quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Casa de Cinema dá adeus


Renato Cordeiro

Mais uma locadora - das boas - fecha as portas em Salvador. A Casa de Cinema está se desfazendo do acervo. O estabelecimento funcionava há anos no Rio Vermelho como uma opção para quem buscava filmes clássicos e cults. Apostou na segmentação, mas mesmo assim encerra as atividades. A GPW, na Pituba, e a Stax, na Barra, também não resistiram e saíram do mercado neste ano.

Parece inevitável que este seja o caminho para as locadoras, em tempos de internet e pirataria abundante, associados às TV's por assinatura e agora as locadoras virtuais como Netflix e Netmovies. Particularmente, mesmo com as facilidades de acesso aos filmes pela rede, que conheço bem, continuo locando filmes com certa regularidade, quase como uma espécie de militância de andorinha solitária para que estabelecimentos deste tipo se mantenham em pé. Até por que, convenhamos, não é tão fácil achar clássicos e cults na internet, onde a má qualidade de imagem e problemas de legendas são mais comuns do que o cinéfilo pode aceitar.

Resta saber, então, como reinventar o negócio e, sobretudo, fidelizar o cliente. Caberia à locadora funcionar como cineclube, com anuidade, exibição periódica de filmes, segmentação? Apostar na diversificação de produtos, vendendo livros, revistas, artigos associados ao cinema? Talvez. A arte pela arte já não vale mais para manter o negócio. Não basta ter um grande acervo disponível. Vender a experiência que vem com a partilha do filme, a criação de redes de cinéfilos, uma relação de pertencimento, isso sim, parece ser o pulo do gato.



Para mais informações sobre algumas boas locadoras que ainda restam em Salvador, clique aqui.
Para ler texto de Daniel Fróes sobre o film da GPW, clique aqui.








terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Movies in Lego




Uma reunião de cenas clássicas da sétima arte em versões Lego. As imagens incluem 2001 - Uma Odisséia No Espaço, Beleza Americana, Pulp Fiction e O Exorcista. Para visualizar, clique aqui.










segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Noite de Ano Novo


Noite de Ano Novo (New Year's Eve, EUA, 2011). Direção de Garry Marshall. Com Hilary Swank, Katherine Heigl, Jon Bon Jovi, Michelle Pfeiffer, Zac Efron, Robert De Niro, Halle Berry, Ashton Kutcher, Lea Michele, Jessica Biel, Seth Meyers, Sarah Paulson, Til Schweiger, Sarah Jessica Parker, Abigail Breslin, Josh Duhamel, Ludacris, Hector Elizondo, Sofía Vergara, Carla Gugino, Cary Elwes, Alyssa Milano, Common, James Belushi, Matthew Broderick, Penny Marshall.


Renato Cordeiro

Se você é do tipo que julga o filme pelo que pode ler no pôster, vale a pena refletir um pouco mais sobre o que pode esperar de certas produções, como este longametragem de Garry Marshall. O diretor é o mesmo do divertido Uma Linda Mulher, mas também assinou o criticado Idas e Vindas do Amor, que tem parentesco direto com este Noite de Ano Novo. São comédias românticas que colam diversas tramas paralelas, categoria que tem o inglês Simplesmente Amor entre os poucos exemplares que se salvam. E se o elenco é estrelado, vale perceber que a maior parte dos atores se divide entre astros recentes, como Til Schweiger e Abigail Breslin, e aqueles que, mesmo premiados, comprovam que não estão nos momentos mais brilhantes das carreiras, como Robert De Niro e Halle Berry.

É claro, um filme não é feito de referências. Com todos os componentes supracitados, Noite de Ano Novo poderia ainda ser um grande trabalho, contrariando todas as expectativas. Mas, como vem ocorrendo constantemente na Terra do Tio Sam, falta a esta obra uma boa razão pra existir. A produção aposta em fórmulas e falha miseravelmente em cada uma delas. Para começar, se a escolha do elenco parece apelativa, não é por acaso. Vamos tomar como exemplo o par vivido por Ashton Kutcher, que dava uma pausa na série Two and a Half Man, e Lea Michelle, uma das atrizes-cantoras de Glee. Pelo histórico de personagens já vividos pelos atores, espera-se que Kutcher seja um sujeito excêntrico e Michelle, algo que, por um motivo qualquer, canta. Dito e mal feito. Nem eles nem os colegas de elenco conseguem papéis que acrescentem algo de novo aos respectivos repertórios.

E se em certos filmes que costuram tramas paralelas podemos perceber uma ou duas histórias interessantes, o longa de Marshall não conta com sequer um momento que escape do medíocre, do previsível, do piegas. Talvez uma parte do problema esteja no discurso de renovação e redenção associado à virada do ano, uma premissa que, ao ser levada às últimas consequências pelo roteiro, amarra cada história em um desenvolvimento forçado, capaz até de esfriar duas surpresas que o longa reserva no terço final, envolvendo os destinos de quatro personagens.


Nota: 4,0 (de dez)










domingo, 27 de novembro de 2011

Tropa de Elite 2 - O Trailer Gringo




Um dos melhores filmes brasileiros já realizados, Tropa de Elite 2, que está buscando indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, ganhou um trailer voltado ao mercado estadunidense. Vale reparar a forma específica como é feita essa prévia do longa de José Padilha: são exploradas cenas de ação com cortes rápidos, a música aposta em um clima de urgência e há pouquíssimos diálogos em português, o que certamente ajuda a evitar a antipatia do público norteamericano. Vamos ver se o vídeo ajuda a conquistar corações na Terra do Tio Sam e, por tabela, a estatueta dourada.











sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Ele Não Está Tão a Fim de Você


Ele Não Está Tão a Fim de Você (He's Just Not That Into You, EUA, Alemanha, Holanda, 2009). Direção de Ken Kwapis. Com Ginnifer Goodwin, Justin Long, Bradley Cooper, Jennifer Connelly, Scarlett Johansson, Jennifer Aniston, Ben Affleck, Kevin Connolly, Drew Barrymore, Kris Kristofferson.


Renato Cordeiro

Com tantas celebridades reunidas, é difícil que uma produção passe despercebida, o que não significa que, posteriormente, um filme não possa
, aos poucos, ser relegado a um merecido esquecimento. Há dois problemas básicos que impedem que Ele Não Está Tão a Fim de Você seja algo além de um passatempo medíocre. O primeiro é comum em longas cuja trama costura diferentes linhas narrativas. O outro é um mau hábito típico das comédias românticas.

O filme tem basicamente quatro tramas paralelas protagonizadas por mulheres que oscilam entre a insegurança e o extremo desequilíbrio emocional. A história principal, que justifica o título do longa, é a mais interessante. Interpretada por Ginnifer Goodwin, Gigi é uma romântica incurável que passa a mudar de comportamento quando descobre a brilhante tese de que, se um homem não demonstra interesse por uma garota, é porque, de fato, não está tão interessado nela. A descoberta vem de um solteirão vivido pelo ótimo Justin Long, que conhece todas as artimanhas usadas para se afastar de uma mulher e ajuda Gigi a ler os sinais, rendendo algumas passagens divertidas.

Ele Não Está Tão a Fim de Você
segue a linha de obras como Simplesmente Amor, mas não se dá tão bem ao lidar com todas as tramas paralelas. A história do casal em crise vivido por Jennifer Aniston e Ben Affleck é apenas correta, enquanto aquela protagonizada pela produtora do longa, Drew Barrymore, é quase inexistente. Por fim, o triângulo amoroso dos personagens de Bradley Cooper, Jennifer Connelly e Scarlett Johansson parece funcionar apenas para explorar a beleza e sensualidade desta última.

Por fim, como em boa parte das comédias românticas, também aqui teremos mudanças de postura e epifanias nos minutos finais do longa. Enquanto algumas acontecem de forma até aceitável, existe uma em específico que, particularmente forçada, destroi as características que tornavam um dos personagens tão interessante, pouco oferecendo em troca algo mais do que uma adequação comportamental que revela um certo caretismo.

Nota: 5,0 (de dez)










quinta-feira, 24 de novembro de 2011

6ª Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul


A Sala Walter da Silveira, em Salvador, recebe, de hoje até o dia 30, a 6ª Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul. A programação, que passa pelas 26 capitais estaduais e Brasília, reúne obras da Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela, além do Brasil. A curadoria é de Francisco Cesar Filho.

Mais informações aqui.










quarta-feira, 23 de novembro de 2011

John Ford: Os Primeiros Anos


A sala Alexandre Robatto exibe até sexta-feira, dia 25, alguns dos primeiros longas de um dos mais cultuados diretores da história do cinema, John Ford. A mostra John Ford: Os Primeiros Anos reúne filmes como O Delator, Rio Acima e A Mocidade de Lincoln.

Mais informações aqui.








segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Os Queridinhos da América


Os Queridinhos da América (America's Sweethearts, EUA, 2001). Direção de Joe Roth. Com Julia Roberts, John Cusack, Billy Crystal, Catherine Zeta-Jones, Hank Azaria, Stanley Tucci, Christopher Walken, Alan Arkin, Seth Green, Scot Zeller, Larry King, Steve Pink, Rainn Wilson, Eric Balfour, Marty Belafsky.


Renato Cordeiro

Sacanear Hollywood é fácil e faz bem. O cinemão pode divertir e eventualmente provocar uma reflexão, mas boa parte do tempo o que se vê são filmes caçaníqueis estrelados por atores em encenação full time, fazendo o ofício servir ao discurso publicitário, vendendo o peixe estragado das mais desprezíveis produções em making offs manjados e entrevistas idem. O terreno é fértil para paródias e é o que faz Os Queridinhos da América, que peca por tornar-se aquilo que critica. É uma produção sem graça que se apóia nas estrelas anunciadas no pôster para vender um produto de qualidade inferior.

O trabalho passa longe dos resultados obtidos por Trovão Tropical, recheado de boas piadas sobre a indústria cinematográfica, e Um Lugar Chamado Notting Hill, que apresenta personagens interessantes e bons diálogos. A metalinguagem deste último, também protagonizado por Julia Roberts, teve mais sucesso na cena em que Hugh Grant se passa por repórter e entrevista o elenco de um blockbuster estrelado pela atriz. Nenhuma cena de Os Queridinhos da América, cujo roteiro é coescrito por Billy Crystal, consegue algo parecido, e em vez disso, costura gags e falas pouco inspiradas protagonizadas por personagens que oscilam entre a caricatura e a pieguice.

O astro vivido por John Cusack é um dos que mais padecem, sendo resumidamente um idiota neurótico e mal amado depois que a esposa, a estrela interpretada por Catherine Zeta-Jones, resolve trocá-lo por um amante latino. A atriz é retratada como uma típica mulher fútil afeita à vida de celebridade, ainda que, insegura, infernize a vida da irmã e assessora pessoal, vivida por Julia Roberts, secretamente apaixonada pelo agora ex-cunhado. Crystal completa o elenco como o produtor que vai usar de todos os meios para promover o novo blockbuster do casal, mesmo depois de ter se separado. Crystal vive um dos piores momentos do longametragem, em uma insólita cena na qual contracena com um cão.

Mantenha distância d'Os Queridinhos da América. Mesmo quem é fã de comédias românticas tem coisa melhor pra fazer do que buscar diversão neste filme esquemático do inexpressivo Joe Roth. O humor é infantil e o romance, batido. É uma pena, considerando o elenco estrelado e o plot que é até interessante.

Nota: 4,0 (de dez)











domingo, 20 de novembro de 2011

O Capítulo Proibido de Amanhecer


Tempos atrás, o livro Amanhecer frustrou os fãs que aguardavam ansiosamente pela tão esperada noite de amor entre Bella e Edward, casal protagonista da série Crepúsculo. Não demorou para ganhar fama na internet um suposto capítulo extra que teria sido censurado pela própria autora, Stephenie Meyer. O texto intercala e revela as sensações do vampiro e sua protegida humana, fornecendo detalhes da intimidade do par. Anos depois, muitos ainda reclamam para si a autoria do texto.

Na verdade, tudo não passou de um devaneio em forma de fan-fic concebido por uma perturbada mente baiana, Bete Bee. Ela diz que escreveu o texto só para amenizar o desgosto em não ver a noite de amor de Bella e Edward devidamente trabalhada pelo livro, mas fontes fidedignas apontam que Bee é mesmo uma crepusculete.

Com a estréia de Amanhecer - Parte 1, parece apropriado comparar o que o filme traz e o que você pode ler aqui.








sábado, 19 de novembro de 2011

Norris Vs Seagal




Essa é para os marmanjos que adoram filmes de ação. O Mundo Canibal, o mesmo dos infames Avaiana de Pau e Le Partoba, resolveu atender ao sonho dos amantes da pancadaria e antecipou como seria uma luta envolvendo dois ícones do gênero: Steven Seagal e Chuck Norris.

Dica de Galdir Reges.










sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Super Produção Sem Verba


Bem na linha da brincadeira que imagina títulos baianos para produções hollywoodianas, o Pablo Villaça, do Diário de Bordo, resolveu propor um exercício imaginativo aos cinéfilos: como seria se as restrições orçamentárias fossem evidenciadas logo no nome da produção? Foi assim que surgiram longas como Se Meu Fusca Funcionasse e Arthur, o Proletário Pegador. E o resto você confere aqui.

Dica de Bete Bee.











quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Braveheart Soundtrack



Renato Cordeiro

Sem dúvida a bela trilha de James Horner, indicada para o Oscar em 1995, é um dos trunfos de Coração Valente, épico dirigido por Mel Gibson. À época do lançamento nos cinemas, cartazes do longametragem de quase três horas apresentados nos jornais de Salvador traziam uma legenda com uma frase mais ou menos assim: Os Homens Vão Adorar. As Mulheres Vão Suspirar. Os dizeres, ainda que ingênuos, sinalizam o feito conseguido pelo trabalho que traz uma versão romanceada da vida do líder escocês William Wallace, lendário ícone da resistência contra a dominação inglesa.

O filme consegue agradar a uma grande variedade de públicos, dosando aventura, violência, romance e drama. E se é verdade que a trama faz isso abrindo mão da fidelidade histórica, o score de Horner também não é tão próprio da cultura escocesa. A gaita de fole, por exemplo, instrumento chave na maior parte das músicas, é ouvida, nas verdade, atráves de um modelo irlandês. Não que isso tenha tornado as trilhas menos bonitas.

Horner preparou basicamente quatro motivos principais para as dezoito faixas do CD. Um deles, que responde pelo tema principal, dá conta da dimensão lendária do rebelde, com uma poderosa gaita de fole que se une aos violinos. O motivo será retomado nos momentos de maior triunfo ou expectativa em torno das grandes batalhas que serão lideradas por Wallace, a exemplo de Making Plans Gathering The Clans. O mesmo motivo ainda é incorporado à bela Sons of Scotland, que marca a chegada do personagem e seus comandados na Batalha de Stirling. A música investe em sopros discretos para acompanhar o discurso motivacional de William Wallace aos escoceses, um daqueles momentos em que os marmanjos na sala de cinema se sentem tomados de um desejo incontrolável de também resolver os problemas à base das machadadas.

No plano das músicas mais ternas, aparece logo aos primeiros minutos do filme Gift Of a Thistle, mais um tema que tem em primeiro plano uma gaita de fole. A música pode ser ouvida nos primeiros minutos do épico, quando Wallace, ainda menino, durante o funeral do pai, recebe uma flor da garota que, anos mais tarde, será sua esposa. O trecho volta a aparecer em várias passagens dedicadas à personagem Murron, incluindo uma versão em flauta no tema The Secret Wedding, que também desenvolve outro motivo usando o mesmo intrumento.

Os temas de Coração Valente são interpretados pela London Symphony Orchestra. Abaixo, uma das melhores cenas, o discurso motivacional bem à moda do Tio Sam.










quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Mandando Bala


Mandando Bala (Shoot 'Em Up, EUA, 2007). Direção de Michael Davis. COm Clive Owen, Monica Bellucci, Greg Bryk, Paul Giamatti, Chris Jericho, Stephen McHattie, Jane McLean, Daniel Pilon, Ramona Pringle.


Renato Cordeiro

"Cuiuda", no baianês, é um termo usado para criticar uma cena que manda pro espaço alguma regrinha científica. Alguns exemplos são a extensa produção de uma vacina a partir do sangue de um único macaco em Epidemia e os ruídos em pleno vácuo que escutamos em Guerra nas Estrelas. Mas apontar uma cuiuda em um filme, às vezes, é fazer uma cobrança indevida. A cuiuda pode ser parte do espetáculo. É o caso de Mandando Bala, um filme da ação que usa o exagero para fazer chacota de si mesmo.

A história é muito simples: um tal Sr. Smith (Clive Owen) salva um bebê recém-nascido e passa a fugir com ela de assassinos contratados por um homem (Paul Giamatti) disposto a tudo para matá-los. Para ajudar a cuidar da criança, seu mau-humorado benfeitor contará com a ajuda de uma prostituta lactante (Monica Belucci). Tudo o mais que há no roteiro é um monte de desculpas para cenas surreais vividas por personagens caricatos, mas muito funcionais. Giamatti está ótimo como vilão histérico e Owen faz aquele mesmo anti-herói indiferente que o consagrou, anós atrás, com a série de curtas-metragens da BMW.


Mas é na criatividade das cenas de ação que reside o grande mérito de Mandando Bala, que vai além da paródia, sendo também uma obra propositiva, orquestrando seqüências inusitadas, tensas e irreverentes. Torna-se um contraponto para os filmes que procuram se vender meramente pelo número de tiroteios e explosões - e que teve como último exemplar o sofrível Duro de Matar 4.0.

Nota: 7,0 (de dez)

(escrita em 10 de novembro de 2007)










terça-feira, 15 de novembro de 2011

O Palhaço


O Palhaço (Brasil, 2011). Direção de Selton Mello. Com Selton Mello, Paulo José, Giselle Indrid, Larissa Manoela, Teuda Bara, Erom Cordeiro, Cadu Fávero, Maíra Chasseraux, Thogun, Hossen Minussi, Alamo Facó, Tony Tonelada, Bruna Chiaradia, Renato Macedo, Moacyr Franco, Jackson Antunes, Danton Mello.


Renato Cordeiro

Filmes como O Palhaço levam o espectador a sentir gratidão pelos Irmãos Lumière, fazem a invenção do cinema valer a pena. A obra é mais que uma homenagem ao universo do circo em forma de road movie, tratando ainda de assuntos como tradição, família e autoconhecimento. É um trabalho que põe de lado preocupações sobre a prevalência da fábula sobre o específico fílmico, já que a história, ainda que simples, é tão envolvente quanto à própria maneira como é contada pela câmera. É pra sair da sessão emocionado, mesmo.

Benjamim, vivido por Mello, e o pai, Valdemar, interpretado por Paulo José, fazem a dupla Pangaré e Puro Sangue, atrações de uma trupe mambembe que atravessa cidadezinhas rurais. O filho se encontra cansado e insatisfeito em administrar o negócio, tarefa delegada pelo pai, e está ansioso para mudar a vida, sem saber como.
Em um dos momentos mais tocantes, ele desabafa com uma desconhecida a quem pergunta: eu faço as pessoas rirem, mas quem vai me fazer rir? Assim mesmo, simples, direta, dilacerante, a expressão do desespero.

Enquanto Benjamim procura a si mesmo, Valdemar busca uma forma de lidar com a insatisfação do herdeiro, e a jornada de ambos é marcada por interessantes personagens terciários. O palhaço de Paulo José cativa pela dificuldade em se comunicar com o filho, a quem ama, mas não consegue dirigir palavras de conforto ou sabedoria, encontrando-as no melancólico personagem de Jackson Antunes. Já a estrada de Benjamim leva seu próprio intérprete, Selton, a contracenar com Danton Mello, irmão do cineasta. Entre outras pequenas participações, destaque para o cantor e apresentador Moacyr Franco, que, impagável como o Delegado Justo, foi a surpresa do Festival de Paulínia, faturando o prêmio de ator coadjuvante.

A direção de Selton Mello convida à introspecção e encantamento. Ele mostra o elenco, incluindo ele próprio, de corpo inteiro, em exposição máxima. Mas, sobretudo, Mello filma silêncios. São várias as passagens em que deixa os atores expressarem os sentimentos sem uso de palavras, permitindo que a boa trilha sonora tenha ainda mais impacto. Duas cenas de despedida, uma protagonizada por Paulo José, outra pelo próprio diretor, de lenço na mão, são particularmente expressivas neste sentido. Na verdade, a verborragia, por assim dizer, só acontece nas cenas em que os protagonistas palhaços estão em cena, com um humor mais verbal do que pastelão.

A busca de Pangaré por Benjamim é carregada de simbologias, algumas mais explícitas, outras menos, mas todas funcionam bem dentro da história, coescrita por Mello e Marcelo Vindicato. Exemplos incluem a falta de uma carteira de identidade e o estranho fascínio que o personagem nutre por ventiladores. O modo como o objeto é apresentado quando o longa se aproxima do fim, incluindo uma bela cena em um caminhão, é carregado de ternura e realça o ponto de virada do protagonista. A própria cena inicial exprime bem o que O Palhaço faz com o próprio público. Arranca-nos da monotonia e dureza do cotidiano, gera intriga e encanto, para depois nos devolver ao estado em que estávamos, como se a arte pudesse nos fazer durar mais um pouco.

Nota: 8,0 (de dez)










segunda-feira, 14 de novembro de 2011

O Orfanato


O Orfanato
(El Orfanato, México/Espanha, 2007). Direção de Juan Antonio Bayona. Com Belén Rueda, Fernando Cayo, Roger Príncep, Mabel Rivera, Montserrat Carulla, Andrés Gertrúdix, Edgar Vivar, Geraldine Chaplin.


Renato Cordeiro

O drama cai bem ao horror. Em filmes que valorizam essa associação, o deleite do espectador não está nos sustos, nas vísceras e litros de sangue espalhados pelo chão, nem em uma alta contagem de corpos acumulados ao longo da narrativa. Em vez disso, temos personagens verossímeis, que tem amor, compaixão, medo, culpa, sentimentos capazes de gerar identificação com o público, fazê-lo se importar com o destino do protagonista.
O Orfanato é um dos mais felizes exemplos neste sentido. O filme assusta, e muito, é verdade. Mas no final pode arrancar algumas lágrimas do espectador, a exemplo do que aconteceu a este cinéfilo.

O acerto começa pelo elenco, incluindo a escolha de Belén Rueda, vista anteriormente em Mar Adentro, com Javier Bardem. A beleza madura da atriz espanhola confere doçura e pulso à personagem Laura, mãe adotiva do pequeno Simón, vivido pelo ator-mirim
Roger Príncep, um achado escolhido entre 400 candidatos ao papel. Junto a Fernando Cayo, que faz o marido de Laura, eles interpretam uma família que acaba de se mudar para um antigo orfanato onde viveu a protagonista. O Orfanato logo engrena para um típico filme de casa malassombrada, a exemplo de Os Outros, lembrando ainda, inevitavelmente, O Sexto Sentido e Ecos do Além. Simón começa a falar com o que Laura imagina ser um amigo imaginário, mas eventos estranhos vão se sucedendo, indicando que os fantasmas do passado, literalmente, estão à porta.

À exceção da câmera desnecessariamente nervosa
em certo momento da obra, quando Rueda corre na praia, Bayona se sai muito bem. Apostando na força do elenco para causar tensão, ele segue a linha do que se vê em longas como O Bebê de Rosemary, ou melhor, a linha do que não se vê. No momento mais assustador do longa de Polanski, a tela não mostra o motivo do horror da personagem de Mia Farrow, mas sim o efeito, o rosto da atriz, deixando por conta da imaginação do espectador o horror que ela presencia. Do mesmo modo, em uma das melhores cenas de O Orfanato, uma médium investiga os estranhos acontecimentos na casa de Laura e, mesmo com ótimos elementos cênicos que ajudam a intimidar o público, o que mais apavora é a face desfocada da atriz Geraldine Chaplin. Aliás, Geraldine, filha de Charles Chaplin, já entra em cena com toda a reverência, sendo melhor aproveitada nos poucos minutos de participação do que foi Zelda Rubinstein como a vidente dos três filmes de Poltergeist. E olha que a Tangina Barrons era ótima. Destaque ainda para a participação de Edgar Vivar, que ficou famoso no Brasil pelo personagem Seu Barriga no programa televisivo Chaves.

Também vale mencionar a excelente trilha sonora de Fernando Velázquez, bensucedida tanto nas cenas de maior tensão, quanto naquelas que prometem arrancar lágrimas do público. Segundo o IMDB, O Orfanato, produzido por Guillermo Del Toro, o mesmo de O Labirinto do Fauno, foi aplaudido de pé por dez minutos quando da exibição em Cannes. Quem quiser descobrir o motivo, que assista.

Nota: 8,0 (de dez)









domingo, 13 de novembro de 2011

7º Festival Internacional de Cinema de Salvador


Vai até o dia 24 a sétima edição do Festival Internacional de Cinema de Salvador, que homenageia o crítico e criador da Mostra Internacional de Cinema Leon Cakoff, falecido em 14 de outubro deste ano. São 30 trabalhos divididos nas categorias Cine Doc, Mostra Brasil, Mostra Mundo, Sessão Coruja e Mostra Wajda - Cinema Polonês, esta última reunindo 10 filmes do diretor europeu. O evento acontece nas Saladearte Cinema da UFBA (Vale do Canela), Cinema do Museu (Corredor da Vitória) e Cine XIV (Pelourinho).

Mais informações aqui.










sábado, 12 de novembro de 2011

Arthur Recreates Scenes from Classic Movies


Um garotinho de seis meses se tornou sensação na internet por causa de ensaios com referências cinematográficas. A idéia partiu da mãe de Arthur Hammond, a escritora Emily Cleaver, que fez até um blog onde publica os ensaios, Arthur Recreates Scenes from Classic Movies. As imagens são dedicadas a longas como Rambo - Programado Para Matar, Alien, Beleza Americana e Um Sonho de Liberdade.

Dica de Alana Câmara.









quinta-feira, 10 de novembro de 2011

A Primavera do Dragão - A Juventude de Glauber Rocha

Renato Cordeiro

Se a len
da é melhor do que o fato, imprima-se a lenda. A citação do filme O Homem Que Matou o Facínora, de John Ford, está na ponta da língua de Nelson Motta, sempre que perguntam a ele se há espaço para a ficção em uma obra biográfica. A questão ganhou espaço na agenda do escritor depois da polêmica, ou como ele classificou, polemiquinha, envolvendo o livro A Primavera do Dragão - A Juventude de Glauber Rocha. Amigos do cineasta baiano reclamaram de passagens do texto que tratam de fatos que, supostamente, nunca ocorreram. Os trechos controversos são, justamente, os mais divertidos da obra que faz um recorte dos primeiros 25 anos da vida de Glauber Rocha, desde a infância em Vitória da Conquista até a consagração de Deus e o Diabo Na Terra do Sol no Festival de Cannes.

O livro aposta no tom anedótico para mostrar uma história de formação, com destaque para os laços de camaradagem que o diretor estabeleceu em juventude, incluindo figuras como o escritor João Ubaldo Ribeiro e o artista plástico Calazans Neto. Os dois, a propósito, são apontados por Nelson Motta como fontes de informação sobre os devaneios revolucionários do jovem Glauber e seus amigos. Um exemplo é a tentativa de pintar uma frase de protesto no casco de uma embarcação na Baía de Todos os Santos, no qual havia uma exposição itinerante de propaganda da Espanha franquista, que o grupo identificava como uma afrontosa representação de uma ditadura fascista e sanguinária. Outra ação malfadada foi a chamada Conspiração das Maçãs, um plano de atentado contra o então governador Juracy Magalhães.

Ao longo de mais de trezentas páginas, o texto transporta o leitor para uma Salvador habitada por uma jovem boemia culta, frequentadora de espaços que marcaram a vida cultural da cidade, a exemplo da casa de shows Tabaris, o Cine Liceu comandado pelo cineclubista Walter da Silveira e a Universidade Federal da Bahia, quando tinha como reitor o visionário Edgar Santos.

A despeito da veracidade ou não das malfadadas iniciativas revolucionárias, o livro possui falhas que foram reconhecidas pelo autor, a exemplo de uma confusão nos nomes de algumas pessoas. Alfinetando os críticos, Motta minimizou o problema e disse que os erros são poucos e se referem ao oitavo escalão dos personagens que conviveram com o biografado, que não fazem diferença para a compreensão do que levou Glauber Rocha a ser Glauber Rocha. E polêmicas à parte, se é que isto é possível, o livro diverte e tem êxito em cumprir a proposta do escritor, que não quis fazer uma biografia definitiva, mas contar um lado menos conhecido e mais solar da vida de Glauber.

O biografado, claro, facilitou a vida do escritor, protagonizando situações que, talvez não por acaso, dariam um filme. Até pelo modo romanceado como é contada a vida do conquistense, é possível visualizar cenas da Salvador de antigamente, as dificuldades para dirigir Barravento e Deus e o Diabo Na Terra do Sol, a disputa em Cannes com o filme do mestre Nelson Pereira dos Santos, Vidas Secas. Motta, à época da Décima Bienal do Livro da Bahia, chegou a dizer que recebeu contatos de diretores interessados em rodar um longa baseado na obra, mas não deu nome aos supostos bois.

Também merece destaque o projeto gráfico assinado por Luiz Stein, que já havia cuidado do design da biografia anterior de Nelson Motta, Vale Tudo, dedicada a Tim Maia. Aqui, o artista de tom marcadamente pop mergulha em tons de vermelho nas imagens apresentadas no livro e até mesmo em algumas páginas que não possuem qualquer foto. A escolha, aliada às fontes grandes e a escrita leve de Motta, evidenciam a busca por um trabalho de fácil leitura, desvendando aspectos pouco explorados de uma dos maiores expoentes do cinema novo.










quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Gigantes de Aço


Gigantes de Aço (Real Steel, EUA, 2011). Direção de Shawn Levy. Hugh Jackman, Dakota Goyo, Evangeline Lilly, Anthony Mackie, Kevin Durand, Hope Davis, James Rebhorn, Marco Ruggeri, Karl Yune, Olga Fonda.


Renato Cordeiro

Um pouquinho de ambição faria bem a Gigantes de Aço. O longa é uma daquelas fábulas com mensagem edificante que se esquece depois de algum tempo, para anos depois suscitar uma nostalgia inofensiva quando volta a ser assistida. É até um trabalho divertido e poderia ser um pouco mais do que isso, mas o roteiro preguiçoso não ajuda.

O longametragem é baseado em uma história de Richard Matheson, o mesmo de Eu Sou a Lenda. O trabalho se encaixa bem na linha do que os cinéfilos balzaquianos dos anos 2010 se acostumaram a classificar como Sessão da Tarde, lembrando bastante um clássico da atração televisiva, Falcão, O Campeão dos Campeões, estrelado por Sylvester Stallone. O esquema é o mesmo: depois da morte da mãe, pai e filho que não se conhecem direito vão trocando experiências e se afeiçoando durante viagens de caminhão e o garoto acaba se envolvendo com uma competição a ser encarada pelo adulto. Em vez de uma disputa de quedadebraço, apresentada no filme de 1987, aqui temos o Real Steel, uma espécie de boxe entre robôs.

Desesperado por dinheiro, Charlie Kenton vende a guarda do filho que mal conhece para a tia do menino, que por causa de uma viagem, terá de deixar Max sob guarda do looser por um mês. É claro que é o tempo que eles precisam para acertar as contas e, gradativamente, desenvolver uma relação afetiva que cresce na medida em que fazem sucesso com um antigo robô de sparring que, adaptado para os confrontos, mostra-se uma boa aposta para o desenganado ex-lutador, vivido com o carisma habitual do ator
Hugh Jackman. Dakota Goyo se sai bem como o filho do protagonista, passando longe da performance desastrosa de alguns atores-mirins que só conseguem despertar antipatia do espectador.

Gigantes de Aço é auxiliado por uma direção competente de Shawn Levy, que consegue fazer com que as lutas entre robôs sejam fáceis de acompanhar, evitando um dos principais problemas de Transformers, no qual mal dava para diferenciar quem batia e quem apanhava. Além disso, o músico Danny Elfman entrega uma trilha sonora eficiente, com temas bem diferentes das partituras góticas e corais que se tornaram a zona de conforto do artista responsável por scores de Batman, de Tim Burton, e Homem-Aranha, de Sam Raimi. Elfman carrega em motivos bem próximos dos que são consagrados no mundo do boxe, com destaque para os metais.

A trama é bem forçosa ao empurrar o garoto para o convívio do pai, e posteriormente, mostra-se pouco convincente ao mostrar a relutância do pai em treinar o robô, como pede o filho. Subitamente, depois de se recusar a fazê-lo, Charlie volta atrás na decisão só por que, aparentemente, se interessou em pôr Max em uma situação constrangedora. Outra falha da trama é fazer com que Clenton, até então um perdedor, comece a se mostrar um sujeito esperto e malicioso quando da companhia do filho, quase como se estivesse se revezando entre os papéis de prudente e inconsequente.

Nota: 6,0 (de dez)










terça-feira, 8 de novembro de 2011

O Que Diz o Poster Sobre o Filme


Interessante reunião de cartazes de filmes que, divididos em 13 tipos diferentes, sinalizam o perfil do longametragem anunciado. Acima, a categoria Pequenas Pessoas na Praia, Gigantescas Cabeças na Nuvens, relacionada a dramas lacrimejantes como Além da Vida, Ondas do Destino, Íntimo e Pessoal, Cidade dos Anjos e Eternamente Jovem. Mais detalhes aqui.

Dica de Saymon Nascimento, do Esperando Gordard.









segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Um Cara Quase Perfeito


Um Cara Quase Perfeito (Man About Town, EUA, 2006). Direção de Mike Binder. Com Ben Affleck, Rebecca Romijn, Bai Ling, Gina Gershon, Samuel Ball, Mike Binder, Adam Goldberg, John Cleese, Erica Cerra, Howard Hesseman, Jerry O'Connell, Kal Penn, Amber Valletta, Damien Dante Wayans, Laura Soltis.


Renato Cordeiro

Não há muito o que dizer de Um Cara Quase Perfeito, já que o próprio filme não diz muito a que veio. Como estudo de um personagem, o longa se encaixa na linha de comédias dramáticas sobre a busca por autoconhecimento, com o esquema básico: uma série de situações deverá resultar em uma tomada de decisão do protagonista, que põe à prova o que a jornada lhe ensinou. Quando tudo mais falha em uma produção como esta, espera-se que pelo menos o trabalho crie uma epifania convincente, o que, sem querer entrar em spoilers, não acontece.

O filme já começa apresentando o elemento deflagrador.
Um bensucedido agente de atores, Jack Giamoro, em um curso de escrita de diários, ministrado por um excêntrico John Cleese. Descobrimos que o personagem de Ben Affleck resolveu assistir às aulas por estar em crise. O casamento está em desgaste e, no trabalho para o qual dedicou a vida, enfrenta dificuldades em fechar novos e importantes contratos em Hollywood. Os problemas nos planos pessoal e profissional passam a afetar um ao outro e, como se não bastasse, um desafeto que Giamoro sequer conhece faz planos para acabar com a carreira do agente.

Um dos recursos mais utilizados para que roteiros hollywodianos funcionem é a criação de identidade entre protagonista e público, quase como se o primeiro pudesse ser um avatar do segundo, que submetido às experiências do personagem, reage à narrativa através de pura empatia. É notório que a construção de Jack Giamoro segue esse princípio. Ao escrever o diário, leva o espectador a mergulhar nos sentimentos do executivo, que sofre
traições e decepções, males de fácil apelo. Tem um pai doente a quem se dedica, mostrando que não é mau caráter, ou pelo menos, não tanto. Ainda assim, o roteiro peca por não convencer o espectador da veracidade e grandeza da transformação do sujeito, cuja grande descoberta final é de uma pieguice medonha.

A embalagem disfarça o conteúdo através da direção maneirística, que utiliza efeitos como divisão de tela e fast motion sem qualquer motivo aparente. Binder, que também assina o roteiro, costura diversas ações paralelas no clímax do filme, com direito a uma cena que remete a Instinto Selvagem, contando até com a trilha original de Jerry Goldsmith. A soundtrack de Um Cara Quase Perfeito, falando nisso, é curiosa, incluindo uma versão de Cucurrucucu Paloma por Fredo Viola, que executa alguns bons temas do longa.

Nota: 5,0 (de dez)










quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Charles Bronson, o Homem da Harmônica



Renato Cordeiro


Se vivo estivesse, Charles Dennis Buchinsky, ou Charles Bronson, completaria hoje 90 anos. O ator se tornou mais conhecido em meados dos anos 70, por filmes policiais que vieram na esteira do sucesso Desejo de Matar. Os longas de qualidade duvidosa consolidaram a imagem de justiceiro de meia idade, capaz de atirar com o cotovelo pouco acima da linha da cintura, sendo a mira, inexplicavelmente, perfeita.

Apesar dos maus exemplares da filmografia, Bronson também participou de obras interessantes, a exemplo de westerns como Sete Homens e Um Destino, longas de guerra como Os Doze Condenados e dramas como Esta Mulher é Proibida. Mas sempre me lembrarei dele pelo que considero seu papel mais importante, o pistoleiro misterioso do monumental Era Uma Vez No Oeste, meu filme favorito, dirigido por Sergio Leone. Guardo na memória as palavras de Saymon Nascimento sobre um duelo brilhantemente orquestrado em dado ponto do filme, a música da Morricone embalando a cena, enquanto vemos Bronson com a vida marcada na cara.









terça-feira, 1 de novembro de 2011

XIV Festival 5 Minutos

Link

Começa hoje e vai até sábado a edição 2011 do Festival 5 Minutos. São 50 vídeos selecionados, 18 deles da Bahia, todos concorrendo a prêmios que variam entre R$ 6.000 e 10.000.

Mais informações aqui.










segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Contágio


Contágio (Contagion, EUA/Emirados Árabes, 2011). Direção de Steven Soderbergh. Com Matt Damon, Laurence Fishburne, Marion Cotillard, Jude Law, Kate Winslet, Gwyneth Paltrow, Elliott Gould, Jennifer Ehle, Larry Clarke, Chin Han, John Hawkes, Anna Jacoby-Heron, Demetri Martin.


Renato Cordeiro

Dois anos antes da estréia de Contágio, em 2009, o H1N1 mostrou o quão despreparado o mundo estava para lidar com uma doença potencialmente pandêmica. Mesmo com o alerta da Organização Mundial de Saúde e a implantação dos protocolos de segurança adotados internacionalmente, esse tipo de gripe, poucos meses após ser identificado, matou milhares de pessoas ao se espalhar por mais de duzentos países, incluindo o Brasil. Felizmente, o vírus causou bem menos estragos do que se previa, o que fez a OMS ser acusada de pecar pelo excesso de cuidado. Este filme de Steven Soderbergh oferece uma visão do que poderia ocorrer se a entidade não apenas estivesse certa, mas o quadro fosse ainda muito, muito pior.

Contágio, provavelmente, é o melhor trabalho na linha de filmes que inclui O Enigma de Andrômeda, baseado em livro de Michael Crichton, e Epidemia, do diretor Wolfgang Petersen. Do primeiro, temos a cerebração e didatismo de uma legítima ficçãocientífica. Do segundo, a produção lembra, ainda que preserve maior seriedade, o subgênero do
filmecatástrofe, abordando as implicações da tragédia sobre a sociedade, tomada por um medo que a faz regredir ao estado mais primitivo e brutal.

O elenco estrelado tem características peculiares, a começar pelo fato de que são reaproveitados poucos nomes do Clubinho do Soderbergh. Matt Damon, Elliott Gould e Larry Clark estão entre os que já deram as caras em outros trabalhos do diretor, enquanto Laurence Fishburne, Kate Winslet, Marion Coitllard e Gwyneth Palthrow são comandados pelo cineasta pela primeira vez. Além disso, a natureza da história, que se passa em diversos locais, faz com que cada um dos atores esteja envolvido com um arco próprio dentro da trama, de modo que nenhum deles contracena com mais de dois dos outros atores de mais evidência. Damon, como o marido da primeira vítima, seria o mais próximo do que entendemos como um protagonista e tem cenas com Palthrow e Winslet, e só.

O roteiro de Scott Z. Burns é habilidoso em cuidar dos vários desdobramentos da transmissão da doença, dedicando boa parte do tempo a acompanhar a difícil tarefa das autoridades de saúde. Não por acaso, Fishburne, como o Dr. Ellis Cheever, interpreta o personagem mais interessante, um figurão do Centro de Controle de Doenças que precisa motivar e liderar os colegas contra uma ameaça que causa medo neles mesmos, sendo tomado por dúvidas e remorsos frente a decisões difíceis. Na outra ponta, está Jude Law, como um vaidoso jornalista blogueiro que acredita firmemente na idéia de que o governo sonega informações importantes à população. Ele empreende ações que aumentarão uma histeria capaz de ser tão devastadora quanto o próprio vírus.

Soderbergh imprime bom ritmo a uma obra que já é bem econômica, contando com pouco mais de uma hora e quarenta minutos. A câmera é discreta, sem muitos floreios, investindo em closes que denunciam os objetos pelos quais o vírus é trasmitido. Canecas, fichas de jogos de azar, interruptores e alimentos são enquadrados em uma sequência que, logo no início da obra, dá a dimensão do problema a ser encarado.
Usando várias narrações em off dos próprios personagens, o trabalho ganha um tom de urgência e agilidade favorecido pela trilha eficiente de Cliff Martinez, marcada por uma tensão contida, mesmo quando a obra assume contornos apocalípticos. Falando na música, há uma tocante cena final embalada por uma das melhores canções do U2, revelando o que existe de mais bonito na dimensão humana de uma tragédia.

Nota:
8,0 (de dez)










domingo, 30 de outubro de 2011

Miudins do Caio


Para quem curte decorar o próprio quarto com peças ligadas à sétima arte ou gostaria de apostar em um presente bem diferente para um cinéfilo, pode ser uma boa visitar o blog do artista Caio Muniz, que ficou famoso por fazer miniaturas sob encomenda, os Miudins. As peças criadas por ele podem ser dos mais variados temas, podendo inclusive reproduzir as feições da pessoa a ser presenteada. Mas, amante do cinema que é, Caio também dedicou algumas obras a personagens conhecidos das telonas. Algumas miniaturas estão à venda na loja Cinema e Coisa e Tal, do Cine Unibanco Glauber Rocha, mas também dá pra encomendar diretamente com Caio.

Mais informações aqui.










sábado, 29 de outubro de 2011

Martin Scorsese's Favorite Films




Martin Scorsese não apenas é um dos cineastas mais relevantes do cinema, mas é também um profundo conhecedor da história de Hollywood e voraz apreciador da sétima arte. Neste especial de 1993, ele fala sobre seus filmes preferidos, uma lista que incluiu Cidadão Kane, Duelo ao Sol, Rastros de Ódio, e Vidas Amargas.

Dica de Saymon Nascimento, do Esperando Godard.










sexta-feira, 28 de outubro de 2011

2º Festival de Cinema Universitário da Bahia


Estão prorrogadas, até 14 de novembro, as inscrições para o 2º Festival de Cinema Universitário da Bahia. A organização aponta que o motivo foi a greve dos Correios, sendo que a oportunidade vale para estudantes de qualquer universidade do país, que podem disputar com curtas de até 20 minutos. Vão ser distribuídos 14 mil reais em prêmios e os realizadores terão despesas com hospedagem e passagens pagas para vir a Salvador, onde o evento acontece, entre os dias 15 e 18 de março de 2012.

Mais informações aqui.










quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Tiras em Apuros


Tiras em Apuros (Cop Out, EUA, 2010). Direção de Kevin Smith. Com Bruce Willis, Tracy Morgan, Kevin Pollak, Adam Brody, Guillermo Díaz, Juan Carlos Hernández, Ana de la Reguera, Sean William Scott.


Renato Cordeiro

A paródia não compensa. Um filme, para ser bom, precisa de mais do que isso, tem de funcionar a despeito das referências, das homenagens, do saudosismo. É claro que elementos como estes podem favorecer a apreciação, mas operam como igredientes que não determinam o sabor do prato. Tiras em Apuros sofre desse mal, esse não-cinema, sendo um dos piores exemplares das filmografias do ator Bruce Willis e do diretor Kevin Smith.

Curiosamente, o roteiro de Robb Cullen e Mark Cullen foi retirado da chamada Black List, que reúne os melhores roteiros não realizados em Hollywood. É a história de dois policiais, parceiros de longa data, que buscam uma antiga e valiosa figurinha de baseball, batendo de frente, no processo, com um grupo de criminosos. Há muito espaço para situações nonsense e talvez, se a filmagem seguisse o que estava no papel mais à risca, o trabalho teria sucesso. Mas não demora para se perceber que grande parte dos problemas de Tiras em Apuros está nas improvisações cômicas amarradas ao longo da história. O cineasta Kevin Smith apostou na espontaneidade do elenco, especialmente na de Tracy Morgan e Sean William Scott, para tentar extrair humor, obtendo resultados, no mínimo, irregulares.

Morgan, como o parceiro falastrão de Bruce Willis, busca fazer graça basicamente com sexo, grosseria e escatologia, que poderiam até funcionar, mas com ele descambam em um humor adolescente, senão infantil, mesmo. É um alívio cômico em um filme que não precisa disso, ou pelo menos não precisa em tão altas doses, já que se trata de uma comédia de ação, na qual as próprias situações já tendem a render parte das risadas. Assim, Morgan, um sujeito de rosto expressivo e naturalmente engraçado, se torna um elemento exagerado, acentuadamente maneirístico. Scott se sai melhor, por ter falas menos irritantes e possuir um talento mais lapidado, ainda que não seja, nem de longe, brilhante.

As tramas paralelas não empolgam nem tornam os personagens centrais mais interessantes. As cenas de ação, que já não eram especialidade de Kevin Smith, variam entre as enfadonhas e as corretas, com direito a uma tediosa perseguição de carros em um cemitério. Na verdade, os clichês remeteriam aos anos 80, década cujas comédias policiais o cineasta pretende reverenciar, mas as
manjadas situações apresentadas ao longo da trama poderiam ser associadas mesmo a alguns filmes contemporâneos, desses que fazem algum burburinho quando lançados para depois cair em merecido esquecimento.

Nota: 4,0 (de dez)










quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Meu País


Meu País (Brasil, 2010). Direção de André Ristum. Com Rodrigo Santoro, Cauã Reymond, Débora Falabella, Anita Capriol, Paulo José, Eduardo Semerjian, Nicola Siri, Luciano Chirolli, Stephanie de Jongh.

Renato Cordeiro

As rugas vêm fazendo bem a Rodrigo Santoro. Ele, que já era um bom ator, tem em Meu País absoluto controle sobre o papel de Marcos. Rosto cansado, tenso, gestos duros, a boca levemente em arco sinalizando uma seriedade perene que é, ao mesmo tempo, a zona de conforto deste homem de negócios que vive na Itália, tocando as atividades da família da esposa. Ele retorna à terra natal quando recebe uma ligação informando que o pai, que mora no Brasil, sofreu um derrame.

O primeiro longa de ficção de André Ristum apresenta tom marcadamente memorialístico, ainda que tenha poucos flashbacks ao longo da projeção, aparecendo em imagens granuladas, quase como fotografias desgastadas pelo tempo. O passado, na verdade, se encontra em tudo o que rodeia os personagens. Desde o momento em que Marcos chega em casa, as lembranças da infância, inevitavelmente, vão se apoderando do sujeito, através de cômodos, documentos, brinquedos e a presença dos familiares, que geram situações conflituosas. De um lado, está o irmão mais novo, Tiago, um rapaz inconsequente, imaturo, que mantém em segredo dívidas de jogos de azar. Do outro, uma irmã recém-descoberta, Manuela, que tem distúrbios mentais e era mantida escondida em uma instituição. É ela quem consolida no protagonista a jornada de reencontro prometida no cartaz do filme.

O longa aposta no minimalismo da composição dos personagens, especialmente no caso do protagonista, o que aumenta a responsabilidade de Santoro. É fácil compreender a tensão entre ele, o responsável, e Tiago, o hedonista inconsequente vivido apenas de forma corrreta por Raymond. Mas a trama deixa implícitas as motivações de Marcos em sair do país e relutar em voltar, além de manter tamanho distanciamento do pai a ponto de chamá-lo pelo nome, Armando. O papel coube ao sempre cativante Paulo José, responsável por mostrar que, em boa medida, Meu País é um filme sobre culpa e redenção inscritos em círculo familiar.

Vale destacar ainda a performance da belíssima Anita Capriol como a mulher de Marcos, papel mais difícil do que aparenta. No começo, ela incentiva o retorno do marido ao Brasil, dando o suporte emocional que se espera de uma esposa, mas logo perceberá que, obviamente, o altruísmo exige um preço, que ao que parece, seu companheiro conhece bem. Por sua vez, Débora Falabella, que já teve outras experiências com papéis de pessoas transtornadas, entrega aqui desempenho superior como a meia-irmã de Marcos, causando impacto mesmo em uma cena silenciosa registrada em uma câmera de segurança da instituição onde se encontra. Como curiosidade, há um momento entre ela e Rodrigo Santoro que remete diretamente à Cazuza - O Tempo Não Pára. Seria o cinema brasileiro se permitindo a autorreferência?

Sem entrar em spoilers, pode haver um certo descontentamento ao final da projeção para quem não gosta de finais abertos. Mas este não é um longametragem "sem fim". A narrativa tradiconal, independente de ser desenvolvida em um livro, telenovela ou longametragem, é trabalhada de modo a resolver todas as tramas que nela existem, sejam as principais, sejam as secundárias. Mas existem longas que propõem uma ruptura com este princípio, e trabalhos coreanos como o excelente Memórias de Um Crime são um bom exemplo neste sentido. No caso do longametragem Meu País, o foco, de fato, é o personagem vivido por Rodrigo Santoro. Ainda que haja um plot, o protagonista não necessariamente será guiado por isso, mas por seus próprios conflitos, bem conduzidos pela câmera sensível de Ristum.

Nota: 7,0 (de dez)










segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Meu Mestre, Minha Vida


Meu Mestre, Minha Vida (Lean On Me, 1989, EUA). Direção de John G. Avildsen. Com Morgan Freeman, Beverly Todd, Robert Guillaume, Alan North, Lynne Thigpen, Robin Bartlett, Michael Beach, Ethan Phillips, Sandra Reaves-Phillips, Sloane Shelton, Tony Todd.


Renato Cordeiro

Um cara errado em um lugar errado parece uma idéia tão errada que pode até dar certo, como demonstra a cinebiografia do educador Joe Clark, Meu Mestre, Minha Vida. O homem é convocado para dar jeito em uma escola marcada pela violência estudantil, a falta de controle dos professores e o descaso da prefeitura. Como um técnico de futebol que cai de paraquedas para salvar o time do rebaixamento, ele é um último recurso para uma situação desesperadora: a Eastside High School está para ser tomada pelo governo do estado, por causa do péssimo desempenho escolar. Ex-professor do centro de ensino, o sujeito autoritário e orgulhoso aceita a missão de se tornar diretor do inferno e fazer com que, em um espaço de menos de um ano, a escola melhore o desempenho em uma prova de conhecimentos básicos.

O filme começa de um jeito pouco inventivo, fazendo uma colagem de cenas de delinquência.
Drogas, volência entre alunos e até contra os professores são apresentadas em um resumo embalado pela canção Welcome to the Jungle, dos Guns N' Roses. A princípio, o espectador pode se perguntar se Meu mestre, Minha Vida será mais um daqueles trabalhos que fazem parecer fácil lidar com um caos que, mais de vinte anos depois, ainda desafia escolas de diversos países. Mas o protagonista, afeito à utilização de métodos pouco ortodoxos, adota ações drásticas que até convencem o público das chances de uma virada de mesa.

Joe Clark é apresentado como um sujeito capaz de incorporar, a um só tempo, paixão pelo trabalho e um pragmatismo carregado de agressividade. Comete vários excessos, pisa nos alunos e subordinados e não demontra arrependimento, mas é sagaz o suficiente para adequar um discurso de incentivo para cada platéia, ainda que a mensagem linha dura seja a mesma. Se o homem parece um típico palestrante motivacional ao cobrar empenho dos alunos, com o dedo indicador em riste, também pode discursar feito um pastor, com as mãos para cima e ritmo de fala característico, quando justifica os próprios atos para os pais dos estudantes, ou como um técnico de futebol, ao exigir que os docentes cumpram com o dever.
Morgan Freeman, a melhor coisa do longametragem, tem aqui um dos melhores papéis da carreira, sem aparentar qualquer esforço.

É inevitável que Meu Mestre, Minha Vida lembre outro trabalho conhecido do diretor John G. Avildsen, Karatê Kid, lançado quatro anos antes. O ajuste disciplinar também rende passagens que tem ao fundo a trilha assinada pelo mesmo músico do longa de 1984, Bill Conti. Já o personagem Joe Clark funciona como uma versão do Sr. Myiagi, ainda que, em vez da arte marcial, use a educação para disciplinar e libertar os pupilos de Eastside. A câmera o trata com a mesma reverência dispensada ao mestre vivido por Pat Morita, especialmente na cena final, que descamba em um sentimentalismo um tanto excessivo.

Nota: 6,0 (de dez)










quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O Despertar de Rita


O Despertar de Rita (Educating Rita, Reino Unido, 1983). Direção de Lewis Gilbert. Com Michael Caine, Julie Walters, Michael Williams, Maureen Lipman, Jeananne Crowley, Malcolm Douglas.


Renato Cordeiro

Quase sempre, os filmes sobre a relação entre professor e estudante fazem parecer que o problema está no aluno, aquele ser desprovido de luz que precisa do mestre para poder se desenvolver. É verdade que existem aqueles outros longas, como O Homem Sem Face e Encontrando Forrester, que apresentam profissionais já aposentados ou exilados que recuperam o gosto pelo ensino quando alimentados pelo genuíno desejo dos pupilos de aprender. O Despertar de Rita estabelece uma clara diferença entre os exemplos citados ao mostrar como protagonista não um ex-professor recluso, mas alguém saturado com o meio universitário, ainda dentro da academia.

O filme não se dedica muito aos bastidores dos departamentos ou à vida dos professores, mas sugere, pelas falas e expressões do amargurado personagem de Michael Cane, que a vida dos intelectuais pode ser marcada por uma petulância e vaidade capazes de apagar a chama de qualquer educador. Frank Bryant
é um sujeito desarrumado e alcóolatra que não se importa sequer com a própria reputação, acreditando que o fato de ter se tornado um profissional medíocre é até adequado, considerando-se a mediocridade dos estudantes. O elemento deflagrador do revés é a chegada de uma estudante especial, a desbocada cabeleireira Rita, que vê no estudo da literatura uma forma de recuperar as rédeas da própria vida. Bryant percebe rapidamente que a jovem tem um interesse verdadeiro pela arte, mas receia estar lançando mais uma pessoa ao buraco negro que o consumiu.

A câmera de Lewis Gilbert, que assinou três filmes de 007 entre os anos de 1967 e 1979, não tenta inovar ou chamar atenção. Isso acaba colaborando para que as cenas nas quais os protagonistas contracenam denunciem a natureza teatral do filme, baseado em peça de William Russell, também responsável pelo roteiro. Poucos cortes, movimentos de câmera econômicos e trilha sonora inexistente dão a tônica mesmo quando Caine e Julie Walters conversam em campo aberto. Os dois, aliás, estão perfeitos, especialmente Walters, que chama atenção pelo trabalho de voz, que aliada ao figurino e penteado, faz com que, aos 33 anos, o papel de uma jovem de 27 soe como se tivesse mais de 40. Um envelhecimento precoce que parece acompanhar a infelicidade da personagem.


Nota: 7,0 (de dez)










quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Stayin' Alive In The Wall

Mash Up inspirado que mescla os temas de dois famosos longas, Os Embalos de Sábado à Noite, monumento da disco que consolidou a carreira de John Travolta, e The Wall, musical inspirado no álbum homônimo da banda de rock psicodélico Pink Floyd. No vídeo, a canção Another Brick In The Wall ganha versos de Stayn' Alive, com direito aos característicos vocais dos Bee Gees.

Agradecimentos a Adriano Câmara, pela dica.

















terça-feira, 11 de outubro de 2011

Um Tira À Beira da Neurose


Um Tira À Beira da Neurose
(Gun Shy, EUA, 2000) Direção de Eric Blakeney. Com Liam Neeson,
Oliver Platt, Sandra Bullock, Jose Zuñiga, Richard Schiff, Andy Lauer, Mitch Pilegi.


Renato Cordeiro

Existem filmes que quase dão certo e por isso mesmo terminam em um lamento, sendo que Um Tira À Beira da Neurose é um caso típico. A comédia policial produzida por Sandra Bullock oscila entre o morno e o decepcionante, especialmente quando descamba para uma conclusão que mergulha em clichês do gênero. É possível que o espectador médio não faça muitas perguntas e engula situações inverossímeis uma vez ou outra, mas o trabalho força a barra e é pouco inventivo.

Uma coisa positiva no filme são as tramas paralelas, que até se desenvolvem melhor do que a história principal, sobre um agente do FBI vítima de algo como um estresse pós-traumático, depois de quase morrer em uma operação na qual trabalhou disfarçado. Mesmo apavorado, Charlie Mayou é convencido a se manter infiltrado na organização como forma de capturar bandidos que estão para fechar um grande negócio criminoso. A partír daí, acompanhamos o personagem de Liam Neeson se dedicando a outras duas situações que se desdobram em paralelo: a paixão pela enfermeira vivida por Sandra Bullock e os desabafos no grupo de terapia do qual participa.

Como na maioria das vezes, o interesse amoroso não passa de um tique nervoso dos roteiros hollywoodianos, que tem sempre que pôr algum romance nas histórias. Pelo menos, em Gun Shy o affair entre Neeson e Bullock colabora com a história, já que as condições em que se encontram ajuda a realçar a fragilidade e transparência involuntária do protagonista. Por sua vez, as sessões coletivas de terapia são uma boa ferramenta para que o espectador tenha mais clareza de quem é o agente, ainda que o recurso se desperdice ao retratar pessoas não muito engraçadas, tornando ainda mais difícil para o filme arrancar um sorriso do espectador.

A grosso modo, Um Tira À Beira da Neurose seria algo como a versão policial de Máfia no Divã, embora o trabalho de Eric Blakeney seja menos inventivo. O roteiro até se desenvolve bem e cria boas sequências, como aquela em que acompanhamos, intercalados, os posicionamentos sobre uma operação criminosa por parte da polícia e dos dois lados da transação. Algo assim também ocorre em uma narração em off de Neeson, quase que apresentando fatos que se passam em uma cena envolvendo dois superiores do agente. A comédia poderia funcionar melhor se tivesse menos soluções óbvias e diálogos mais afiados.

Nota: 5,0 (de dez)










segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Virtude Selvagem


Virtude Selvagem (The Yearling, EUA, 1946) Direção de Clarence Brown. Com Gregory Peck, Jane Wyman, Claude Jarman Jr., Chill Wills, Clem Bevans, Margaret Wycherly, Henry Travers, Forrest Tucker, Donn Gift.


Renato Cordeiro

Apesar de envelhecido,
Virtude Selvagem mantém a força de um sensível drama sobre como pode ser penosa a estrada para a maturidade, ainda mais quando se cresce no lar de pobres agricultores na Flórida pós-Guerra Civil. Em meio a uma vida marcada por sucessivas tragédias e algumas poucas esperanças, pais e filho desenvolvem uma crescente dificuldade em exercer os respectivos papéis por causa do conflito entre a inocência da criança e a dura realidade do mundo dos adultos.

Jody é o filho único dos Baxter, rodeado por uma natureza exuberante cuja fauna ameniza a solidão. O único amigo da mesma idade mora longe e não pode visitá-lo por conta de uma deficiência. Quando o pai, Penny Baxter, se vê obrigado a sacrificar um veado, Jody recebe a chance de adotar um animal, justamente o filhote do cervo. Mas aos poucos o bicho indisciplinado começa a criar problemas e abala até a relação familiar.

A direção correta torna o filme bastante dependente de outros elementos que, felizmente, funcionam bem, a exemplo do roteiro, a fotografia que parece feita de pinturas e o elenco principal. A trama chama a atenção pela inversão de papéis entre marido e mulher, sendo o primeiro o otimista conciliador e a segunda a figura de autoridade que impõe limites sobre o garoto. Pena que o filme tem como ponto fraco justamente aquele que deveria ser o maior trunfo, já que o ator-mirim Claude Jarman Jr, por vezes, carrega excessivamente no deslumbramento do personagem. Por outro lado, Gregory Peck é só carisma ao fazer o típico papel de bom pai que reprisaria anos mais tarde em longas como A Luz É Para Todos e O Sol É Para Todos. Mas o destaque é mesmo Jane Wayman, que na pele de Orry, constrói uma mulher ranzinza, dona de um coração endurecido pelas sucessivas mortes de filhos que sequer atingiram a adolescência.

O longametragem também tem sucesso ao evitar conferir aos pais uma vilania que seria fácil de ser alcançada. Em vez disso, a obra deixa transparente a mentalidade da época, quando
as famílias tinham nos filhos, desde cedo, mais do que laços de sangue, mas também colaboradores pela sobrevivência coletiva. Ainda que percebam as necessidades de Jody, as preocupações e atitudes dos Baxter são sempre justificadas pelo roteiro, o que faz de Virtude Selvagem uma fábula da ética do trabalho.

Nota: 6,0 (de dez)