cena muito bacana que ilustra isso está em Sintonia de Amor, quando homens e mulheres vão à lágrimas ao relembrar dos filmes mais marcantes, sendo que as emoções vem de longas distintos, mas igualmente importantes.





Estereótipos à parte,
o bom cinema, seja do tipo que for, pode vencer as barreiras, ao menos eventualmente. E é aí que estas coleções apresentam resultados bem distintos.

O box Para Ele tem, de cara, uma obra-prima de Brian De Palma, Os Intocáveis. Quatro Irmãos é um trabalho bastante competente de John Singleton, e talvez um dos melhores do cinema de ação do ano de 2005. Por fim, a coleção traz Uma Saída de Mestre, refilmagem de clássico filme de ladrões, Um Golpe à Italiana. Não é excelente, mas a produção caprichada e o elenco estrelado garantem bom divertimento.

Já a coleção Para Ela tem como o trabalho mais digno de nota o drama romântico Ghost - Do Outro Lado da Vida. É a história de um fantasma que não consegue ascender por ainda estar ligado à viúva. Depois, temos o dispensável Como Perder Um Homem em Dez Dias. A premissa é absurda, ainda que divertida: uma jornalista feminista precisa fazer um publicitário acabar com o relacionamento em dez dias, mesmo período em que ele precisa fazer a mulher se apaixonar por ele. A piada se desgasta rapidamente, e dá lugar aos velhos clichês do gênero. Por fim, vou evitar maiores comentários sobre o último título do box, E Se Fosse Verdade, história de um paisagista que se apaixona pelo fantasma da última proprietária do seu apartamento. Só vi algumas cenas e perdi a paciência.

A opinião de um homem sobre estes dois produtos certamente soaria tendenciosa. Assim, vamos dar uma espiada no IMDB, o onisciente banco de dados sobre cinema. Não que o site seja a voz da verdade, mas convido qualquer um a verificar as cotações dos usuários para cada título supracitado. Se você não quiser ter este trabalho de corno, não precisa. Estamos aqui pra isso.

A média das cotações de todos os filmes do primeiro box (7,23) é superior a do segundo (6,63). Poderia usar isso como uma evidência de que meu argumento é válido, "o Para Elas não presta", mas os homens votaram muito mais do que as mulheres, mesmo nas comédias românticas, o que compromete a estatística. Da mesma forma, não vamos nos deter ao grau de satisfação de cada box frente ao público-alvo - curiosamente, houve empate neste sentido, com a avaliação média dos filmes pelos homens (7,23) levemente maior que a das mulheres (7,2). Em vez de tudo isso, confira o grau de satisfação que elas teriam ao ver os filmes do box para eles, e vice-versa. Curiosamente, a coleção Para Eles fez mais sucesso entre elas! Média de 7,46, acima dos 7,2 da marmanjada. Já os títulos do box Para Elas tiveram pontuação de 6,63 para os homens, bem abaixo dos 7,2 da avaliação das garotas.

Nada contra alguém gostar de um filminho açucarado, mas a Paramount tem exemplares melhores deste tipo que poderiam estar na caixa. Algumas obras da companhia que respeitam o estereótipo incluem Titanic, Frankie & Johnny e vários clássicos com
a atriz Audrey Hepburn, a exemplo de Bonequinha de Luxo, Sabrina, e A Princesa e O Plebeu.

Trocando em miúdos: Se quiser presentear a pessoa amada com a caixa Para Ela, cuidado para não dormir quando for convidado a vê-los. Mas se for adquirir o box Para Ele, a noite vai ser boa. De tudo vai rolar.



quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Robert De Niro Collection e Coleção Robert De Niro

Enquanto alguns boxes de DVD's são montados para lesar o consumidor incauto, outros merecem ser classificados como oportunidades. É o caso de duas coleções dedicadas ao trabalho de Robert De Niro. Para quem ainda não aderiu à era Blue Ray, Robert De Niro Collection é uma caixa que pode ser comprada de olhos fechados. Pra começar, dois respeitados trabalhos da parceria de longa data entre o ator e o cineasta Martin Scorsese: Cassino, filme de gângster que traz ainda Sharon Stone e Joe Pesci, e Cabo do Medo, refilmagem considerada superior ao original de 1962. No mais, temos o perturbador O Franco-Atirador, um drama sobre as cicatrizes físicas e psicológicas dos EUA durante a Guerra do Vietnã, e o morno-mas-elegante O Bom Pastor, drama de espionagem que é a segunda investida de De Niro na direção. Encontrei o pacote por R$ 39,90, ou seja, 9,97 pilas por filme.

Trocando em miúdos: Aproveite e me dê um de presente.


Não tão interessante, mas bacana, é a Coleção Robert De Niro. O custo encontrado é o mesmo, R$ 39,90, mas o conjunto vem com apenas três títulos - R$ 13,30, cada. É um box um tanto estranho: traz duas comédias com um dos melhores filmes policiais dos anos 90, o belo Fogo Contra Fogo. Este trabalho de Michael Mann foi o primeiro em que De Niro contracenou com outro monstro sagrado de Hollywood, Al Pacino. Foram apenas três cenas, mas há quem diga que valeram mais do que todo o filme As Duas Faces da Lei, em que eles interpretaram dois policiais que são parceiros. Falando em contracenar, o box traz outra interação bem interessante em Mera Coincidência. É uma gostosa sátira política em que Dustin Hoffman é um chiliquento diretor de cinema contratado pelo assessor da presidência interpretado por Robert De Niro. A idéia é fazer uma guerra de mentirinha para desviar a atenção de um escândalo sexual na Casa Branca. Por fim, temos Máfia No Divã, filme bobinho mas divertido, no qual De Niro interpreta um criminoso que começa a ter crises de consciência. Considerando que o ator viveu o jovem Vito Corleone em O Poderoso Chefão - Parte 2, a piada fica ainda melhor.

Trocando em miúdos: Vale a pena.



quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Coleção Terror


Este é o primeiro de uma série de posts do Blog - O Filme em que vamos dar pitacos sobre o que você anda levando pra casa quando se depara com supostas pechinchas. Um exemplo são os boxes formados em torno de um determinado ator, diretor ou um gênero cinematográfico, por exemplo. É comum que o pacote permita levar os títulos por um preço mais em conta do que se fossem comprados em separado. Por outro lado, há algumas coleções que te empurram um filme bom junto com outros dois que não valem um níquel furado. O caso a seguir parece emblemático.

Vamos à Coleção Terror. Espere, eu disse terror? Então o que está fazendo o drama romântico A Casa dos Espíritos entre os 6 DVD's reunidos na caixa? OK, Meryl Streep faz uma mulher que tem dons paranormais, I See Dead People e etc, mas nem de longe este é um filme de horror, e certamente não pretende ser. Parece piada. Só faltava Gasparzinho também entrar na lata. Contando este trabalho, assisti apenas três longas contidos na caixa. Os outros dois são A Bruxa de Blair, que considero muito interessante, e A Noite dos Mortos-Vivos, clássico que merece todo o respeito. O resto não é muito animador. A Bruxa de Blair 2 certamente não tem a qualidade ou criatividade do antecessor e Pague Para Entrar, Reze Para Sair é considerado um filme menor da carreira já não muito brilhante do diretor Tobe Hopper. Por sua vez, O Fantasma da Ópera, até onde eu sei, nunca ganhou um longa realmente assustador - sua última versão é um musical dirigido por Joel Schumacher. Encontrei preço sugerido de RS 69,90 - o que dá R$ 11,65 por filme.

Trocando em miúdos: Fuja