terça-feira, 16 de agosto de 2011

Mutações


Mutações (Mutants, França, 2009) Direção de David Morlet. Com Hélène de Fougerolles, Francis Renaud, Dida Diafat, Marie-Sohna Conde, Nicolas Briançon.


Renato Cordeiro

Mutações é um desses filmes que, apesar de não serem marcantes, funcionam minimamente bem por conta da atmosfera adequada e a qualidade das imagens que tomam a tela. A fotografia em tons frios não apenas acentua o gélido ambiente nevado onde a narrativa se desenvolve, como ainda cumpre bem o papel de realçar a angústia da protagonista de uma típica história de apocalipse zumbi.

Sonia e o Marco se abrigam em uma instalação abandonada onde ele mostra ter sido infectado e passa lentamente pelas dolorosas transformações que o tornarão um mortovivo. O drama de Sonia se agrava pela chegada de um grupo de sobreviventes que a hostiliza. É uma trama vista e revista em outras obras do gênero, mas bem contada pelas câmeras melancólicas do cineasta David Morlet.
Em uma cena, logo no início do filme, Sonia lava a ambulância onde estava um corpo ensanguentado. A câmera posicionada embaixo do veículo, na parte traseira, mostra a personagem na pista, de joelhos, acompanhando a água a escorrer para fora, caindo ao chão.

Embora consiga bons resultados na criação de uma atmosfera fria e claustrofóbica, o longametragem francês perde pontos em alguns momentos de ação, especialmente no desfecho, por causa da rápida edição de imagens. É também nessa parte que a trama se permite uma indulgência um tanto excessiva ao evidenciar a natureza de um dos personagens principais. Felizmente, são problemas menores, que ocorrem na parte final da obra de metragem econômica, de apenas 95min. Ou seja, quando Mutants começa a perder força, já está quase no fim, tendo cumprido a missão de entreter o espectador.

Nota: 6,0 (de dez)










segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O Exterminador do Futuro: A Salvação


O Exterminador do Futuro: A Salvação (Terminator Salvation: The Future Begins, EUA, 2008) Direção de McG. Com Christian Bale, Sam Worthington, Anton Yelchin, Moon Bloodgood, Common, Bryce Dallas Howard, Helena Bonham Carter, Josh Brolin, Roland Kickinger, John Trejo, Chris Ashworth, Alan D. Purwin.


Renato Cordeiro

McG é um daqueles diretores que tentam valorizar o material que tem em mãos, por pior que seja. Mesmo no criticado As Panteras 2: Detonando, ele fez um bom trabalho, do ponto de vista dos enquadramentos, do tempo que é dado a cada cena, a cada gesto, do modo como ele dirige nossa atenção e orquestra outros elementos do fazer cinema. Em Exterminador do Futuro: A Salvação, o cineasta até se deu ao luxo de ousar em algumas tomadas, como um planossequência com Christian Bale que faz lembrar certos momentos de Filhos da Esperança. O que há de lamentável no filme, e que o estraga para além do suportável, é o roteiro.

Os dois primeiros longas da série, assinados por James Cameron, apresentavam uma mitologia rica, que começou a ser mutilada no terceiro capítulo, de Jonathan Mostow. O próprio Cameron recusou comandar A Rebelião das Máquinas e a série passou a ser expandida só por causa dos produtores. Para tornar a experiência mais fácil, alguns elementos que remontam aos primeiros filmes foram relembrados, como a cicatriz no rosto do protagonista e a canção You Could Be Mine, dos Guns N' Roses, tema do filme de 93. Mas tudo em Salvação se dispersa em uma narrativa morna.

John Connor, aqui interpretado por Christian Bale, era alguém que o público conhecia desde 1984: o homem que carregaria o fardo de liderar a humanidade contra máquinas assassinas autoconscientes, e que desde criança teria de se preparar para isso. Imagine o dilema de mandar ao passado o próprio pai, Kyle Reese, que morrerá para proteger a mãe de Connor de um ciborgue enviado para acabar com o líder da resistência antes mesmo que ele nasça. Neste quarto filme, o papel se inverte, e é Connor quem precisa salvar o pai, um adolescente vivido por Anton Yelchin. O laço de paternidade entre dois homens que ainda não se conhecem é interessante, quase uma via de mão dupla, mas é tratado com desleixo pelos roteiristas. Além disso, Connor é apenas um sujeito mau-humorado que em nenhum momento cativa o espectador, que acaba se afeiçoando muito mais ao carismático personagem de Sam Worthington, Marcus, que se torna aliado do herói, mas esconde um segredo que ele próprio desconhece.


Paralelamente à ação initerrupta, há gritantes furos de roteiro que levam a pensar até que ponto as máquinas são mesmo ameaçadoras. Sinal irritante disso é a clássica e insistente manobra dos ciborgues de arremessar os mocinhos de um lado para outro quando poderiam simplesmente atravessar o peito das vítimas com as próprias mãos. Ou então, o fato absolutamente ilógico de não matar o jovem Kyle Reese em vários momentos perfeitamente oportunos. E o que dizer do intragável e constrangedor ato final, quando as máquinas fazem a mais burra e recorrente mancada da vilania humana, de contar o plano maligno?

Nota: 5,0 (de dez)










domingo, 14 de agosto de 2011

Até Que a Morte Nos Separe


Até Que a Morte Nos Separe (The Gingerbread Man, EUA, 1998) Direção de John Grisham. Com Kenneth Branagh, Embeth Davidtz, Robert Downey Jr., Daryl Hannah, Tom Berenger, Famke Janssen, Robert Duvall.


Renato Cordeiro

De todos as adaptações para o cinema feitas a partir de uma trama de Jom Grisham, Até Que A Morte Nos Separe é talvez a mais decepcionante. Apesar do elenco acima da média e o comando do renomado cineasta Robert Altman, o longa é burocrático e previsivel. Lembra uma daquelas sessões televisivas de filmes policiais de sábado à noite, que fazem você se dar conta de que devia mesmo ter saído de casa.

Ao contrário do que ocorreu com A Firma, Tempo de Matar e O Dossiê Pelicano, este trabalho não foi baseado em um livro, mas em uma história do escritor que se tornou famoso pelas tramas centradas em assuntos do direito. Desta vez a narrativa é mais policialesca e traz um advogado que, movido pela paixão por uma mulher com quem teve um caso de uma noite, se lança em uma cruzada para proteger a moça, filha de um sujeito com problemas psicológicos. O elenco cumpre bem a parte que lhe cabe, incluindo Robert Duvall, que apesar do pouco tempo em cena, como o pai da jovem, é sempre bom de ver.

O resultado é comprometido pelo roteiro convencional, cujos desdobramentos não surpreendem e se desenvolvem de forma insossa, talvez pelo fato de que o protagonista tolo e mau caráter vivido por Keneth Branagh não seja lá dos mais atraentes para o público. O diretor de M.A.S.H. e O Jogador também não ajuda e, talvez por falta de experiência com thrillers, parece fazer uma trôpega tentativa de emular elementos dos filmes noir, a exemplo das cenas excessivamente sombrias que fazem as vezes do jogo claro/escuro da década de 40.

Nota: 4,0 (de dez)










sábado, 13 de agosto de 2011

Sem Lei, Sem Alma


Sem Lei, Sem Alma (Gunfight at O.K. Corrall, EUA, 1957) Direção de John Sturges. Com Burt Lancaster, Kirk Douglas, Rhonda Fleming, Jo Van Fleet, John Ireland, Lyle Bettger, Frank Faylen, Earl Holliman, Ted de Corsia, Dennis Hopper, DeForest Kelley.


Renato Cordeiro

Três anos antes de comandar uma referência para o western, Sete Homens e Um Destino, o diretor John Sturges lançava um dos muitos filmes dedicados aos lendários Wyatt Earp e "Doc" Holliday. O longametragem é um daqueles que não envelhecem bem, é um tanto datado, até pelo que se percebe das escolhas do roteiro. Trata-se de um faroeste limpo demais quando se considera os acontecimentos e personagens verídicos retratados no celulóide.

Ao contrário de produções como Tombstone - A Justiça Está Chegando e Wyatt Earp, o longametragem de Sturges tem a trama desenvolvida a partir do início da amizade entre o xerife e o dentista pistoleiro. Outra diferença está nas caracterizações. Em momento nenhum é citado o fato de que Wyatt Earp era um homem casado, o que certamente evita que o público rejeite o romance do personagem de Burt Lancaster com uma atriz que chega a Tombstone. Holliday, vivido por Kirk Douglas, é apresentado também de forma mais saneada, apesar de ainda ser alguém claramente autodestrutivo.
A turbulenta relação com a companheira, Kate Fisher, recebe tratamento mais amenizado, sendo pontuada por momentos em que os dois são torturados pela consciência das próprias naturezas e ações. Os efeitos da tuberculose de "Doc" também são aliviados, se tornando mais visíveis apenas na segunda metade do longa.

A ordem de alguns acontecimentos costurados pelo roteiro difere em relação à história original, a exemplo do assassinato de um dos parentes do xerife. Mas a alteração mais importante se dá no clímax do filme, o famoso tiroteio de O. K. Corrall. Se na vida real a lendária troca de tiros entre os Earp e os integrantes da famigerada família Clanton não chegou a um minuto de duração, aqui a peleja é consideravelmente estendida. Falando nas famílias, destaque para os papéis interpretados pelos jovens Dennis Hopper, de Sem Destino, e DeForest Kelley, de Jornada Nas Estrelas.

A falta de correspondência com a história real em que se baseia não é necessariamente uma coisa ruim para filme algum, mas no caso de
Sem Lei, Sem Alma o espectador não tem muito mais o que procurar. Sturges pode ser um cineasta consagrado, mas aqui fez um western menor, rodando sequências que parecem demonstrar um desinteresse pelas situações em curso, a exemplo do próprio confronto que serve de título original do longa, que não empolga. Outro flagrante está no final do longametragem, que parece algo apressado e frio demais com os personagens em cena.

Nota: 5,0 (de dez)










sexta-feira, 12 de agosto de 2011

15 filmes para ver depois de Harry Potter


Ema e Renato Cordeiro

Saindo da sessão de Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2, alguns fãs soltaram comentários como "que pena", "é o fim de uma era" e "o que será de nós agora?". Pensando em aliviar o desamparo dos que já estão com saudade deste universo e até daqueles que deram vida às aventuras do bruxo criado por J. K. Rowling, o BF traz a seguir uma lista de filmes que podem aplacar o vazio no peito, de diferentes formas.




David Copperfield, 1999
O intérprete de Harry Potter, Daniel Radcliffe, tinha 10 anos quando estrelou o telefilme baseado na obra de Charles Dickens, sobre um órfão que tem de se virar sozinho após ser expulso de casa pelo padrasto. O elenco tem ainda Maggie Smith, com quem Radcliffe voltaria a dividir os sets de filmagem nas adaptações dos livros de J. K. Rowling. Curiosamente, David Coperfield foi também o nome artístico adotado por um famoso mágico profissional, que não se daria bem em uma partida de quadribol, mas fez desaparecer a Estátua da Liberdade.


O Jardim Secreto, 1993
A veterana Maggie Smith, que fez a professora bruxa Minerva McGonagall, intepreta aqui a rigorosa governanta de uma propriedade cujo jardim, de acesso restrito, se torna palco de experiências fantásticas para um grupo de crianças que resolve restaurá-lo. Não vai marcar a vida de ninguém, mas diverte.




Willow - Na Terra da Magia, 1988
O ator Warwick Davies já era um velho conhecido da comunidade das artes místicas. 13 anos antes de aparecer em Hogwarts como o professor Filius Fitwick, ele viveu um anão aprendiz de feiticeiro empenhado em proteger um bebê ameaçado por uma rainha má. Filme dirigido por Ron Howard, com Val Kilmer.

Um Romance do Outro Mundo, 1990
O carrancudo e carismático Severus Snape permitiu que o ator Alan Rickman deixasse de ser conhecido apenas como o terrorista que voou ao contrário ao encarar Bruce Willis em Duro de Matar. Para quem sente falta do sujeito, um alento pode ser este belo e triste romance sobrenatural de Anthony Minghella. Mais detalhes aqui.

A Princesinha, 1995
O mexicano responsável por E Sua Mãe Também e Filhos da Esperança foi convidado a assumir o terceiro filme da série Harry Potter pelo produtor-executivo Chris Columbus, depois que o diretor dos dois primeiros capítulos assistiu a fábula infantil A Princesinha. Cuarón até pegou leve ao empregar a marca pessoal em O Prisioneiro de Azkaban, incluindo seus costumeiros planos sequência.




A História Sem Fim, 1984
Outro livro infantil que ganhou as telas do cinema. O romance Die Unendliche Geschichte, do alemão Michael Ende, foi adaptado pelo cineasta compatriota Wolfgang Petersen. A trama acompanha o menino Bastian, que lê um livro sobre um mundo mágico onde um jovem e bravo guerreiro tenta salvar uma imperatriz da ameaça conhecida como O Nada.


O Senhor dos Anéis
, 2001
Quando o saudoso ator Richard Harris morreu, convidaram Ian McKellen para assumir o papel do diretor de Hogwarts, Dumbledore. O intérprete do mago Gandalf recusou a oferta porque teria se preocupado com o andamento da carreira depois da associação com mais um personagem místico. O posto acabou com Michael Gambon, que certamente ficou agradecido.





Stardust - O Mistério da Estrela, 2007
O clima de fantasia medieval, encanto e bom humor dos primeiros dois filmes da série Harry Potter aparecem aqui de forma ainda mais eficiente. É uma simpaticíssima adaptação dos quadrinhos de Neil Gaiman, sobre a jornada de um rapaz para encontrar uma estrela cadente em forma de uma radiante Claire Danes. O elenco inclui Robert De Niro, Michelle Pfeiffer e uma ponta de Peter O'Toole.

O Feitiço de Áquila, 1985
Fantasia medieval que apresenta um casal empenhado em quebrar uma maldição. À noite, o cavaleiro Etienne Navarre, vivido por Rutger Hauer, se transforma em um lobo, enquanto, pela manhã, a jovem Isabeau D'Anjou, a bela Michelle Pfeiffer, dá lugar a um falcão. Para desfazer o feitiço do Bispo de Áquila, terão a ajuda do ladrão Phillipe Gaston, interpretado por Matthew "Ferris Bueller" Broderick.

O Mágico de Oz, 1939
Judy Garland não está mais em Kansas, mas na história do cinema, imortalizada no papel de Dorothy, em uma adaptação ainda definitiva da obra de Lewis Carroll. Assim como o jovem Harry Potter, a personagem vai parar em um mundo fantástico, onde vai viver aventuras e conhecer criaturas maravilhosas. O desafio será encontrar um mágico que pode levá-la de volta pra casa.




A Espada Era a Lei, 1963
A lenda do Rei Arthur ganhou uma versão animada bem divertida, apresentando a formação do futuro líder de Camelot. Destaque para a caracterização meio atrapalhada do Mago Merlin, que faz gato e sapato dos aprendizes. Na verdade, faz gato, cachorro.. a lista é vasta.

Fantasia, 1940
Animação clássica dos estúdios Disney, acompanha as desventuras de Mickey Mouse como um aprendiz de feiticeiro, embalado pela música de compositores como Bach, Schubert e Tchaikovsky. Dificilmente algo assim seria lançado nos dias de hoje.

Labirinto - A Magia do Tempo, 1986
Passatempo curioso, reúne o criador dos Muppets, Jim Henson, o produtor que pariu Star Wars, George Lucas, a futura vencedora do Oscar Jennifer Connelly e o cantor David Bowie, que escreveu algumas canções do longa. A trama apresenta uma adolescente que se aventura em um mundo mágico para onde um grupo de duendes levou o irmão caçula.




A Princesa Prometida
, 1987
Diversão que é um mix de vários elementos da literatura fantástica e de capa e espada, com b
ruxos, gigantes, um pouco de Sinbad, um tanto de Robin Hood, em uma embalagem que reúne ação e comédia. A história do camponês que busca salvar uma princesa raptada tem música de Mark Knopfler, direção de Rob Reiner e ótima avaliação no portal imdb.

A Viagem de Chihiro, 2001
No mesmo ano em que estreou o primeiro filme de Harry Potter, Hayao Miyazaki finalizava um dos trabalhos mais consagrados da carreira, vencedor do Oscar de melhor animação. A aventura apresenta a desoladora situação de uma criança que, às voltas com um mundo bizarro onde foi parar, tem de reverter um encanto que transformou os pais em porcos.












quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Harry Potter e As Relíquias da Morte - Parte 2


Harry Potter e As Relíquias da Morte - Parte 2 (Harry Potter and the Deathly Hallows: Part 2, Reino Unido/EUA, 2011) Direção de David Yates. Com Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Helena Bonham Carter, Ralph Fiennes, Alan Rickman, Bonnie Wright, Tom Felton, Maggie Smith, Jim Broadbent, Matthew Lewis, Michael Gambon, Jason Isaacs, Warwick Davis, David Thewlis, John Hurt, Jim Broadbent, Emma Thompson, Robbie Coltrane, Gary Oldman.


Renato Cordeiro

O último filme da série protagonizada pelo já não tão jovem Harry Potter não perde muito tempo e carrega na ação. A estrutura narrativa até tenta seguir o modelo tradicional, com a apresentação do problema a ser resolvido, os desdobramentos e o clímax, quando diversos elementos da trama convergem para o desfecho. Mas o clímax parece responder por quase toda a duração da obra, servindo não ao filme em si, mas toda a cinessérie iniciada em 2001. Boa parte dos problemas do longa está relacionada a esta falta de independência dos predecessores, o que faz dele um espetáculo para fãs. Se por um lado este é um bom capítulo de desfecho, com tom épico e inevitável autorreferência, também é verdade que não passa muito disso.

Relíquias da Morte - Parte 2 tem um tom de gincana, uma corrida de Harry Potter e seus amigos atrás das chamadas horcruxes, poderosas peças místicas que são a fonte de poder do maligno Lorde Voldemort. A jornada leva o público a acompanhar uma longa batalha para defender a escola de Hogwarts, onde estão escondidos os artefatos. A tentativa de invasão promovida pela horda do inimigo, por si só, é muito longa, apesar de ser interrompida por algumas passagens que mais parecem intervalos para descansar o público. Felizmente, o
diretor David Yates, que comandou metade dos oito capítulos da cinessérie, demonstra segurança na condução do trabalho, realizando cenas que, apesar do volume de ação e efeitos especiais, em nenhum momento se mostram confusas. Cansam, é verdade, mas ao menos funcionam, assim como as partes de maior apelo sentimental, que cumprem com competência o dever de arrancar lágrimas dos fãs. Falando em lágrimas, a cena que revisita o passado de Severus Snape é o ponto de inflexão de Relíquias da Morte - Parte 2, fazendo o filme voltar a ter fôlego a partir das revelações sobre o bruxo sombrio.

Alguns detalhes se perdem na tela sem maiores e necessárias explicações, o que torna recomendável o conhecimento da obra de J. K. Rowling ou, para quem não tem paciência ou gosto pelos livros da escritora, a companhia de alguém que esteja por dentro da mitologia. Incomoda também o fato de que alguns personagens que conquistaram a simpatia do público ao longo da saga de Harry Potter acabem perecendo sem merecer maior atenção do roteiro, que se limita a apresentar corpos sem vida depois das batalhas. Os confrontos, por sinal, não são o forte do longametragem. Nenhum dos quatro diretores que passaram pela série conseguiu fazer dos duelos mágicos com varinhas algo interessante de se ver, o que limita o desempenho de algumas das cenas finais. No fim das contas, o forte deste filme fraco está no compromisso de emocionar quem vinha acompanhando, com euforia, cada capítulo das aventuras de Harry Potter, como fica explícito no simpático epílogo.

Nota: 5,0 (de dez)











terça-feira, 9 de agosto de 2011

Matei Jesse James


Matei Jesse James (I Shot Jesse James, EUA, 1949) Direção de Samuel Fuller. Com John Ireland, Barbara Britton, Preston Foster, Reed Hadley.


Renato Cordeiro

Consta do imponente portal imdb que Samuel Fuller via a figura de Jesse James de forma bem diferente da que se percebe na canção popular que embala o início do filme. Em vez do herói bandido à Robin Hood, o diretor entendia que o lendário pistoleiro era pouco mais do que um psicopata. Se é fato, é ainda mais interessante que a trama escrita pelo cineasta, aqui no primeiro trabalho de direção, tenha optado por pouco retratar o personagem e centrar a atenção naquele que se tornou famoso por liquidá-lo, Robert Ford.

A história é conhecida e já rendeu obras como Cavalgada dos Proscritos, de 1980, e O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford, de 2007. Este último se parece mais com o trabalho de Fuller, tanto pelo protagonismo quanto pelo enquadramento dado ao homem que matou a lenda. Ford é retratado como um sujeito ingênuo e desprovido de qualquer maior atenção das pessoas ao redor, constatando que a morte do amigo poderá reverter toda uma vida de má sorte. Ao dar cabo do sujeito, algo que acontece logo nos primeiros 15 minutos de filme, acompanhamos os desdobramentos da decisão de Ford, que passa a se tornar um pária, amargando as zombarias e a decepção da mulher que ama, uma atriz a quem jurou uma vida melhor. O esforço em humanizar uma das figuras mais desprezadas da história do Oeste é explicitado pelos closes constantes no rosto de John Ireland, que com o olhar semicerrado e a fala inebriada, deixa-o mais bobo e sonhador, ainda que seja um perigoso idiota apaixonado.

A tônica do longametragem, no entanto, não é a da redenção, mas da tragédia, de abandono do glamour, da trilha sonora quase melodramática, de tal modo que mal se pode dizer que Matei Jesse James seja, de fato, um faroeste, se aproximando mais de um quase antiwestern. Ou talvez seja uma revisão do gênero feita por um western não-revisionista, anos antes da tendência que teve em Delmer Davis um expoente. O infortúnio do protagonista vem da desgraça de ser quem é, uma narrativa de derrotas que se dá quase totalmente em espaços fechados, como teatros, saloons, o camarim da atriz e a casa onde Jesse James tombou sem vida.

A princípio, pensando no que escrever sobre as coisas que incomodavam no longametragem, este cinéfilo pensou tratar-se de metragem excessiva. Engano tremendo: são 81 minutos de filme, quase 20 a menos do que a metragem padrão em Hollywood. O que torna a obra algo arrastada parece ser, então, o pouco interesse que emana da trama paralela à história de Ford, a saber, o triângulo amoroso que é formado com o personagem de Preston Foster. Vale pela intenção e despojamento do drama derrotista.

Nota: 6,0 (de dez)










segunda-feira, 8 de agosto de 2011

A Ditadura 3D


Renato Cordeiro

Conferir blockbusters depois de Avatar vem se tornando uma experiência mais penosa do que de costume. As salas com melhor equipamento disponível para projeção exibem os filmes de maior apelo popular quase que exclusivamente em 3D, sendo que a maior parte das sessões é dublada, para desespero do cinéfilo que gosta do som original. Se é que existe outro tipo de cinéfilo.

Só para citar um exemplo recente, Capitão América - O Primeiro Vingador é exibido em Salvador com 25 sessões distribuídas em 9 salas de cinema. Conferi este lançamento da Marvel em três dimensões, a contragosto, pois do contrário o veria sem a companhia de dois grandes amigos. A única sala que exibia o filme legendado em bons horários e sem o maldito 3D se encontrava no Unibanco Glauber Rocha, que gosto muito, mas era distante demais para eles, que precisavam enquadrar a sessão no horário da babá do filho. No circuito das grandes salas, as opções eram todas 3D, a maior parte dublada. Com o último filme da série Harry Potter e o longa X-Men - Primeira Classe, o problema foi bem parecido.

O que mais irrita não é só o fato de que a sessão em três dimensões é mais cara, chegando a quase o dobro do que se cobra em uma sala normal. Irrita mais é saber que o público paga mais caro por algo que não vale a pena, não passa de mero artifício dentro da experiência. Não é que a ferramenta não possa se tornar essencial e desejável ao espetáculo, mas até então poucos cineastas parecem ter conseguido fazer a diferença na utilização do recurso, tão alardeado como salvador das salas de cinema em tempos de downloads de filmes pela internet. Comenta-se, curiosamente, que o melhor resultado neste sentido, desde o lançamento de Avatar, foi obtido por Paul W. S. Anderson em Resident Evil 4 - Recomeço. Longa que não vi e não gostei, de todo modo, mas por outros quinhentos.

Com a chegada de TV's e monitores capazes de reproduzir o efeito 3D em domicílio, a expectativa, talvez otimista, é a de que a indústria reconheça que o recurso de três dimensões não vai conseguir, por si só, a adesão do público que vem assistindo DVD pirata e baixando filmes. Até lá, oficializo meu boicote ao 3D caçaníqueis.










domingo, 7 de agosto de 2011

Capitão América - O Primeiro Vingador


Capitão América - O Primeiro Vingador (Captain America: The First Avenger, EUA, 2011). Direção de Joe Johnston. Com Chris Evans, Hugo Weaving, Hayley Atwell, Tommy Lee Jones, Dominic Cooper, Sebastian Stan, Toby Jones, Neal McDonough, Derek Luke, Stanley Tucci, Samuel L. Jackson.


Renato Cordeiro

É curioso como um longametragem pode começar bem e terminar de forma burocrática. Capitão América é um filme de super-heróis até razoável, mas peca no desenvolvimento e faz o espectador bocejar nos, digamos, quarenta minutos finais. É um mal comum no cinema de ação e aventura como um todo. A narrativa clássica consegue estabelecer simpatia entre o público e o protagonista, mas perde o controle quando se trata de manter o interesse na jornada do personagem.

O roteiro foi friamente calculado para evitar rejeições, a começar pelo protagonista, um fracote transformado em um supersoldado depois de se voluntariar em um experimento. Antes que possamos questionar os méritos do herói anabolizado, a trama deixa claro que o forte da cobaia está na coragem e integridade intrínsecas, que renderam alta experiência em levar porrada com a dignidade intacta. A interpretação correta de Chris Evans e os ótimos efeitos especiais que o tornaram um rapaz mirrado favorecem a adesão ao bravo Steve Rogers. Também seria possível rejeitar uma produção ufanista, mas os símbolos estadunidenses em jogo, incluindo o uniforme do herói, são encaixados à história como forma de satirizar o belicismo do Tio Sam. O marketing de guerra que faz nascer o Capitão América rende, inclusive, uma agradável passagem com número musical típico da década, conquistando o público por assumir a paródia. Por sinal, a Marvel Studios foi feliz em fazer de Capitão América uma aventura de época, tomando por base o próprio momento no qual o personagem dos gibis foi criado. A requintada reconstituição dos anos 40 e a edição estilizada ajudam a entrar no clima e fazem esquecer a pavorosa adaptação anterior, filmada em 1990.

A direção de Joe Johnston faz sua parte nos esforços de simpatia ao impedir que o Capitão América seja visto como um "exército de um homem só". Personagens coadjuvantes são colocados em situação de quase protagonismo de algumas cenas de ação, auxiliando o herói em momentos decisivos. Uma cena exemplar é aquela em que um temerário soldado instala um explosivo embaixo de um veículo blindado. A ação é vista de longe pelos companheiros, sendo que o Capitão América está atrás de todos eles, enquadrado com discrição. O discurso é claro: o herói não veio resolver o problema, mas ajudar. E mesmo aqueles que não aguentam mais ver os alemães retratados como seres desalmados vão se sentir melhor com o personagem de Stanley Tucci, o consciencioso cientista que busca, com o soro, fazer um bem à humanidade. Em uma cena, ele explica a Rogers por que o escolheu para a experiência. "Você quer matar nazistas, garoto?", pergunta ao futuro herói. "Não quero matar ninguém, senhor", é a resposta. Tudo bem, Rogers vai matar geral ao longo da produção, mas é bonito ouvi-lo dizer isso.

O filme teria se saído melhor se desse atenção ao antagonista do herói, o Caveira Vermelha. A melhor cena do personagem é aquela na qual oferece o próprio carro como veículo de fuga para um comandado, que chama a atenção pelo inusitado. De resto, é um personagem insosso, interpretado por um Hugo Weaving no piloto automático e impulsionado por um enfadonho desejo de controlar o mundo, que enfraquece o longa à medida que ganha espaço, tornando-se a missão do Capitão América. O Caveira Vermelha protagoniza quase todas as cenas mais insignificantes da produção, nas quais o espectador poderá sair da sala de projeção para ir ao banheiro ou reabastecer o copo de refrigerante. Sairá no lucro.

Nota: 6,0 (de dez)