terça-feira, 19 de abril de 2011

Morricone conducts Morricone

Renato Cordeiro

Nem John Williams, nem Danny Elfman, muito menos James Horner. O grande mestre vivo da música para o cinema, na opinião deste humilde blogueiro, é o italiano Ennio Morricone, autor das partituras de filmes de Pier Paolo Pasolini, Pedro Almodóvar e Quentin Tarantino, entre outros. O maestro e compositor é uma das provas de que o Oscar não deve ser levado muito a sério. Foi indicado ao prêmio cinco vezes, mas levou apenas uma estatueta especial entregue em 2007 por Clint Eastwood, pelas contribuições ao cinema.


Uma boa oportunidade de conferir o trabalho do músico é o DVD Morricone conducts Morricone, gravado em Munique, em outubro de 2004. O concerto inclui os temas de Cinema Paradiso, Pecados de Guerra, A Missão, e claro, de alguns westerns consagrados de Sergio Leone. Uma ausência sentida por este cinéfilo é a apoteótica Man With the Harmonica, que marca o duelo entre Charles Bronson e Henry Fonda em Era Uma Vez No Oeste. Esta obra não seria tão prima sem a música do mestre italiano. Outra falta, que diz respeito a um clássico de Brian De Palma, é The Untouchables Theme, que embala a maravilhosa investida a cavalo de Elliot Ness e os Intocáveis contra um bando de criminosos.

Essas insatisfações não causam surpresa nem desmerecem o DVD.
Em décadas de serviços prestados à sétima arte, nada mais natural do que deixar de fora grandes obras em uma necessária seleção de repertório, frente às numerosas boas opções. Abaixo, um dos melhores momentos do programa que, como não poderia deixar de ser, diz respeito a um clássico de Leone.













segunda-feira, 18 de abril de 2011

Nós, As Mulheres



Nós, As Mulheres (Siamo Donne, Itália, 1966). Direção de Gianni Franciolini, Alfredo Guarini, Roberto Rossellini, Luchino Visconti, Luigi Zampa. Com Ingrid Bergman, Anna Magnani, Isa Miranda, Alida Valli, Anna Amendola, Emma Danieli.


Renato Cordeiro

Nós, As Mulheres é ao mesmo tempo uma obra de metalinguagem e um tributo a quatro estrelas do cinema, produção feminina dirigida por homens, sensível e divertida. São cinco episódios reunidos em torno do filme dentro do filme, chamado Quatro Atrizes e Uma Esperança, que dá nome à primeira parte do longa.

O capítulo de abertura, dirigido por
Alfredo Guarini, registra o concurso para escolha de uma nova atriz para o filme que vai mostrar quatro histórias vividas por quatro atrizes famosas, extraídas do cotidiano das próprias. O espectador é apresentado à frustração e perseverança das candidatas e à seleção que tem ares de linha de montagem industrial. A partir daí, seguem quatro episódios intitulados com os nomes das respectivas protagonistas: Alida Valli, de Franciollini, Ingrid Bergman, de Rossellini, Isa Miranda, de Zampa, e Anna Magnani, de Visconti, nesta ordem.

Dois curtas têm em comum os dissabores da vida de celebridade. Alida Valli está entediada só de pensar em um baile ao qual compareceria apenas para estabelecer contatos profissionais, que coincide com a festa de noivado de uma amiga, para a qual também foi convidada. A pergunta de um repórter sobre as opiniões quanto ao neorrealismo é a deixa para a atriz, que tem dificuldade para responder de improviso, procurar de imediato o segundo evento. "É preciso parecer inteligente a qualquer custo", diz na narração em off. É na festa mais humilde que Valli vai se dar conta da falta que sente de coisas mais simples. Já Isa Miranda começa seu episódio em tom de autossuficiência, mas ao retornar de um compromisso, se depara com um menino ferido em uma brincadeira e o socorre. O fato vai fazê-la perceber um universo do qual abriu mão e mergulhar a intérprete em melancolia.

Por sua vez,
Ingrid Bergman e Anna Magnani dão o tom cômico da colagem de curtas. A primeira tem o capítulo mais fraco, mas diverte, afinal, ver a Ilsa Lund de Casablanca correr atrás do frango da vizinha não é pouca coisa. "Eu disse que era uma história ridícula!", sentencia. Magnani também tem uma desventura zoológica, ao embarcar em um táxi com um cachorro de estimação. O motorista e a atriz de pavio confessamente curto se envolvem em um duelo de vontades capaz de mobilizar todo o efetivo policial da cidade, quando o primeiro cobra uma taxa extra pelo bicho. Ao final, a impressão é de que algo poderia ser melhor amarrado entre os episódios, dado um certo gosto de quero mais. Mas pode ser a impressão de um cinéfilo que, em face destas quatro estelas, tem saudade do que não viveu.

Nota: 7,0 (de dez)










domingo, 17 de abril de 2011

Return to the Batcave


Return to the Batcave: The Misadventures of Adam and Burt
(EUA, 2003). Direção de Paul A. Kaufman. Com Adam West, Burt Ward, Jack Brewer, Jason Marsden, Lyle Waggoner, Lee Meriwether, Frank Gorshin, Julie Newmar
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Renato Cordeiro

Quem não gostava da série sessentista de Batman e Robin dificilmente vai dar uma chance para Return to the Batcave. Uma pena, já que o longa feito para a TV consegue até alguma simpatia pelo tom de paródia e algumas boas gags, trazendo os atores Adam West e Burt Ward como eles mesmos, em uma trama cheia de referências à atração que marcou época.

Adam West e Burt Ward são convidados para comparecer ao leilão do batmóvel, que terá os recursos revertidos para uma instituição filantrópica. No meio do evento, o famoso veículo é roubado, dando início a uma busca pelo ladrão, que deixa pistas ligadas ao programa de TV. Na trama paralela, que se passa nos anos sessenta, a dupla é representada por
Jack Brewer e Jason Marsden, escolhidos pelos próprios atores originais. O último, intérprete de Ward, tem uma performance cômica que lembra o sumido Rick Moranis, e se sai ainda melhor, graças às situações impagáveis causadas pela fantasia do Robin. A máscara diminuta limitava drasticamente o uso de dublês, e o short um tanto justo demais criou problemas constrangedores.

Os flashbacks, aliás, são o forte de Return to the Batcave, que aborda os bastidores da atração televisiva, incluindo o escândalo envolvendo uma suposta relação amorosa entre os dois atores. Quem assistia a série quando criança pode até se espantar com o tom confessional. Adam West é apresentado como um garanhão incorrigível que não prima pela inteligência, enquanto Burt Ward é um sujeito atrapalhado de bom coração, mas que não resiste às tentadoras fãs que fazem fila para tentar a sorte com a dupla dinâmica. Só faltou um pouco mais de coragem para abordar a famosa barriga avantajada de West.

Pena que o filme não tenha o mesmo desempenho na trama que se desenrola no "presente". Os atores estão bem à vontade como eles mesmos, a narração e a edição que remetem à série de TV funciona, mas a história vai perdendo força até chegar em um desfecho que exagera no tom pastelão e assume ares de mico coletivo. O problema de parodiar algo que já era uma paródia é justamente perder as estribeiras e pecar pelo excesso.

Nota: 5,0 (de dez)










sábado, 16 de abril de 2011

Um Astro em Minha Vida


Um Astro em Minha Vida (10 Items or Less, EUA, 2006). Direção de Brad Silberling. Com Morgan Freeman, Paz Vega, Jonah Hill, Anne Dudek, Francisca Hernandez, Jim Parsons, Danny DeVito.


Renato Cordeiro

Morgan Freeman está longe das telonas há alguns anos, quando resolve tentar um projeto independente e viaja até Carson, na Califórnia, onde aguarda o diretor do possível novo filme. Em uma mercearia, ela acaba voltando a atenção a Scarlet, que trabalha em um caixa do estabelecimento. Apesar de rude, a espanhola desperta um fascínio imediato no veterano ator. Freeman passa a acompanhar a esquentadinha, que não aguenta mais o ofício atual, e a ajuda na preparação para uma entrevista de emprego como quem orienta alguém para um grande papel.

O plot torna a primeira metade do filme bem envolvente, muito em função do carisma do ator, aqui interpretando a si próprio, sem que seu nome seja dito uma única vez ao longo da história. O protagonista é retratado de maneira elogiosa, como uma espécie de guru irreverente, gentil, apaixonado pela profissão e eventualmente envergonhado pelos filmes ruins que já fez. O personagem pode até não ser a exata expressão do intérprete, mas diverte, especialmente ao demonstrar o prazer em estudar as pessoas em volta, como acontece com um profissional de escritório vivido por Jim Parsons, da série The Big Bang Theory, em rápida aparição. O mesmo, claro, ocorre com Scarlett, ainda nos primeiros minutos do filme. Em um dado momento, quando a jovem percebe o tipo esquisito que a observa em cada gesto, pergunta se todos os atores são assim. "Infelizmente, não", responde ele.

A direção e montagem merecem créditos, especialmente na cena em que Morgan Freeman leva o carro da nova amiga para um lava-jato. Ele esbanja simpatia com os funcionários do local, com direito a uma referência ao clássico Virtude Selvagem, de 1946. Ao mesmo tempo, Scarlett, vivida pela belíssima Paz Vega, troca de roupa, se preparando para "assumir o papel". A passagem é embalada por La Receta, de Kemo, rap que tem no naipe de metais um agradável toque latino, em possível metáfora ao encontro do ator de descendência africana com a jovem de origem hispânica. É um dos melhores momentos do filme, mas também sinaliza uma curva descendente.

Um Astro em Minha Vida perde força justamente quando Scarlet passa a abrir a guarda. A boa química entre os protagonistas se dava em boa medida pelo conflito que escondia uma admiração mútua. Quando chega ao fim, a fórmula consagrada para alguns, batida para outros, costuma dar lugar à desafiadora missão de manter o espectador interessado por alguma outra coisa. A dupla passa a se encarar como dois solitários e experimenta algo próximo do que o espectador assistiu em Encontros e Desencontros, mas não da mesma forma convincente que a do filme de Sofia Copolla. Freeman não parece ser alguém que compartilha das angústias de Scarlett, como a trama busca mostrar. Talvez haja limites para o quanto o próprio ator pode se expor ao público.

Nota: 7,0 (de dez)


P.E.: De acordo com o IMDB, este filme é o primeiro da história a ser disponibilizado para ser visto legalmente pela internet enquanto ainda era exibido nos cinemas. Abaixo, segue um vídeo no qual a dupla de protagonistas dá boas razões para isso.











sexta-feira, 15 de abril de 2011

Transformers



Transformers (EUA, 2007). Direção de Michael Bay. Com Shia LaBeouf, Megan Fox, Josh Duhamel, Tyrese Gibson, Rachael Taylor, Anthony Anderson, Jon Voight, John Turturro, Michael O'Neill.


Renato Cordeiro



Não tenho preconceitos quanto a blockbusters, até gosto desses filmes do tipo "desligue o cérebro e seja feliz". Mas depois que vi uma boa quantidade de longas-metragens desse tipo, as exigências foram aumentando. Já não dava pra ser tão complacente com furos de roteiro e atuações inexpressivas. Como os lançamentos são muitos e o dinheiro é pouco, fui me acostumando a limitar meu comparecimento às salas de cinema àquelas situações em que podia apostar na qualidade da estréia da semana. No caso de Transformers, de Michael Bay, o apelo oitentista acabou falando mais alto, e lá fomos eu, que nem gostava tanto do desenho animado que deu origem ao filme. Mesmo com o dedo de Spielberg na produção-executiva, eu esperava apenas um entretenimento meia-boca, com uma ou outra sequência relevante. E foi isso o que eu tive. Mas se minhas expectativas iniciais se concretizaram, então por que fiquei tão chateado na saída do cinema? Resposta: porque Transformers começa bem e poderia ter sido um bom filme.

A primeira metade do longa é dedicada aos personagens humanos, decisão acertada quando levamos em conta o talento de seu jovem ator principal, Shia LeBouf. Com excelente timing cômico, ele interpreta Sam Witwicky, um estudante que ignora ter, entre as relíquias de um antepassado, a pista para a localização de um poderoso artefato. É a busca por este objeto que motiva a chegada de dois grupos de seres robóticos à Terra: os Autobots (os bonzinhos) e os Decepticons (os não tão bonzinhos), ambos com a curiosa capacidade de se transformarem em algum tipo de veículo.

Humor e ação se desenvolvem na medida certa até que, ao fim da primeira metade da projeção, começam a aparecer os problemas. Fica claro que, a partir de certa cena, a participação do personagem de LeBouf torna-se totalmente incoerente, permanecendo na narrativa puramente por que os roteiristas estão forçando a barra. Gasta-se tempo com uma série de personagens secundários que pouco acrescentam à trama, e os combates, que deveriam funcionar como uma redenção a este fraco longa-metragem, acabam por piorar o conjunto: são longos, intensos e confusos demais. Quando dois robôs se engalfinham, torna-se difícil para o espectador saber quem é quem. Não que tenha sido um grande problema pra mim. Com a dor-de-cabeça que eu sentia, já nem me importava mais.

Nota: 4 (de dez)

(Escrita em 7 de agosto de 2007)







quinta-feira, 14 de abril de 2011

Escritos Sobre Cinema - Trilogia de Um Tempo Crítico



Renato Cordeiro

Há um ano, a crítica cinematográfica brasileira preenchia uma das mais preocupantes lacunas de sua história. Em 13 de abril de 2010, era lançada a trilogia Escritos Sobre Cinema, uma compilação de resenhas e análises fílmicas de André Setaro, colunista de veículos como o Terra Magazine e o jornal Tribuna da Bahia. Com mais de 40 anos de serviços prestados à compreensão e valorização da sétima arte, o carioca que ainda garoto se firmou na Bahia corria o risco de ter seus textos privados da posteridade.

A publicação só foi possível graças à brava teimosia do jornalista e escritor Carlos Ribeiro, que convenceu o crítico da viabilidade do projeto e liderou um grupo encarregado da seleção de textos que tomariam três volumes. No primeiro, estão análises de filmes, atores e diretores, com um passeio pela obra de Hitchcock, Bergman e Hawks, entre outros. O segundo livro trata exclusivamente do cinema baiano, abordando aspectos importantes de sua história, além de alguns dos mais importantes cineastas. Já na última parte, o leitor encontrará textos que abordam a linguagem cinematográfica, entre outros temas.

Os livros já seriam de grande importância se tratassem apenas das considerações de André Setaro sobre a sétima arte. Mas o crítico, que ainda hoje qualifica a si próprio como comentarista, vai além, e em passagens em tons autobiográficos, acaba fazendo um retrato da cidade de Salvador no que chamaria de tempos pretéritos, com a nostalgia de quem viu a fase áurea de salas de cinema que, hoje, dão lugar a igrejas e locais de exibição de filmes pornográficos. Ele destaca os hábitos do público, a ansiosidade para assistir obras que não eram apresentadas nos grandes circuitos e a importância do Clube de Cinema da Bahia e do principal ativista, Walter da Silveira. Assuntos, por sinal, que são costumeiros no blog do autor.

Como se não bastasse, há espaço até mesmo para alguns causos, como Meu Encontro Com James Stewart, artigo no qual o crítico dá lugar ao cinéfilo para falar da ocasião em que entrevistou o homem que matou o facínora. Talvez fosse pensando nisso que Inácio Araújo, no prefácio da trilogia, traçou o seguinte comentário: "Tenho a impressão, ao ler seus textos, que para André Setaro a crítica é a arte da paciência (e a da entrevista é a da fascinação, mas isso é outra história)."










quarta-feira, 13 de abril de 2011

Um Romance de Outro Mundo



Um Romance de Outro Mundo (Truly Madly Deeply, Reino Unido, 1990). Direção de Anthony Minghella. Com Juliet Stevenson, Alan Rickman, Bill Paterson, Michael Maloney, Christopher Rozycki, David Ryall, Stella Maris.


Renato Cordeiro

Tempos atrás, uma relação publicada pela BBC listou 20 filmes que fazem os homens chorarem. Discretamente, na última posição, estava um longametragem pouco conhecido de Anthony Minghella, o mesmo de O Paciente Inglês e Cold Mountain. O diretor possuía apenas trabalhos para televisão e iniciou a carreira nas telonas com um filme de produção modesta e tocante.

A maior parte do trabalho se passa dentro da casa de Nina, uma mulher que mora em um apartamento cuja decadência reflete seu estado de espírito. Ela perdeu um grande amor, Jamie, vítima de uma morte banal, e arrasada, tem dificuldade em retomar o curso da própria vida. É quando, subitamente, o sujeito reaparece como um fantasma que passa a fazer companhia à namorada. À primeira vista, seria a realização de um privilégio. O casal passa um bom tempo junto, cantando, dançando, brincando e experimentando um idílio amoroso que deixa claro por que a personagem se sentia tão triste pela ausência do namorado. Mas, e sempre tem um "mas", o romance sobrenatural, assim como o que é vivenciado pelas pessoas normais, também reserva dissabores aos enamorados.

Tudo no filme é registrado com delicadeza em cenas ora bem-humoradas, ora melancólicas. Um destaque é o carisma do elenco de apoio que dá vida aos amigos de Nina e, no processo, ajuda a tornar a personagem cativante, apesar de sofrida. A atriz Juliet Stevenson, que foi uma escolha pessoal do diretor Minguella, constrói com segurança uma pessoa crível em face do incrível. Já Alan Rickman, mais conhecido como o terrorista Hans Gruber de Duro de Matar e como o sombrio Severus Snape da série Harry Potter, interpreta aqui um sujeito divertidamente rabugento, que em meio à nova condição tenta ser um bom namorado, entre fracassos engraçados e sucessos comoventes.

Nota: 8,0 (de dez)

PE: Se já tiver visto o filme e quiser dar uma olhada no making off, clique aqui.










terça-feira, 12 de abril de 2011

Almas à Venda


Almas à Venda (Cold Souls, EUA/França, 2009). Direção de Sophie Barthes. Com Paul Giamatti, Dina Korzun, Emily Watson, David Strathairn, Armand Schultz, Michael Tucker.


Renato Cordeiro

Quem assistir Almas à Venda pode ter a impressão de estar embarcando em uma viagem surreal típica de uma mente excêntrica como a do roteirista Charlie Kauffman. A comparação é inevitável. Assim como acontece em Quero Ser John Malkovich, a trama escrita pela cineasta Sophie Barthes, em seu primeiro longametragem, explora um acontecimento fantástico e fictício na vida de uma pessoa real. E do mesmo modo que acontece em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, o discurso é o do sofrimento como elemento próprio e inevitável da condição humana.

O ator Paul Giamatti, o mesmo de Sideways e Anti-Herói Americano, está às voltas com uma montagem teatral de Tio Vânia, de Tchekov. Os ensaios consomem o intérprete, que está em crise emocional a poucas semanas da estréia da peça. A solução encontrada é a firma Soul Storage, que promete o alívio do cliente que lá deposita a própria alma. O responsável pelo procedimento, vivido por
David Strathairn, explica que o processo é reversível, e que assim que quiser, o cliente receberá de volta aquilo que tanto lhe pesa. O problema acontece quando a alma de Giamatti acaba indo parar nas mãos de uma rede de tráfico especializada neste tipo de mercadoria.

O absurdo da trama mantém o espectador intrigado durante uma certa parte do filme. Desesperado com a incompetência da firma, o protagonista acaba aceitando alugar a alma de uma mulher até que o incidente seja resolvido, e descobre que o espírito sempre deixa um resíduo no hospedeiro. Enquanto isso, a pessoa que recebe a alma de Giamatti se diverte com a idéia de ter dentro de si a essência de um grande astro do cinema. São idéias que acabam despertando até mais interesse do que a jornada do ator para ter a alma de volta. As motivações não são bem exploradas e soam um pouco forçadas, como se o longa estivesse interessado em chegar à moral da história, de qualquer jeito.

Nota: 6,0 (de dez)










segunda-feira, 11 de abril de 2011

U2 - A Banda, os Filmes


A ligação do U2 com o cinema já vem de longa data. Normalmente, a relação se dá com a banda cedendo canções para a trilha sonora de algum filme, mas por vezes se trata de uma colaboração mais significativa. O BF relacionou dez dos trabalhos mais dignos de nota, entre os que demonstram o envolvimento dos irlandeses com a sétima arte.



U2: Rattle and Hum (1988)
Era para ser apenas o documentário sobre a turnê que o U2 realizou nos Estados Unidos depois do cultuado álbum The Joshua Tree, mas o registro acabou levando os irlandeses a mergulhar de vez na música da Terra do Tio Sam. Uma das canções produzidas ao longo da jornada dirigida por Phil Joanou foi Angel of Harlem, indicada ao Grammy.







Tão Longe, Tão Perto (1993)

Um dos mais belos trabalhos do U2. A música Stay (Faraway, So Close) tem como subtítulo o nome da sequência que Win Wenders fez para sua obra-prima, Asas do Desejo. O clipe é dirigido pelo próprio cineasta, amigo do vocalista Bono Vox. No filme, a canção toca em uma cena envolvendo o anjo Cassiel e a mortal Marion.







Em Nome do Pai (1993)
Aqui não se trata da banda U2, mas sim de uma parceria entre Bono Vox e o amigo Gavin Friday. A canção In The Name of the Father leva o nome do filme que deu o primeiro Oscar ao ator Daniel Day-Lewis. Ele interpreta um delinquente preso injustamente, acusado de um atentado à bomba. Para piorar, o pai do sujeito vai parar na mesma prisão, acusado de envolvimento no crime.







Batman Eternamente (1995)
Hold Me, Thrill Me, Kiss Me, Kill Me foi escrita especialmente para o primeiro filme do Homem-Morcego a ser dirigido por Joel Schumacher. O filme empalidece frente aos trabalhos anteriores de Tim Burton, mas os irlandeses fazem a parte deles muito bem. De qualquer modo, a principal canção do longa talvez continue a ser Kiss From a Rose, de Seal.







Miss Sarajevo (1995)
A música foi lançada por integrantes do U2, junto a Brian Eno, sob o pseudônimo The Passengers. Com bela participação de Luciano Pavarotti, a canção é inspirada em um documentário homônimo sobre a Guerra da Bósnia, registrada in loco pelo diretor Bill Carter. O U2 colaborou com a produção da obra, que retrata o cotidiano das pessoas em meio ao conflito, com destaque para a coragem de mulheres que participaram de um concurso de beleza em meio ao caos. Uma das cenas mais contundentes mostra as candidatas segurando um cartaz com a frase: "Não Deixem Que Nos Matem".







Missão Impossível (1996)

A adaptação da famosa série de TV perdeu muito da dinâmica original. O foco não é na equipe de espiões, mas o personagem vivido por Tom Cruise. Mesmo assim, o filme é um ótimo trabalho de Brian De Palma, que orquestra cenas antológicas como a que ocorre em um trem-bala e a angustiante invasão da CIA. A música-tema do longa ficou a cargo da cozinha do U2. O baixista Adam Clayton e o baterista Larry Mullen Jr. aproveitaram a trilha da série e criaram uma versão que foi sucesso nas rádios.







Cidade dos Anjos (1998)
O filme é uma prova de que os produtores de Hollywood sabem o que estão fazendo quando realizam remakes dispensáveis de obras estrangeiras. O longa, sucesso de público, mas nem tanto de crítica, é uma refilmagem do clássico moderno alemão Asas do Desejo. Em vez do teor existencial, a cópia estrelada por Nicolas Cage e Meg Ryan carrega no romantismo. O U2, que já havia participado da trilha sonora na sequência do original, entra com a música If God Send His Angels, cujo clipe lembra o da canção Stay.







Lara Croft - Tomb Raider (2001)

Reza a lenda que Bono Vox é louco pela personagem principal do game Tomb Raider, a curvilínea arqueóloga Lara Croft. Talvez isso explique por que o grupo entrou nessa canoa furada. O filme é daqueles que não vi e não gostei, mas o trailer de Elevation é divertido, apresentando o guitarrista The Edge como alívio cômico de uma aventura ao lado da bela Angelina Jolie.







Gangues de Nova York (2002)
O filme de Martin Scorsese apresenta a formação de Nova York por um ângulo até então inusitado: a briga de gangues com ares medievais, em disputa por território. O longa rendeu aos irlandeses a primeira indicação ao Oscar, por The Hands That Build America. Perderam para Eminem, que estrelava 8 Mile.







O Hotel de Um Milhão de Dólares (2002)
Mais uma parceria entre os irlandeses e o cineasta alemão Win Wenders, desta vez com participação expressiva na trilha sonora. O roteiro é co-escrito pelo próprio Bono Vox. Ele compôs a canção The Ground Beneath Her Feet em parceria com o polêmico escritor Salman Rushdie, que pode ser visto no clipe.












sexta-feira, 8 de abril de 2011

Um Olhar do Paraíso


Um Olhar do Paraíso (The Lovely Bones, EUA/Reino Unido/Nova Zelândia, 2009). Direção de Peter Jackson. Com Saoirse Ronan, Mark Wahlberg, Rachel Weisz, Stanley Tucci, Susan Sarandon, Michael Imperioli.


Renato Cordeiro

Tudo é demais em Um Olhar No Paraíso. É excessivo. O longa veio na sequência de ótimos filmes de Peter Jackson: King Kong e a trilogia iniciada por O Senhor dos Anéis. Dada a excelente repercussão de trabalhos deste quilate, é evidente que o cineasta merece a expectativa do público, mas desta vez ele perdeu a mão como contador de histórias.

A trama apresenta uma adolescente de 14 anos que é assassinada pelo vizinho, e chegando ao além, passa a observar como os pais, amigos e o próprio homicida tocaram a vida. A premissa inspirada no livro de Fran Walsh é até interessante, mas o trabalho se desenvolve mal, muito por conta da própria protagonista que, depois de morta, pouco importa à trama. Apesar dos belos efeitos especiais, as sequências envolvendo a estada de Susie Salmon no limbo mais parecem um calvário - para o espectador. São
enfadonhas e piegas demais. A voz forçosa que a atriz utiliza para dar uma aura misteriosa às próprias falas não ajuda em nada.

A trama que se passa "no firmamento" se sai melhor. A irmã da vítima e o pai, aos poucos, desconfiam que o vizinho não é flor que se cheire. Há alguma tensão bem construída nas cenas em que os dois resolvem fazer algo a respeito do provável assassino. Pena que a resolução desta trama paralela é resolvida de maneira tão insatisfatória, spoilers à parte. Os minutos finais do filme, aliás, mergulham em um sentimentalismo duro de engolir. O espetáculo de cinema esperado, que é bom, nada.


Nota: 4,0 (de dez)