domingo, 7 de agosto de 2011

Capitão América - O Primeiro Vingador


Capitão América - O Primeiro Vingador (Captain America: The First Avenger, EUA, 2011). Direção de Joe Johnston. Com Chris Evans, Hugo Weaving, Hayley Atwell, Tommy Lee Jones, Dominic Cooper, Sebastian Stan, Toby Jones, Neal McDonough, Derek Luke, Stanley Tucci, Samuel L. Jackson.


Renato Cordeiro

É curioso como um longametragem pode começar bem e terminar de forma burocrática. Capitão América é um filme de super-heróis até razoável, mas peca no desenvolvimento e faz o espectador bocejar nos, digamos, quarenta minutos finais. É um mal comum no cinema de ação e aventura como um todo. A narrativa clássica consegue estabelecer simpatia entre o público e o protagonista, mas perde o controle quando se trata de manter o interesse na jornada do personagem.

O roteiro foi friamente calculado para evitar rejeições, a começar pelo protagonista, um fracote transformado em um supersoldado depois de se voluntariar em um experimento. Antes que possamos questionar os méritos do herói anabolizado, a trama deixa claro que o forte da cobaia está na coragem e integridade intrínsecas, que renderam alta experiência em levar porrada com a dignidade intacta. A interpretação correta de Chris Evans e os ótimos efeitos especiais que o tornaram um rapaz mirrado favorecem a adesão ao bravo Steve Rogers. Também seria possível rejeitar uma produção ufanista, mas os símbolos estadunidenses em jogo, incluindo o uniforme do herói, são encaixados à história como forma de satirizar o belicismo do Tio Sam. O marketing de guerra que faz nascer o Capitão América rende, inclusive, uma agradável passagem com número musical típico da década, conquistando o público por assumir a paródia. Por sinal, a Marvel Studios foi feliz em fazer de Capitão América uma aventura de época, tomando por base o próprio momento no qual o personagem dos gibis foi criado. A requintada reconstituição dos anos 40 e a edição estilizada ajudam a entrar no clima e fazem esquecer a pavorosa adaptação anterior, filmada em 1990.

A direção de Joe Johnston faz sua parte nos esforços de simpatia ao impedir que o Capitão América seja visto como um "exército de um homem só". Personagens coadjuvantes são colocados em situação de quase protagonismo de algumas cenas de ação, auxiliando o herói em momentos decisivos. Uma cena exemplar é aquela em que um temerário soldado instala um explosivo embaixo de um veículo blindado. A ação é vista de longe pelos companheiros, sendo que o Capitão América está atrás de todos eles, enquadrado com discrição. O discurso é claro: o herói não veio resolver o problema, mas ajudar. E mesmo aqueles que não aguentam mais ver os alemães retratados como seres desalmados vão se sentir melhor com o personagem de Stanley Tucci, o consciencioso cientista que busca, com o soro, fazer um bem à humanidade. Em uma cena, ele explica a Rogers por que o escolheu para a experiência. "Você quer matar nazistas, garoto?", pergunta ao futuro herói. "Não quero matar ninguém, senhor", é a resposta. Tudo bem, Rogers vai matar geral ao longo da produção, mas é bonito ouvi-lo dizer isso.

O filme teria se saído melhor se desse atenção ao antagonista do herói, o Caveira Vermelha. A melhor cena do personagem é aquela na qual oferece o próprio carro como veículo de fuga para um comandado, que chama a atenção pelo inusitado. De resto, é um personagem insosso, interpretado por um Hugo Weaving no piloto automático e impulsionado por um enfadonho desejo de controlar o mundo, que enfraquece o longa à medida que ganha espaço, tornando-se a missão do Capitão América. O Caveira Vermelha protagoniza quase todas as cenas mais insignificantes da produção, nas quais o espectador poderá sair da sala de projeção para ir ao banheiro ou reabastecer o copo de refrigerante. Sairá no lucro.

Nota: 6,0 (de dez)









quinta-feira, 14 de julho de 2011

O Príncipe dos Pistoleiros

O que Roy Rogers, Paul Newman, Kris Kristofferson e Emilio Estevez tem em comum? Todos deram vida a um dos mais famosos nomes do Velho Oeste, o pistoleiro Henry McCarty, conhecido como William Henry Bonney ou, melhor ainda, Billy the Kid. Morreu há exatos 130 anos. Para lembrar a data, vai abaixo o clipe do filme Jovem Demais Para Morrer, com aquele que este cinéfilo diria ter sido o melhor intérprete do jovem bandido, Emilio Estevez.


sábado, 9 de julho de 2011

Gerônimo - Uma Lenda Americana


Gerônimo - Uma Lenda Americana (Geronimo: An American Legend, EUA, 1993) Direção de Walter Hill. Com Jason Patric, Wes Studi, Gene Hackman, Robert Duvall, Matt Damon, Rodney A. Grant, Kevin Tighe, Steve Reevis, Carlos Palomino, Victor Aaron.


Renato Cordeiro

Quando se pensa em westerns que retratam o extermínio dos índios pelos brancos, é comum citar filmes que vão do clássico Flechas de Fogo à obraprima Dança com Lobos. Mas ainda que não esteja à altura dos predecessores, vale mencionar Gerônimo - Uma Lenda Americana. Além de um Walter Hill mais inspirado na direção, um bom elenco e ritmo adequado, o longa tem como foco a campanha do Exército para capturar um dos maiores símbolos da resistência indígena.

Havia um aspecto peculiar das investidas para
prender o temido Gerônimo: o líder dos "casacas azuis", o famoso General Crook, mantinha uma relação de respeito com o adversário pele-vermelha. A reverência, inclusive, dá o tom da narração do jovem oficial vivido por Matt Damon, anos antes de ganhar fama com Gênio Indomável. O espectador rapidamente percebe que o objetivo não é matar Gerônimo, mas convencê-lo a aceitar uma amarga proposta de paz: levar a tribo para viver em uma reserva agrícola. A cena em que o índio pergunta ao general por que os homens brancos podem ficar "com tudo" ilustra bem o abismo entre os relutantes antagonistas.

Um dos pontos altos da produção é Wes Studi, que na pele do lendário apache Gerônimo teve provavelmente o melhor momento da carreira. Studi é um daqueles atores de um só papel, que a gente por vezes não lembra o nome, mas fica com a impressão de ter visto em um zilhão de filmes. Não surpreende, já que a ascendência cherokee não o impediu de interpretar guerreiros de outras tribos, como um violento yuron em O Último dos Moicanos e um igualmente sanguinário pawnee em Dança com Lobos. Com a carranca típica, o ator consegue ilustrar bem o dilema do protagonista: manter a contagem de corpos dos caras-pálidas que vem massacrando seu povo ou preservar o pouco que resta dele através de uma rendição que dará fim ao modo de vida da tribo.

Gerônimo - Uma Lenda Americana é também o melhor dos poucos faroestes assinados por Walter Hill, superando com folga o morno Cavalgada dos Proscritos e o insosso Wild Bill. Há um certo requinte na composição das cenas, como aquela na qual vemos, de cima, dois homens subirem um paredão rochoso só para se depararem com as armas apaches ao fim da escalada. A edição faz sua parte, valorizando de formas diferentes dois dos melhores momentos da produção. Em uma, cortes rápidos mostram o tenente Gatewood, vivido por Jason Patric, em duelo com um índio, demonstrando perícia com montaria. Na outra, com uso econômico da câmera lenta, será a vez do personagem de Robert Duvall provar que é bom de tiro, encarando sozinho vários adversários.

Nota: 7,0 (de dez)










quarta-feira, 6 de julho de 2011

Moby Dick


Moby Dick
(EUA, 1956) Direção de John Huston. Com Gregory Peck, Richard Basehart, Leo Genn, James Robertson Justice, Harry Andrews, Bernard Miles, Noel Purcell, Edric Connor, Orson Welles.


Renato Cordeiro

Moby Dick pode não ser exatamente um filme brilhante, mas tem coragem. A adaptação da obra de Herman Melville nadou contra a corrente da época e levou aos cinemas uma história sombria, marcada pela trágica incapacidade de um homem em superar o desejo de vingança, mesmo estando ciente de sua autodestruição. E se o plot não encontrou simpatia do público dos cinemas, imagine o susto de quem viu o eterno mocinho Gregory Peck, o Atticus Finch de O Sol É Para Todos, na pele de um tipo raivoso e insano. Como o Capitão Ahab, Peck defendeu um papel que, se não era vilanesco, certamente equipara-se ao monstruoso Doutor Josef Mengele que interpretou em Meninos do Brazil e o maucaráter Lewt McCanles de Duelo ao Sol.

O longametragem é narrado pelo jovem Ishmael, vivido por Richard Basehart, escolha estranha por se tratar de alguém com o dobro da idade do personagem. O "rapaz" está à procura de trabalho e acaba embarcando no baleeiro comandado por Ahab, um sujeito obcecado pela idéia de encontrar a gigantesca criatura que levou-lhe a perna e desfigurou o rosto. A missão, aos poucos, vai despertando dúvidas em Starbuck, braço direito do capitão, que planeja organizar um motim. A trama se desenrola em meio aos ataques contra baleias que servirão de fonte de alimentação e óleo. As cenas são embaladas por uma trilha sonora que denuncia, pelo tom aventureiro, uma posição favorável à caça, o que deve revirar o estômago de qualquer ambientalista. A música, a propósito, é por vezes inadequada e exagerada, diluindo, por exemplo, o momento em que Ahab faz uma bizarra proposta aos comandados, ainda na primeira metade do longa.

A direção de John Huston parece pintar belos quadros em vários momentos de Moby Dick. A impressão não é pra menos, já que parte das filmagens ocorreu em estúdio, tendo pinturas ao fundo, fazendo as vezes do céu. A fotografia ajuda muito a deixar o recurso funcional, o que não pode ser dito de algumas sequências em "alto mar", nas quais o chroma key, ainda menino, se faz bem evidente. Nada que desmereça o filme, que é brindado ainda pelo monólogo de Orson Welles como o Padre Mapple. O mesmo personagem seria vivido por Gregory Peck, na participação especial que foi o último papel da carreira, em um telefilme de 1998.

Nota: 6,0 (de dez)










segunda-feira, 4 de julho de 2011

MacArthur


MacArthur (EUA, 1977). Direção de Joseph Sargent. Com Gregory Peck, Ivan Bonar, Ward Costello, Nicolas Coster, Marj Dusay.


Renato Cordeiro

Dizer que a vida de uma pessoa daria um filme não significa que o filme vai ser bom. O caso de MacArthur, baseado na trajetória de um dos maiores generais da história dos Estados Unidos, serve para ilustrar alguns dos desafios inerentes a empreitadas do tipo. Por mais que a vida de uma figura célebre tenha momentos singulares e dignos das telas de cinema, o longametragem, a depender do roteiro, pode se tornar apenas um apanhado de momentos episódicos do biografado, o que eleva os riscos de problemas de ritmo. E desse mal o trabalho de Joseph Sargent certamente padece.

O longametragem retrata o protagonismo de Douglas MacArthur em alguns dos momentos mais importantes do combate aos japoneses na Segunda Guerra até os últimos dias da carreira militar, durante a Guerra da Coréia. Apesar do currículo invejável de um dos raros generais de cinco estrelas do Exército estadunidense, apenas algumas poucas passagens do filme são merecedoras de maior atenção. A retomada das Filipinas, com o biografado desembarcando ao lado do presidente Roosevelt no arquipélago reconquistado, impressiona pela boa reconstituição do momento. Também merecem destaque as sequências que apresentam episódios não tão explorados pela sétima arte, como a rendição dos japoneses na Baía de Tóquio e a posterior administração de MacArthur na Terra do Sol Nascente.

De resto, a produção sofre por ter o
fio narrativo resumido ao próprio personagem principal e sua vida dedicada ao Exército. O desenrolar das cenas segue a cronologia dos conflitos sem gerar maior expectativa. Já idoso, o ator que interpretou o general, Gregory Peck, chegou a admitir em uma entrevista não ter gostado do roteiro. Não surpreende, assim como também não passa despercebida a produção um tanto modesta demais para um projeto deste tipo. A famosa Batalha de Inchon, por exemplo, é mostrada de bastidores, com MacArthur acompanhando a ofensiva em uma embarcação, ao som da peleja.

Gregory Peck oferece aqui uma atuação muito acima da média, que chegou a ser considerada, à época, digna do Oscar. Basta assistir, depois do filme, ao famoso discurso no Congresso para perceber o belo trabalho de voz e gestos desenvolvido pelo ator californiano. É notório, por outro lado, que o astro negocia a composição com os interesses do projeto, que busca justificar a condição de lenda atribuída ao general. O olhar semicerrado do intérprete em diversas passagens parece injetar mais dramaticidade ao personagem, nem sempre contribuindo para o indigesto resultado final do longametragem, claro e pagajosamente ufanista.

Nota: 5,0 (de dez)










domingo, 3 de julho de 2011

Meia-Noite em Paris


Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris, Espanha/EUA, 2011) Direção de Woody Allen. Com Owen Wilson, Marion Cotillard, Rachel McAdams, Michael Sheen, Nina Arianda, Kurt Fuller, Mimi Kennedy, Kathy Bates, Alison Pill, Tom Hiddleston, Corey Stoll, Adrien Brody, Carla Bruni


Renato Cordeiro

Ainda que a indústria cultural dos Estados Unidos seja conhecida pelo volume de dinheiro que movimenta, é bem verdade que os que advogam pela verdadeira arte olham com mais carinho para a França. Não é algo que se dá pelo que o país europeu concretamente produz, mas sobretudo pelo apreço por expressões artísticas mais elevadas. O Oscar, por exemplo, é um prêmio que vale muito em termos de negócios, mas não chega nem perto do grau de prestígio do Festival de Cannes, de onde saem tarimbadas algumas das obras mais relevantes do cinema mundial. Não é de se estranhar, então, que o protagonista de Meia-Noite em Paris viva, justamente na Cidade Luz, uma busca por autenticidade e relevância.

Gil é um roteirista bem-sucedido em Hollywood, mas se encontra insatisfeito com o trabalho. Ele quer dar uma guinada na carreira e publicar o primeiro romance, mas está inseguro, recusando-se a falar do projeto e deixar que outras pessoas leiam o material. Em uma noite na qual anda sozinho pelas ruas de Paris, Gil, num passe de mágica, é transportado para uma outra época, e décadas antes, encontra a cidade fervilhando em agitação cultural. Em um espaço de poucas horas, conhece artistas de renome, como Scott Fitzgerald e Ernest Hemmingway.
A convivência com estes e outros gênios criativos vai inspirar o rapaz a ganhar coragem para a primeira empreitada literária.

O diretor e roteirista do longametragem já começa o espetáculo com uma reverência à bela locação adotada para as filmagens. Diferente de obras anteriores de Woody Allen, a tônica de Meia-Noite em Paris é o encanto, que começa pela trama, uma fantasia simpática com discurso preciso. A história passa longe do pensamento tacanho de qualificar a capital francesa como um lugar de excelência em confronto com a mediocridade de fora. Na verdade, a Cidade Luz funciona como uma meca para artistas de diversos países, como o espanhol Salvador Dali e a escritora estadunidense Gertrude Stein. Da mesma forma, o filme denuncia a tentadora ilusão de que os tempos pretéritos tem sempre mais méritos.


Nota: 7,0 (de dez)










quarta-feira, 22 de junho de 2011

X-Men: Primeira Classe


X-Men: Primeira Classe
(X-Men - First Class, EUA, 2011). Direção de Matthew Vaughn. Com James McAvoy, Michael Fassbender, Kevin Bacon, Jennifer Lawrence, January Jones, Rose Byrne, Nicholas Hoult, Caleb Landry Jones, Lucas Till, Jason Flemyng, James Remar, Matt Craven, Oliver Platt, Michael Ironside,
Hugh Jackman.


Renato Cordeiro

Quando Bryan Singer abandonou a direção de
X-Men - O Confronto Final para fazer Superman Returns, Matthew Vaughn foi o primeiro nome cotado para assumir o trabalho. Por causa do prazo apertado, desistiu do projeto e a tarefa passou para Brett Ratner, da trilogia A Hora do Rush. Anos mais tarde, Vaughn recebeu uma nova oportunidade de comandar um longametragem dos mutantes superpoderosos, desta vez um prequel, filme com trama que se passa antes da franquia anterior, exatamente como ocorreu com a saga Star Wars a partir de A Ameaça Fantasma. Felizmente, X-Men - Primeira Classe tem resultado incomparavelmente superior em relação ao obtido por George Lucas.

A história trata dos primórdios da amizade entre dois poderosos mutantes que se unem para combater uma ameaça para a humanidade. O gênio da genética Charles Xavier, telepata, acredita que a tolerância entre os diferentes pode levar à convivência entre humanos e mutantes, enquanto o sobrevivente do Holocausto Erik Lehnsherr, capaz de controlar campos magnéticos, tem argumentos em contrário cravados na própria pele. A sequência de abertura, inclusive, reaproveita a cena que dá início ao filme de 2000, passando-se em um campo de concentração. Lehnsherr é apresentado como um homem inteligente e sedutor, mas também transtornado pelos horrores da guerra e decidido a conseguir vingança contra aqueles que promoveram sua tragédia pessoal. O ator alemão Michael Fassbender dá vida ao personagem que tem contas a ajustar com nazistas e, em dado momento do filme, chega a protagonizar uma cena que lembra, em muito, um dos seus trabalhos anteriores, o excepcional Bastardos Inglórios.

Apesar da angústia do personagem de Fassbender, Primeira Classe
é uma obra assumidamente mais solar. A fria paleta de cores que se percebia desde X-Men - O Filme dá lugar a tons mais quentes, que realçam a leveza e bom-humor do trabalho de Matthew Vaughn, o mesmo responsável pelo simpático Stardust. Até o tema da aceitação da diferença é apresentado de forma mais leve, ainda que jamais banalizado. E se o futuro terrorista a ser conhecido como Magneto é o pólo sombrio do filme, seu aliado, Charles Xavier, interpretado pelo escocês James McCavoy, responde por algumas das cenas mais descontraídas do longametragem. Decidido a frustrar os planos do vilão Sebastian Shaw, Xavier recruta jovens superpoderosos que se tornarão a tal primeira classe - no caso, alunos de uma escola onde mutantes aprendem a lidar com as próprias habilidades.

A obra é repleta de referências da trilogia dirigida por Brett Ratner e Bryan Singer, agora na cadeira de produtor. Para o fã dos personagens, o espetáculo é garantido. Mas em termos absolutos, tem-se um filme apenas correto, sem qualquer cena que valha ser considerada memorável, mas que certamente diverte o suficiente para se esperar por novos filmes que continuem a mostrar o passado dos X-Men.

Nota: 6,0 (de dez)










terça-feira, 21 de junho de 2011

O Escarlate e o Negro


O Escarlate e o Negro (The Scarlet and the Black, EUA/Reino Unido, Itália, 1983). Direção de Jerry London. Com Gregory Peck, Christopher Plummer, John Gielgud, Raf Vallone, Kenneth Colley, Walter Gotell, Barbara Bouchet, Julian Holloway, Angelo Infanti.


Renato Cordeiro

A neutralidade da Igreja Católica durante o Holocausto não passou em branco na história, nem no cinema. Amém, de Costa-Gravas, é talvez um exemplo mais famoso de longametragem a tratar do assunto. Já O Escarlate e O Negro, talvez pela natureza televisiva, não chama tanta atenção, mas tem bons motivos para ser conferido. A trama é baseada na história real do Monsenhor Hugh O'Flaherty, que durante a ocupação alemã em Roma, liderava um grupo responsável por esconder judeus, refugiados e soldados aliados. O trabalho se torna ainda mais perigoso graças à presença do
novo Chefe da Polícia romana, o coronel nazista Herbert Kappler.

O ator preferido deste cinéfilo já havia vestido a batina no clássico As Chaves do Reino, que rendeu a Gregory Peck a primeira indicação ao Oscar, em 1944. A diferença é que o
Monsenhor O'Flaherty, com sua integridade moral e capa vermelha a cobrir as costas, mais parece um super-herói. O sacerdote tinha a fama de playboy, frequentando os mais distintos eventos, mas também era capaz de demonstrar as habilidades com boxe para se defender de perseguidores da Gestapo.

O contraponto do benfeitor irlandês é o igualmente obstinado Kappler, vivido por Christopher Plummer. O nazista recebe a missão de dominar o coração da Itália, mas vê no Monsenhor um espinhoso obstáculo, por causa da imunidade diplomática do padre. Logo ao chegar, o chefe da polícia alemã determina uma faixa que delimita a soberania do Vaticano, obrigando
O'Flaherty a usar perigosos artifícios para manter suas atividades.

Em meio à direção morna e a produção modesta, um destaque negativo vai para a trilha pouco inspirada do mestre Ennio Morriconne. Outro problema são os esforços para remover do Papa Pio XII a aura de indiferença ante o nazismo, rendendo momentos que oscilam entre os patéticos e os repulsivos. Pode até ser que ele tenha sido injustiçado pela história, mas não será neste telefilme que encontrará redenção. Felizmente, o longametragem se detém no que interessa, o duelo de vontades entre o religioso e o coronel. Vale a pena prestar a atenção na sequência final, que explica os impressionantes desdobramentos da história.

Nota: 6,0 (de dez)










segunda-feira, 20 de junho de 2011

O Enigma de Fermat


O Enigma de Fermat (La Habitación de Fermat, Espanha, 2007). Direção de Luis Piedrahita e Rodrigo Sopeña. Com Lluís Homar, Alejo Sauras, Elena Ballesteros, Santi Millán, Federico Luppi.


Renato Cordeiro

Alguns exemplares do cinema europeu mostram a competência de realizadores pelo mundo afora em criar obras que facilmente seriam consideradas hollywoodianas. Assim como o inglês Danny Boyle teve em Extermínio o êxito ao explorar os elementos dos filmes de zumbi, o longa espanhol O Enigma de Fermat tem desenvoltura para fazer frente a pérolas das tramas de jogos doentios, como Jogos Mortais, do jeito que a Terra do Tio Sam costuma fazer. Com bem menos sangue, é verdade.

A trama acompanha quatro matemáticos que se encontram ao aceitar um misterioso convite para um evento onde será apresentado um grande enigma. Cada um recebe um nome fictício, que faz alusão a um respectivo gênio da ciência que abraçaram. No entanto, uma vez chegando ao local da reunião, o grupo se vê em uma armadilha meticulosamente preparada para pôr à prova suas habilidades. Não demora para que descubram que, à medida que os desafios aparecem, a sala onde estão vai se tornando menor. Enquanto tentam sobreviver às ameaças incessantes, eles tentam descobrir o que os levou a parar naquela situação.

O longa dispensa grandes efeitos especiais e aposta na tensão vivida pelos protagonistas, que a cada teste, vão se tornando mais desesperados. O ritmo ágil é favorecido pela metragem adequada, de pouco mais de 80 minutos, além dos atores competentes. Destaque para Lluís Homar, figura vista em Abraços Partidos e A Má Reputação, de Almodóvar.

Nota: 7,0 (de dez)










domingo, 19 de junho de 2011

Chuva


Chuva (Lluvia, Argentina, 2008). Direção de Paula Hernández. Com Valeria Bertuccelli, Ernesto Alterio.


Renato Cordeiro

Se é verdade que cada cinéfilo guarda na mente um filme a ser rodado um dia, o terceiro longametragem de Paula Hernández fulminou, ao menos em parte, um dos devaneios deste blogueiro. Chuva começa com uma situação típica de uma grande metrópole, um engarrafamento monstruoso que poderia muito bem ocorrer nas ruas do Rio Vermelho, em Salvador, ou na Avenida Paulista, em São Paulo. Mas este se torna ainda mais irritante por causa do mau tempo sobre Buenos Aires, cidade palco do inesperado encontro entre Roberto e Alma. A segunda, presa no próprio carro, vê o primeiro entrar de súbito e sentar no banco do carona, enquanto, pelas ruas congestionadas, pessoas com caras de poucos amigos parecem estar à sua procura. E é assim, de modo abrupto e inesperado, que os personagens começam a se conhecer.

O filme não é muito diferente de tantos outros que seguem a fórmula solitários unidos descobrem um ao outro. Ainda assim, é eficiente em manter o interesse pelo par central, bem interpretado e favorecido pelo trabalho da cineasta argentina, que também assina o roteiro. A história começa no carro de Alma, embalada pela canção Slow, que mais parece um plágio pra lá de descarado de Lost Cause, de Beck. A câmera sobre o painel do veículo destaca a chuva do lado de fora, e tudo isso deixa óbvio que o temporal reflete o estado de espírito da mulher. O mesmo vale para Roberto, cuja vida aparentemente mais estável reserva algumas angústias não-resolvidas. E mesmo depois das cenas no engarrafamento, quando o longa ganha novos cenários, a chuva se faz presente, sempre colaborando para unir os protagonistas.

A história sonega algumas informações sobre os personagens, algo que pode ser negativo para o espectador que fizer certas cobranças à trama. Mas a história, essencialmente, são Roberto e Alma. Chuva resulta em um filme que se por um lado
não rende maior espetáculo, dada a falta de ambição, também não peca na direção de atores e no tom intimista, que sem êxtase, agrada.

Nota: 6,0 (de dez)